É no terceiro episódio do documentário "Wild Wild Country", da Netflix, que aparece uma referência a Portugal. "Em quase todos os sítios do mundo havia comunas de Bhagwan", conta Sheela, uma das personagens mais importantes da história da comunidade criada por um guru indiano. "Tínhamos comunas na Índia, na Austrália havia várias. Em Itália, havia muitas. Na Alemanha, em Amesterdão, Suíça. Portugal tinha uma comuna."

Se ainda não viu "Wild Wild Country", pedimos-lhe encarecidamente que feche este artigo e volte depois — não há como perceber do que vamos falar a seguir sem antes fazer binge-watching num dos documentários mais recentes e viciantes da Netflix. A série documental conta a história de um culto criado nos anos 80, comandado pelo líder espiritual Bhagwan Shree Rajneesh, também conhecido por Osho.

Podia ser uma comunidade igual a tantas outras. Só que Rajneesh saiu da Índia, mudou-se para os EUA e criou uma cidade utópica no deserto do Oregon, Rajneeshpuram. O conflito com os habitantes locais foi imediato, ou não tivesse acabado de chegar à ultra-conservadora América uma comuna onde toda a gente se vestia de vermelho (e às vezes cor de rosa também), o sexo não era tabu e a meditação era feito de gritos, pulos e danças para extravasar os seus sentimentos.

[postblock id="Afinal quem era Osho?" Afinal quem era Osho?]

Digno de um filme de Hollywood, a polémica adensou-se. Sheela, braço direito de Osho, tornou-se numa porta-voz provocadora na comunicação social, mas isso foi apenas um pequeno percalço no que veio a seguir — em 1985, a secretária baixinha e bochechuda declarou-se culpada de tentativa de homicídio e envenenamento de centenas de pessoas com salmonela.

Mas vamos voltar a Portugal. Qual foi afinal a ligação do movimento Rajneesh ao nosso País? Houve de facto uma comunidade cá? A MAGG conseguiu encontrar Valter Carlos Cardin, um brasileiro natural de São Paulo que vive desde os anos 90 em Portugal. Aos 64 anos, este professor na área do design e marketing esteve na Índia e nos EUA com Osho e recebeu-o por cá quando o guru indiano foi expulso pelos norte-americanos.

Ma Anand Sheela e Bhagwan Shree Rajneesh

Alguma vez houve uma comunidade Rajneesh em Portugal?
Eu nunca tive conhecimento. Oficialmente tinha um centro de meditação oficial nas Picoas, acho que na 5 de Outubro [em Lisboa]. Mas ela divulga mais Reiki. Houve uma em Penacova, nos anos 90. Alguém abre aqui e ali um centrinho, mas isso não é uma comunidade. Comunidade mesmo como tínhamos em São Paulo, onde as pessoas moravam na fazenda, nunca existiu.

Como era o centro de meditação em Penacova?
Era pequenino e controlado por estrangeiros. Era um casal de alemães. O lugar é muito bonito, mas não havia espaço ali para muita adesão.

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Era uma herdade?
Não, era uma casa numa vila de Penacova, ao cimo do rio. Você olhava e a paisagem era bonita. Mas ali nunca aconteceu quase nada. Tanto que depois desapareceu.

Quantas pessoas eram?
Que eu saiba era só o casal. Foram os únicos que conheci.

Como é que conheceu o movimento Rajneesh?
Foi em 1980. Comprei um jornal do Espaço Soma, um centro de meditação em São Paulo, que tinha um artigo sobre Osho. Fui ao centro, no artigo estava lá a morada, e pedi a iniciação. Deve ter sido em julho de 80. Em outubro tive o nome, que veio direto do Osho. Era ele que o dava.

Que nome recebeu?
Gyanesh. Swami Gyanesh.

As meditações de Osho não eram silenciosas

O que é que o fascinou neste movimento?
Sempre estive ligado a movimentos espirituais. Neste movimento fascinou-me a queda de paradigmas na altura, os anos 80 foram revolucionários nesse sentido; em termos criativos, como era arquiteto; a nova forma de estar perante o mundo, a fraternidade, a meditação.

Chegou a conhecer Osho?
Sim, em 1981 fomos para os EUA, no primeiro festival internacional que ele fez. Fiquei lá um mês, junto com um grupo da comunidade de São Paulo, que era grande.

Estamos a falar de quantas pessoas?
Morando devia ter umas dez, 15. Depois as que frequentavam vinham de todo o lado do Brasil.

Esteve mesmo em Rajneeshpuram, então.
É, em Rajneeshpuram. No primeiro festival. Deviam estar lá umas cinco mil pessoas.

Osho em Rajneeshpuram

Como era o ambiente?
Super bem organizado. As tendas eram enormes, cabiam quatro pessoas com as malas dentro. O lugar era muito lindo. Tenho saudades, até. No meio das montanhas. Tinha meditação às cinco da manhã, havia várias tendas para trabalhos de grupo, havia o Satsanga [o discurso]  todos os dias com ele. Naquela altura ele não discursava, era só silêncio. Por volta das 22 horas todo o mundo se recolhia. Havia muitos sítios para comer. Era muito bem organizado.

Chegou a ver o documentário da Netflix?
Não.

No documentário eles falam em sessões de meditação em que as pessoas gritavam, saltavam.
Sim, eram os grupos de crescimento. Dependendo do tipo de sentimento que era tratado, as pessoas gritavam. Na meditação de manhã, por exemplo, a primeira, era forte.

E qual era o objetivo?
Era uma forma de libertação das emoções que você guarda. Guardando emoções não dá para meditar. É um processo de limpeza.

Outra coisa abordada no documentário é a liberdade sexual que se vivia na comunidade.
Liberdade sexual temos em todo o lado, depende da vontade de qualquer um. Havia grupos de crescimento que envolviam às vezes um pouco de... para resolver problemas de repressão sexual que as pessoas tinham. Havia grupos de crescimento nesse nível.

Mas toda a gente se podia envolver com toda a gente, não havia casais pré-estruturados?
Sim. É como na sociedade atual, cada um se envolve com quem quiser.

Os membros da comunidade vestiam-se de cor de rosa e vermelho

Sim, mas no documentário fiquei com a sensação que Osho não acreditava no casamento.
As pessoas se podiam juntar, mesmo na comunidade havia casais. Até ao dia em que acaba. Mas não era assim uma coisa oficial. As pessoas namoravam um tempo e depois se não desse mais, pronto, paciência. Nesse sentido havia liberdade, podia durar um dia, uma semana, um mês. Havia liberdade nesse sentido.

O que se calhar não era muito normal naqueles tempos.
Não, não era normal. Todo o dia havia passeata [protestos], mesmo dentro da fazenda, contra o grupo; era tido como o demónio. Os protestantes americanos odiavam aquilo, e o sistema de governo também. Pregava liberdade, uma coisa que numa sociedade rígida, de costumes muito rígidos, não era bem visto. Tanto que foi expulso de lá.

Eles entravam em Rajneeshpuram?
Entravam, pelas vias de acesso. E protestavam. Eu não presenciei nenhum, quando lá estava eles não entraram. Mas você via pela TV, dizendo coisas horrorosas. Para a altura, era uma coisa extremamente perigosa. Quebrava os valores todos da sociedade americana.

Chegou a conhecer Sheela?
Sim, conheci a Sheela. Inclusive ela foi no Brasil buscar dinheiro. Ela surrupiou dinheiro de meio mundo.

A sério?
A sério. Ela recolheu muito dinheiro no Brasil. Para ajudar nisso, naquilo, no outro.

Esteve com ela no Brasil?
Estive em reuniões. Mesmo nos EUA, ela estava lá.

Como é que ela era? Era intimidante?
Não, normal. O comportamento dela é que também ajudou aquilo a se deteriorar.

Sheela posa na frente da placa de Antelope, a comunidade norte-americana que se revoltou contra a construção de Rajneeshpuram

Como assim?
Quem controla um grupo tem acesso a contas, controla dinheiro... acabou dando naquilo. Ela deve ter levado dinheiro. Atualmente acho que vive na Suíça.

Sim, é o que aparece no documentário.
Pois, ela fugiu para a Suíça.

E Osho?
Quando foi expulso dos EUA, ele parou em Londres mas não pôde sair do avião porque era persona non grata. Vieram parar em Portugal. Levaram-no a Sintra. Porque tinha um português no meio da comunidade, um terapeuta que era oficialmente o terapeuta na comunidade.

Sabe como é que ele se chamava?
Não me lembro do nome dele. Mas eu próprio fiz nos EUA grupos de crescimento com ele, conheci-o também na Índia. Portugal foi o único país que não expulsou Osho, por isso levaram Osho a Sintra. Ficou um mês, no máximo, mas chegou à conclusão que isso aqui não tinha espaço e resolveu voltar para a Índia. Para Portugal teria sido bom, mas naquela altura... Eu cheguei aqui em 90 e já achava aqui meio arcaico, imagine na altura que ele passou cá.

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Ele esteve cá logo após sair dos EUA?
Logo a seguir. Em Portugal não havia espaço para uma comunidade assim. Se tivesse ido para outro lado talvez tivesse ficado. Mas pronto, voltou para a Índia. Logo a seguir eu também fui e fiquei lá dois meses.

Como era o ambiente?
O ambiente era bom. Ninguém entrava sem fazer exame de sida. Pagava-se 20 rupias (0,25€) para entrar e podia ficar o dia inteiro a meditar. A gente conhecia pessoas do mundo inteiro. Era fraternal. São experiências, acho que todo o mundo passa por uma.

Como é que era Osho?
Na Índia ouvíamos ele todos os dias. Ele era muito carismático, pela trajetória de vida dele. Foi professor universitário, acho que tinha até doutoramento. Era carismático, muito bem humorado. Se bem que obviamente num grupo daqueles era tudo muito controlado, tinham medo que o assassinassem. Havia deteção de metais para entrar na meditação, várias pessoas que lhe eram próximas a cheirar todo o mundo para ver se ninguém entrava com perfumes por causa de alergias. Quem fumava não podia entrar, ficava num setor à parte.

Isto na Índia ou também nos EUA?
Nos EUA também era controlado sempre o acesso. Não se podia sair a meio da meditação ou do discurso, tinha de ficar ali mesmo sentadinho.

No documentário falam de vários crimes, nomeadamente fraude eleitoral, envenenamento.
Depois de Sheela ir ao Brasil e levar dinheiro, o grupo de São Paulo rompeu com a comunidade. Porque virou religião. Quando vira religião vai contra aquilo que ensinavam. Eu voltei atrás e fui para a Índia, mas o grupo de São Paulo não. Ficou independente. Até hoje — ainda existe.

1. A verdadeira questão não é se há vida antes da morte. A verdadeira questão é se estás vivo antes da morte.

2. Dizem: pense duas vezes antes de saltar. Eu digo: salta primeiro e depois pense tudo o que quiser.

3. O amor é o objetivo, a vida é a viagem.

4. Não é uma questão de aprender muito. Pelo contrário, é uma questão de desaprender muito.

5. A criatividade é a maior rebelião da existência.

Não estou a perceber. Porque é que romperam?
Porque eles tentaram formar uma religião nos EUA. Quando é religião tem benefícios e não se pode estar criando tantos problemas. Mas acabou por não acontecer e Osho voltou para a Índia. Com o escândalo todo, muita gente acabou saindo.

Tem ideia se os portugueses aderiram ao movimento?
Na altura que eu cheguei aqui dei muitos grupos de meditação, comecei a divulgar. Não cobrava, pagavam apenas as despesas do aluguer dos espaços, dos conventos. A gente ia para os conventos. Na Parede, na Torre d'Águilha, várias vezes. O maior que fizemos foi em Braga, tinha umas 67 pessoas no Convento dos Franciscanos.

E no que é que isto consistia?
Nas meditações que se praticavam na comunidade. Depois tinha outras coisas que aprendi na Índia, massagem ayurvédica.

E ainda faz hoje?
De vez em quando, quando alguém pede na Associação Luso Brasileira de Ayurvédica. A gente pratica uma ou outra, só. Não há tempo para tudo.

Em 2010 houve o primeiro festival Rajneesh em Portugal.
Sim, eu vi. Um dos que encabeçaram isso aprendeu comigo quando eu tinha um espaço em Picoas.

Osho era uma figura carismática. Morreu a 19 de janeiro de 1990

Foi ao festival?
Não, não, porque não me atrai muito. Eu sou das primeiras levas, a terceira leva, aliás. Esse pessoal que entra às vezes não... não me atrai.

Acha que esta nova vaga já não segue os ensinamentos dele?
Já não é a mesma coisa. Não tem a vibração que tinha. E esse pessoal que entra agora às vezes cheira mais a comércio do que a outra coisa qualquer. As meditações sempre foram gratuitas, eu mesmo nunca cobro, só as despesas do aluguer. Na Índia era assim também, pagava um bocadinho para entrar e depois não pagava nada.

Agora já não é assim?
Virou um comércio para todo o lado.

Tem ideia de quantos seguidores existem neste momento?
Não tenho a menor ideia, isso tem de perguntar para o grupo da Índia. Não sei se te vão responder.

Podemos usar o termo seita quando falamos na comunidade Rajneesh?
Todo o grupo que segue um mestre podemos chamar um bocadinho de seita. No começo nós usávamos aquelas roupas e andávamos com o colar pendurado o dia inteiro na rua. Eu ia trabalhar numa estatal muito chique no Brasil vestido de vermelho e com o colar pendurado, pronto. Todo o mundo me conhecia no prédio de 12 andares (risos). Eu não chego a chamar isso de seita. Havia liberdade, não era heil Hitler. Mas acredito que há desvirtuamento de certas pessoas que ficam fanáticas e realmente não aprendem aquilo que se ouvia nos discursos.

Acha que foi isso que aconteceu com Sheela?
Eu acho que sim.

E Osho não fazia a menor ideia do que se estava a passar?
Provavelmente não.

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