Aconteceu há dois anos, mas só há duas semanas é que Diana Lemos, 22 anos, decidiu tornar pública a sua história. A resistência em fazê-lo mais cedo teve que ver com a necessidade de se afastar de um rótulo que limitaria a sua existência apenas a um incidente que, embora tenha deixado marcas, não a define enquanto pessoa. "A partir de agora, vão olhar para mim como a Diana que tentaram violar, mas sou muito mais do que isso", explica à MAGG. Para que se lhe entenda a história, é preciso recuar até 24 de janeiro de 2019.

Com 19 anos e a frequentar o segundo ano da licenciatura em Jornalismo, Diana Lemos vivia na Unidade Residencial Maria Beatriz, localizada no campus do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL), quando a residência e o seu quarto foram invadidos por uma pessoa que nunca tinha visto na vida e que, diz, é um membro das "patentes altas da marinha portuguesa". "Eram quatro da manhã quando acordei com uma pessoa em cima de mim na cama. É um sentimento muito difícil de explicar, mas o que é facto é que acordei com uma pessoa, que não conhecia de lado nenhum, em cima de mim e com a roupa da cama toda dobrada para trás. Acordei assustada, gritei e essa pessoa fugiu", recorda.

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"Quando uma pessoa é vítima de abusos ou assédio, é costume ouvir-se que pôs-se a jeito. Mas eu não me pus a jeito. Estava na minha cama, a dormir, naquela que era a minha casa, quando uma pessoa em plena consciência dos seus atos foi à procura do que queria", diz. O ato não se consumou, explica, mas o que aconteceu constituiu "uma violação de privacidade tão grande" que Diana deixou de sentir "segurança em qualquer sítio".

O indivíduo em questão "saltou um portão, entrou por uma janela, correu os corredores todos da residência e entrou no quarto de outras pessoas" — dois deles com pessoas e outros dois, vazios, recorda Diana. "Ele sabia o que estava a fazer e como funcionavam as coisas porque entrou no quarto de um rapaz, saiu, e contornou o edifício [por fora] até chegar à ala das raparigas e entrar no meu quarto."

Sobre se era relativamente fácil entrar desta forma naquela residência de estudantes, Diana é assertiva: "Não." "A entrada na residência era feita com impressão digital e o ISEL tinha seguranças", não percebendo ainda hoje a facilidade com que a intrusão se deu.

Depois do grito, que fez com que o indivíduo fugisse do quarto de Diana, "as pessoas começaram a ganhar coragem" e foram ter consigo, tentando perceber o que tinha acontecido. Num estado de pânico generalizado, saiu, acompanhada por alguns colegas, e dirigiu-se aos seguranças para denunciar a situação. Estes, ouvido o seu relato, depressa saíram em busca do indivíduo que foi filmado pelas inúmeras câmaras espalhadas pela residência.

"Há imagens de tudo, menos do que aconteceu nos quartos em que ele entrou. Está tudo gravado: como ele entrou, como saiu e os passos que deu lá dentro. Apresentei logo queixa [a Polícia de Segurança Pública e a Polícia Judiciária estiveram no local, segundo o comunicado enviado aos estudantes pelos Serviços de Apoio Social, ao qual a MAGG teve acesso] e vi as imagens."

A MAGG entrou em contacto com o Serviços de Apoio Social do Instituto Politécnico de Lisboa, responsáveis pela gestão da Unidade Residencial Maria Beatriz, com o objetivo de tentar perceber o que terá acontecido naquela noite, nomeadamente: 1) de que forma foi possível a alguém estranho à instituição entrar no interior da mesma e o que facilitou a entrada; 2) se havia vigilância no local na altura; se sim, qual o horário do serviço do vigilante e se não, porquê; 3) que medidas foram tomadas internamente para evitar situações semelhantes no futuro; 4) se houve furtos; 5) se, desde então, voltaram a registar-se situações semelhantes; 6) e como é que a instituição acompanhou o caso e de que forma se articulou com as autoridades nos momentos após a intrusão;

Apesar das perguntas feitas pela MAGG, os Serviços de Apoio Social não responderam a tempo da publicação deste artigo.

Diana saiu da residência logo após o incidente e foi para casa dos pais, no norte do País, onde procurou apoio familiar. Regressou a Lisboa, e à residência, um mês depois. Se inicialmente Diana teve de ficar no mesmo quarto, porque a unidade estava cheia, duas semanas depois foi possível trocar de quarto (e de piso) com um estudante de Erasmus. Enquanto a mudança não se formalizou, no entanto, a estudante dormiu no quarto das colegas por não se sentir confortável naquele que era o seu e que tinha sido invadido por uma pessoa estranha.

Da arquivação à reabertura do caso e à angariação de fundos

Apesar das imagens, não foi possível chegar à identidade do indivíduo e o caso foi arquivado em junho de 2019. "Assim que o caso foi arquivado, pensei que nunca haveria justiça para o que aconteceu". Mas em agosto de 2020, um novo desenvolvimento.

"Uma pessoa que não conheço, e com quem terei uma dívida para o resto da vida, partilhou os fotogramas [os registos das câmaras de videovigilância] divulgados pela polícia", incentivando à partilha para que se chegasse à identidade do indivíduo em questão. O apelo foi respondido. "Aquelas imagens foram partilhadas em massa, mesmo por amigos meus que o fizeram sem saber que aquela história era a minha", explica Diana. É que, por não querer que o que aconteceu a definisse, a jovem nunca falou abertamente sobre o incidente.

Depois de ser vítima de tentativa de abuso, Diana pede ajuda para levar o caso a tribunal
Foi atribuído um advogado do Estado a Diana Lemos, que a própria decidiu "dispensar" por considerar que a sua forma de agir estava a ser "passiva". Com um advogado privado, o processo custar-lhe-á mais de 5 mil euros créditos: Diana Lemos/Instagram

Após a partilha, seguiu-se a identificação: primeiro, por uma pessoa "que fazia parte do passado" deste indivíduo, depois pela polícia que, em setembro, contactou Diana informando-a de que o acusado tinha sido identificado. "Ligaram-me para o reconhecimento fotográfico e, um mês depois, para a identificação pessoal". Ambas foram feitas com sucesso. Afinal, Diana não tinha sido capaz de esquecer o rosto do homem que lhe entrou no quarto.

Após identificado, foi atribuído a Diana um advogado do Estado que a própria decidiu "dispensar" por assumir uma postura mais "passiva" ao longo de todo o processo. Procurou um advogado privado, que já tem o processo em mãos e que a representará em setembro, na fase de instrução. Será nessa altura, explica, que o juiz de instrução decidirá "se o caso segue para julgamento ou não". Se houver decisão em contrário, isto é, se o juiz considerar que o caso não tem pernas para andar, "será apresentado um recurso".

O recurso ou a ida a julgamento, explica Diana, envolve custos quando representada por um advogado privado. É isso que serve de mote para a campanha de angariação de fundos que a própria criou na plataforma GoFundMe e que tem como objetivo atingir a meta dos 5.500€. "Foi este o cálculo a que cheguei com base naquilo que o processo custará para trazer-me alguma justiça".

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Conseguir que este indivíduo seja condenado, diz, "seria um grande passo". "Não só para mim, mas para todas as mulheres que sofrem nas mãos dos seus agressores, para todas aquelas que não tiveram força de fazer frente aos seus", tal como descreve na descrição da campanha.

Nesta fase, em que, à data da publicação deste artigo, conseguiu angariar já mais de dois mil euros, diz que os efeitos do incidente ainda estão bem presentes na sua memória. Qualquer abordagem na rua, mesmo que inofensiva, gera-lhe pânico e, nos momentos iniciais após a intrusão, sair à rua e estar com muita gente era tarefa difícil.

"Confirmo sempre se as portas estão trancadas e durante meses dormi de pijama completo, até no verão"

"Fui obrigada a tornar-me uma pessoa diferente. Há dois anos que vivo com stresse pós-traumático e durante muito tempo foi muito difícil para mim dar um abraço. Estar numa sala com muitas pessoas era exaustivo, porque olhava sempre à volta com receio de encontrar a pessoa que entrou no meu quarto. É muito difícil de explicar sem passar a ideia de que estou a exagerar", lamenta. Desde então, passou a dormir sempre com alguma luz de presença no quarto. E se inicialmente as luzes estavam sempre ligadas, com o passar do tempo foi "diminuindo" e, atualmente, dorme com "fitas de LEDs na cabeceira".

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"Confirmo sempre se as portas estão trancadas e durante meses dormi de pijama completo, até no verão, e com a roupa presa em ambos os lados da cama". Estivesse ou não calor, o importante era sentir-se segura. "Queria ter a certeza de de que, se houvesse outro episódio em que alguém tirasse a roupa da minha cama, eu seria capaz de sentir", explica.

Passar por uma situação semelhante, explica, fê-la sentir-se numa pessoa "impura, suja, como se não fosse digna". À medida que a sua história passar a ser ouvida e lida, não tem dúvidas de que começará a ser conhecida pelo rótulo que tentou evitar há dois anos.

"A partir de agora, vão olhar para mim como a Diana que tentaram violar, mas sou muito mais do que isso. Sou uma pessoa. E não pedi isto."

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