Provavelmente já deu por si a fazer uma retrospetiva da vida e perceber que, afinal, não atingiu metade dos objetivos que tinha proposto concretizar. É possível, até, que tenha sido confrontado com uma situação inesperada de divórcio ou morte. Ainda que sejam três eventos diferentes e, cada um à sua maneira, dolorosos, todos eles obrigam a um desfecho relativamente semelhante: a superação individual face a um problema que não tem rosto, que não é palpável, e sobre o qual se tem zero controlo.

Não é por acaso que estas histórias são das mais bem sucedidas da indústria da televisão ou do cinema. É que todos nós, em algum momento das nossas vidas, já passámos por experiências traumáticas — como uma separação, um período de luto ou uma crise de meia-idade — e isso cria um sentimento de identificação do espectador com o protagonista. Porque tal como ele, também nós nos vimos confrontados com dilemas vagos, muitas vezes sem explicação, motivados por forças que não controlamos.

Esta podia ser a sinopse de "Êta Mundo Bom!", uma das telenovelas de maior sucesso da Globo em 2016 e que esta segunda-feira, 27 de julho, se estreou na SIC conquistando 951 mil espectadores e liderando, pela primeira em sete anos, o horário das 19 horas do canal.

Escrita por Walcyr Carrasco, responsável por outras grandes novelas como "Gabriela" ou "Alma Gêmea", a novela conta uma história de superação e perseverança — mesmo quando os obstáculos teimam em surgir. E ao contrário das histórias de terror, aqui o monstro é outro. É uma entidade sem forma, invisível, vaga e que não se consegue muito bem explicar. É a vida, no fundo.

Candinho, assim se chama a personagem principal interpretada por Sérgio Guizé, é separado da mãe logo após o nascimento decorrente de uma gravidez não planeada. E embora a mãe queira o filho junto de si, depressa percebemos que o patriarca da família, austero e conservador, olha para aquela criança como uma desonra para o seu nome e para o seu império.

Confrontado com uma mudança repentina na sua vida, a decisão implacável do patriarca: vender a fazenda na qual vive com a família, para não estar associado ao local do nascimento de um bebé que lhe mancharia o nome, e ordenar a morte do bebé. O trabalho sujo é atribuído a um dos seus guardas que fica encarregue de o atirar ao rio.

Só que a tragédia é evitada, claro, pela mulher que ajudou no parto e lhe implora que, pelo menos, a deixe levar a criança para outra família que seja capaz de lhe dar o amor de que ele precisa. Desconfiado, concede. Candinho, um pequeno bebé, enfrentou a morte e sobreviveu sem agência própria. Mas os desafios seguem-se quando cresce.

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É que ainda que vá crescendo no seio de uma família no limiar da pobreza, mas que ama e de quem tem amor, sabe que a sua mãe biológica ficou para trás. Sem que tenha tido qualquer capacidade de escolha, a vida separou-o da mãe e isso obrigou-o a uma viagem interior de autodescoberta. Candinho é o herói da história e nós, telespectadores, identificamo-nos com ele — e com o percurso que vai ter de fazer sozinho — porque também nós já nos vimos forçosamente separados de alguém.

"A estrutura deste tipo de histórias assenta na capacidade de o nosso herói ser capaz de aceitar as forças da natureza que não consegue compreender ou controlar. A vitória está, portanto, no facto de, apesar disso, no final conseguir sorrir", escreveu o conceituado argumentista Blake Snyder no seu livro "Save the Cat", a propósito da estrutura narrativa dos maiores argumentos da indústria.

Se a premissa lhe parecer semelhante a tantas outras reutilizadas em séries ou filmes de grande sucesso, é porque é. Mas não importa porque, de facto, funciona. É que à medida que Candinho vai assumindo como objetivo primário voltar a encontrar-se com a mãe, o espectador sabe que esta também o procura mesmo que haja uma vilã que promete separá-los uma vez mais.

É essa viagem de superação e de conflito constante que nos faz torcer pelo herói. Tomamos como nossas as suas dores porque são dores que todos nós, de alguma forma, conhecemos, vivemos ou experienciámos de perto.

É a escrita do argumento, portanto, que faz de um produto um projeto de sucesso. E "Êta Mundo Bom!" tem qualidade de sobra não só no cuidado prestado aos diálogos mas também à construção das personagens que, como deve ser, devem tornar o produto final ainda melhor e não o contrário. Não são raras as vezes que, nas novelas portuguesas, a escrita é muitas vezes preguiçosa e os nossos atores de referência são obrigados a encenar cenas mal construídas, com diálogos pobres e outras coisas que, simplesmente, não os dignifica.

O exemplo mais "recente" é talvez o de "Nazaré", a novela da SIC que, na primeira temporada, não favoreceu algumas das suas estrelas como Albano Jerónimo ou Virgílio Castelo com frases francamente pobres e momentos inverosímeis. Na altura da estreia da novela, a MAGG escreveu isso mesmo na crítica que fez ao primeiro episódio.

"Dois atores com a qualidade de Albano Jerónimo e Virgílio Castelo não mereciam uma cena tão fraca, inverosímil, apressada, com diálogos tão básicos, como aquele em que António Blanco (Virgílio) confronta Félix (Albano) com um desfalque que ele deu na empresa. Vamos por partes. Primeiro, um sócio e gestor profissional desvia 1,3 milhões de euros da empresa, durante seis meses (o que dá 216 mil euros por mês), e acha que ninguém vai descobrir? Os dois, António e Félix, são sócios de uma empresa de design de mobiliário na Nazaré, não são sócios da IKEA, por isso, perguntamos: quanto é que aquela empresa pode faturar mensalmente para um dos sócios achar que se desviar 216 mil euros por mês durante seis meses ninguém vai desconfiar?".

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E lê-se ainda. "Segundo, o dono da empresa olha para um papel durante dois segundos, após uma denúncia anónima, e automaticamente confirma que o irmão o está a roubar. Não tenta confirmar, não vai ver relatórios e contas, não dá benefício da dúvida, nada. Acusa-o logo de ser um ladrão. E como é que Félix reage às acusações? Como é que se defende? Não se defende: assume logo que é culpado e que vai repor o dinheiro todo. Tudo muito pouco credível, pouco sustentado e acelerado."

Para uma novela que, sabia-se de antemão, tinha planos para ser longa, não havia necessidade de tanta rapidez que, obviamente, leva ao descurar absurdo da coerência narrativa. Nesse aspeto, "Êta Mundo Bom!" faz uso dos seus 190 episódios (emitidos entre janeiro e agosto de 2016) para construir as personagens, os dilemas e todos os obstáculos que vão compor todo aquele universo.

"Mas no Brasil há mais dinheiro para a ficção", poderá estar a dizer desse lado. É verdade. E a ficção portuguesa, há que dizê-lo, melhorou muito nos últimos anos e quem disser o contrário não sabe do que está a falar. Mas pode melhorar ainda mais. E não me refiro especificamente na questão dos exteriores, nas técnicas de filmagem ou na edição. Mas sim à escrita.

Para que um bom produto seja um bom produto, é preciso que esteja bem escrito. Talvez nesse campo, "Êta Mundo Bom!" possa recordar que uma estrutura narrativa, com atos, quebras, dilemas, conflitos, é bem mais importante para dar ao herói motivações primárias para agir e tentar ultrapassar aquilo que, no início da história, o ameaça castrar.

"Êta Mundo Bom!" é emitida todos os dias na SIC a partir das 19h15.

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