Ir à praia é afinal uma das coisas “mais seguras que se pode fazer”. Quem o diz é Jaime Nina, infeciologista do Hospital Egas Moniz, professor na Universidade Nova de Lisboa, no Instituto de Higiene e Medicina Tropical e na Faculdade de Ciências Médicas. Em entrevista à “Sabado” o especialista explica ainda que o R (o número de pessoas infetadas a partir de um caso infetado) está “mau”, defende que o país não devia ter desconfinado todo ao mesmo tempo e que o vírus continua a circular.

O infeciologista acredita que estes surtos que estão a ocorrer por todo o país só querem dizer uma coisa. “Significa que há pessoas que andam com o vírus e não se apercebem de que estão infetadas e que vão infetando outros”, afirma. Acrescenta ainda que Portugal, e a Europa, estão a fazer poucos testes e faz uma comparação entre Portugal e Singapura – um dos países que mais testam os seus cidadãos. “Portugal está num regime hiperdefensivo: tem 10 jogadores em frente à baliza a tentar que o vírus não consiga marcar. Singapura foi para o ataque: anda à caça do vírus em tudo o que é sítio”. Por esta razão não se devia ter desconfinado o país de forma igual – já que não há nenhum estado que explique que a situação é igual em todas as regiões. Como se veio a confirmar, não era mesmo.

Em relação aos surtos na região da Grande Lisboa, Jaime Nina acredita que o número está a aumentar por se estarem a fazer mais testes. “Este número de casos novos que parece um aumento muito grande é, em parte, inflacionado porque estão a ser testadas muitas pessoas”, explicou. “Se olharmos para os internamentos ou para os internamentos em cuidados intensivos ou para o número de mortos, eles estão estáveis e a diminuir. Não houve um ressurgimento enorme, antes pelo contrário. Felizmente, continua a acalmar. Claro que o ideal era já ter parado”. Apesar disto, concorda com as medidas mais apertadas para estas regiões.

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“Na reunião que houve foram definidas 19 freguesias – e dou os parabéns por terem feito uma análise tão detalhada – para perceber sob quais era preciso apertar as regras”, referiu. O especialista explicou ainda que algumas destas zonas têm uma coisa em comum: bairros degradados. “Dizer que a pessoa está em casa e não sai e que trabalha em teletrabalho é tudo muito bonito para a classe média que tem um computador e um apartamento minimamente confortável. Vamos para barracas com 6 ou 7 pessoas, metidas num sítio pequeno. Sem computador e têm que ir trabalhar”.

Em relação ao comportamento do vírus agora na época de mais calor, o especialista não tem dúvidas: “A transmissão não se dá ao ar livre, dá-se em espaços fechados”. Como exemplo desta afirmação, falou num estudo publicado o mês passado na China onde foram analisados 318 surtos sendo que 317 ocorreram em espaços confinados como supermercados ou restaurantes. O restante ocorreu numa festa de um pátio, que não tinha teto, mas que tinha paredes a ladear o espaço. O facto de esta festa ter acontecido durante a noite também não ajudou porque “não temos o efeito da radiação ultravioleta a matar os vírus”.

Citando um estudo norte-americano, Jaime Nina explica que o vírus “não consegue sobreviver aos raios ultravioleta”. “Era algo que se previa. Não é por acaso que, há décadas, os blocos operatórios têm lâmpadas ultravioleta”. Por esta razão o infeciologista não tem dúvidas: “ir para a praia é das coisas mais seguras que se pode fazer”. “É ao ar livre. Mesmo que esteja alguém a tossir a dois metros de si, com ligeira aragem o número de vírus que chega ao pé de si já está tão diluído que não provoca infeção”. Por isso, mais perigoso do que ir à praia é frequentar bares ou discotecas. “Diria que o dia não é problemática, a noite é. Sobretudo em ambientes fechados”.

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Ainda que seja difícil de prever como o vírus se vai comportar no verão, Jaime Nina explica que existe uma característica comum aos coronavírus conhecidos. “Têm uma variação sazonal extraordinariamente forte, pico no inverno, chega ao verão e praticamente desaparecem. No final do outono seguinte voltam. É provável que aconteça isso com a COVID. É provável que vá diminuindo e desaparecendo”. É por isso provável que em setembro, outubro ou dezembro o vírus volte em força.

Sobre o tão falado índice de pessoas infetadas que afetam outras, o R, Jaime Ninas explica que a situação em que Portugal está não é favorável. “Um RT de 1.08 é mau, quer dizer que o que se está a fazer é muito pouco”.

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