A SIC estreou esta segunda-feira, 19 de setembro, a nova novela da noite, "Sangue Oculto", apresentada como uma "super produção", e que conta no elenco com grandes estrelas da ficção portuguesa e brasileira como Sara Matos, Sofia Alves, António Pedro Cerdeira ou Luana Piovani. A história não é particularmente criativa — gémeas separadas à nascença é um daqueles clichés clássicos das novelas — mas até poderia ter um desenvolvimento interessante. A MAGG viu o primeiro episódio e não nos foi fácil encontrar muitas coisas positivas (mas também as houve, já lá iremos). Negativas, essas, foram mais que muitas. Vamos então ver as cenas mais inacreditáveis da estreia de "Sangue Oculto".

1. A cena do hospital manhoso

Toda a sequência do parto mete algum medo
Toda a sequência do parto mete algum medo

Dizem as regras da escrita de ficção que a cena inicial, o momento de abertura, de um filme, uma série ou uma novela deve ser fortíssima, impactante e, de alguma forma, marcar o tom do que iremos ver de seguida. E isso aconteceu em "Sangue Oculto". A primeira sequência da novela é tão má, tão má, que deu claramente para perceber o que vinha daí para a frente. Mas vamos lá tentar explicar. Então, começamos por ver um edifício em obras, com pessoas a trabalhar, faíscas a saltar, jornais espalhados no chão, andaimes. Ao mesmo tempo, no que parece ser o mesmo espaço, está uma mulher a parir. Mas a senhora foi parir a um prédio em obras porquê? Porque é que não foi para um hospital normal? Entendia-se que se quisesse passar a imagem de uma clínica clandestina se a mulher fosse lá para abortar, mas não, foi para ter os filhos. Nunca se percebe o porquê de os ter tido naquele sítio em obras.

2. A feroz perseguição hospitalar

Depois de ter tido a primeira filha, a bebé é levada por uma mulher loira que entra pelo hospital com óculos escuros à Matrix e saltos altos (???). A mãe está sedada, mas vê perfeitamente a bebé a ser levada pela outra mulher. Depois, tem a segunda bebé. A mulher misteriosa diz-lhe que a outra bebé nasceu morta. A mãe salta então da maca (tinha tido gémeas há 1 minuto), pega na bebé e começa a fugir pelo hospital. Repetimos: uma mãe tem dois bebés, está sedada, mas levanta-se da maca e começa a correr (correr, quer dizer, um misto entre andar rápido e arrastar-se) pelo hospital. Se isto parece uma coisa ridícula, o que aí vem é ainda pior. A mulher loira salta numa feroz perseguição, a correr a 3 à hora, atrás da mãe, que "foge" com a bebé nos braços. E consegue escapar. Ou seja, uma mulher perfeitamente saudável não foi capaz de apanhar, em 10 metros, uma mãe que acabara de parir gémeos, há 5 minutos, e que foge a correr, com um bebé recém-nascido nos braços, pelo corredor de um hospital manhoso. Certo.

3. Bora fazer uma vaquinha para ajudar a Sofia Alves a vir a Portugal?

A ação avança 30 anos no tempo. Estamos em Londres, onde a mãe corredora (Sofia Alves) vive com a bebé (Sara Matos, já crescida) e a neta (filha de Sara Matos). Numa sequência, é possível ver como a tal mãe chegou como empregada de limpeza e conseguiu chegar a empregada de balcão. A filha torna-se enfermeira. Excelente, boa miúdas.  Só que aparentemente o salário de uma enfermeira em Londres (o valor médio são 4500 libras, aproximadamente 5100 euros mensais) juntamente com o de uma mãe que serve às mesas (que deve rondar os 3 mil, vá) não é suficiente para que mãe e filha (e agora também neta) alguma vez tenham conseguido comprar um bilhete de avião para vir a Portugal. Elas vivem em Londres, não vivem em Tóquio. Há pelo menos 15 anos que há bilhetes da Ryanair a 10 euros entre Lisboa e Londres. Todos os emigrantes portugueses espalhados pelo mundo trabalham, muitos em empregos como servir às mesas, e ganham o seu dinheiro para, todos os anos, visitarem Portugal. Por isso, de certeza que vamos descobrir que Sofia Alves e Sara Matos gastavam tudo em álcool e jogo e só por isso não conseguiram comprar uma viagem para visitar os pais e avós em Portugal.

4. Falar em português é falta de educação, sabiam?

Numa das cenas em Londres, Sara Matos, com um aprumado sotaque de Cascais, que seguramente apanhou da mãe, emigrante há 30 anos em Londres, e que tem origens humildes na Costa da Caparica, está a falar com a filha (só as duas) num jardim. A miúda fala em português com a mãe, que lhe responde: "Estamos em Londres, não podemos falar em português porque é falta de educação". Oi? É falta de educação mãe e filha falarem na sua língua quando estão na presença de absolutamente mais ninguém? OK. Sempre a aprender.

5. Agora já somos ricos, é isso?

Finalmente, Sofia Alves e Sara Matos conseguiram juntar os 10 euros para viajar na Ryanair para Portugal. A motivação? A mãe de Sofia Alves sofreu um AVC. Chegam ao aeroporto de Lisboa todas juntas, mas a mala de Sara Matos, aparentemente, não chegou, ou ficou perdida, e ela resolve ir ver o que se passa. E a mãe e a filha vão com ela? "Não, vão andando que eu vou lá ter a casa dos avós", diz Sara Matos. E elas vão. Vamos lá ver uma coisa. Então, as três chegam a Portugal, não têm carro, não têm ninguém à espera delas no aeroporto (que pais são aqueles que não vêem a filha e a neta há 30 anos, nunca viram a bisneta, e não vão sequer esperá-las ao aeroporto) e têm de ir para a Costa da Caparica. Apanham um táxi, OK. Mas um táxi do aeroporto para a Costa custa uns 40 euros. Mas nem o custo do táxi demove Sofia Alves de se ir embora com a neta e deixar a filha no aeroporto a resolver a cena da mala. O que é que Sara Matos faz? Presume-se que tenha apanhado um segundo táxi, ou seja, mais 40 euros. Resumindo, duas mulheres que nunca tinham vindo a Portugal em 30 anos, quando há bilhetes Londres-Lisboa a 10 euros, gastam 80 euros em dois táxis para a Costa só porque a mãe não está para ficar à espera que a filha recupere a mala. OK.

Filha e neta não viam os avós há 30 anos
Filha e neta não viam os avós há 30 anos

6. Quem nunca foi com a mala de viagem para a praia que atire a primeira pedra

Sara Matos recuperou a mala de viagem. Yeah! Apanha o tal táxi para a Costa e vai a correr ver a avó que teve um AVC? Vai a correr para os braços do avô que nunca viu? Vai ter com a mãe e a filha? Não. Vai direta para a praia da Costa, a carregar a pesada mala de viagem pelas dunas. Mas porque na praia estava alguma coisa muito importante para ela? Hum... não, porque foi jogar vólei de praia com a mesma roupa com que vinha no avião. E o que é que acontece quando ela está a jogar vólei? Uns putos tentam roubar-lhe a mala de viagem, coisa muito normal. Tudo certo, tudo lógico. Mas porque é que ela teve de ir para a praia? Porque dava jeito ela perder uns sapatos para o João Catarré os encontrar. A cena da praia pareceu uma boa ideia a quem escreveu a novela. Porque não? Também se podia ter atirado do avião com um para-quedas antes de aterrar em Lisboa e os sapatos caíam-lhe dos pés e aterravam na cabeça do Catarré. Fica a ideia.

7. Segurança rodoviária pelas ruas da amargura

Na mais espetacular cena da estreia da novela, um carro de todo o terreno tenta fazer uma ultrapassagem maluca a um autocarro urbano da Costa da Caparica, mas a coisa corre mal. O carro despista-se e fica enganchado na frente da camionete, que trava de repente. E o que é que isto origina? Um acidente gravíssimo, cheio de feridos, com ambulâncias, gente cheia de sangue, um condutor desmaiado (então e o cinto, senhor?). Se era para dar espetáculo, então que pusessem o autocarro a capotar, que isso já explicava o aparato médico. Mas isso já era muito caro. Fica assim, que para quem é bacalhau basta.

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8. Quando temos pressa o que é que fazemos? Parkour, claro.

Quem é que ficou preso no trânsito com a cena do acidente? O desgraçado do Catarré. Mas ele percebe que a coisa está feia e quer ajudar. Então, sai do carro e faz o que qualquer pessoa faria numa situação daquelas. Começa a fazer parkour pelo meio dos outros carros, com mortais no ar, saltos por cima de viaturas, o que normalmente costumamos ver na fila do IC19 ou da Circunvalação.

9. O confronto final

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Mas nem tudo foi mau na nova estreia da SIC. Há uma cena boa, a última, em que as gémeas se vêem uma à outra já em adultas. Foi fixe. E foi só.

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