Teve a coragem de deixar Portugal, a família e uma vida confortável para estudar o desconhecido em Paris. Esse desconhecido ainda não tinha nome, mas não tardou muito a que Odette Ferreira o tratasse pelo nome próprio: Sida.

Numa altura em que Portugal pouco sabia sobre a infeção, avançou com os primeiros estudos e começou a alertar governos e população para uma doença que não era só de homossexuais.

Foi analista clínica, investigadora, professora e uma eterna curiosa.

Morreu no dia 7, aos 93 anos e, contrariando as estatística, desta vez Portugal soube homenageá-la em vida. Ainda este ano o Presidente da República condecorou Odette Ferreira com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, o mais alto grau desta Ordem de Mérito. A MAGG recorda alguns dos episódios da vida para quem a resignação nunca foi resposta.

Uma profissão tardia

Nasceu em 1925 mas, até à década de 70, teve uma vida igual a tantas outras. Na verdade, tendo em conta que falamos de um Portugal no qual as mulheres estavam ainda em segundo plano, Odette nunca teve postura de personagem secundária, nem mesmo quando reduzia a sua vida à família e à carreira de analista clínica. Em entrevistas dadas ao longo da sua vida contava que foi mãe e mulher quase a tempo inteiro, daquelas que faz um bolo ao marido, guarda todo o requinte para a hora de pôr a mesa ao jantar e não vai a lado nenhum sozinha.

Tudo começou com a revolução de Abril, altura em que, a então analista clínica, soube que a Faculdade de Farmácia de Lisboa precisava de assistentes. Odette possuía já uma vasta experiência prática e foi convidada para assistente das cadeiras de Microbiologia e Bioquímica.

Não demorou muito a passar de assistente a responsável do Departamento de Microbiologia da FFUL, cargo que manteve até 1995 e durante o qual revolucionou a forma de ensinar. Não se identificava com as aulas demasiado teóricas e com métodos de ensino rígidos e exigiu que todos os alunos tivessem aulas práticas.

Entusiasta, como todos os que com ela trabalharam a conheciam, conseguiu conciliar a função de professora com a de investigadora no Instituto Pasteur, em Paris. E foi a partir daí que tudo mudou.

O primeiro contacto com o HIV

A viver uma vida académica como nunca tinha tido, Odette cresceu pessoal e profissionalmente a um ritmo alucinante. “Mudou o meu mundo. Eu era uma betinha, não sabia nada de nada", admite, numa entrevista dada ao Jornal i em 2013.

Durante um congresso, em Lausanne, na Suíça, no início dos anos 80, teve o primeiro contacto com aquela que ainda ninguém via como uma grande ameaça: a Sida.

Lembro-me que havia quem mudasse de passeio só para não se cruzar comigo. Na faculdade, o diretor não queria que eu trabalhasse, com medo que eu infetasse alguém."

Foi ainda no Instituto Pasteur que aprendeu técnicas de identificação do vírus da sida, conta a sua biografia “Uma Luta, Uma Vida – Nem precisava de tanto”, de Sandra Nobre (edição Sopa de Letras). Avançou imediatamente com estudos seroepidemiológicos na Faculdade de Farmácia de Lisboa.

Estamos a falar de um Portugal que nada sabia sobre uma doença que, na verdade, ainda ninguém no mundo dominava. “Lembro-me que havia quem mudasse de passeio só para não se cruzar comigo. Na faculdade, o diretor não queria que eu trabalhasse, com medo que eu infetasse alguém. As pessoas achavam que se transmitia com um aperto de mão”, lembra a investigadora na biografia.

Num dos regressos ao Instituto Pasteur, nas inúmeras viagens entre Lisboa e Paris, Odette levou consigo amostras retiradas de um doente, internado no hospital Egas Moniz, em Lisboa, sobre o qual recaíam suspeitas de estar contaminado pelo vírus da Sida, mesmo que os dados fugissem ao que era esperado: falávamos aqui de heterossexuais e sem vícios de droga.

Odette insistiu nas análises, ainda que as primeiras dessem sempre negativo. "Já andava desanimada quando, três semanas depois, a técnica diz 'Maria Odette, tens um vírus', conta, num depoimento publicado no livro LX 80. "Estávamos perante um vírus novo [mais tarde identificado como VIH 2]. Morfologicamente era igual, só que o peso das proteínas era diferente. Foi uma bomba. Os kits dos laboratórios não o detetavam, tiveram de fazer novos".

A partir daí, as investigações não pararam, sempre com Odette no lugar cimeiro da busca por respostas.

Mas antes de olharmos em frente, vamos dar só um passo atrás. Vale a pena.

Durante uma homenagem feita à investigadora no ano passado, Maria de Belém recordou que quando Odette decidiu que aquela análise tinha que ser levada a Paris, levou-a debaixo do casaco, consigo no avião. "Tinha de ser conservada à temperatura de 37 graus, mas teve sorte por aquele ser um tempo em que não tínhamos ainda de despir os casacos no aeroporto", comentou Maria de Belém, arrancando uma gargalhada aos presentes. "Hoje seria acusada de bioterrorismo, como nos filmes que se veem por aí."

Diagnosticou António Variações

A 7 de julho de 1983, o Diário de Lisboa noticiou o primeiro caso de sida em Lisboa e nesse ano são feitos os três primeiros diagnósticos em Portugal. Em 1984 já eram oito e todos identificados por Odette Ferreira.

Em 1984, já são três as mortes relacionadas com o vírus, uma delas a de António Variações.

"Os homossexuais começaram a vir ter comigo", conta Odette no livro LX 80. Recorda que a discriminação era muito grande. "Faziam os testes com um número e só eu é que sabia a correspondência. Os resultados estavam num livro que eu levava sempre para casa. Fiquei a saber que os primeiros sangues que tinha recebido eram dos companheiros do António Variações. Por isso é que tinha havido tantos positivos".

António Variações morreu a 13 de junho de 1984, aos 39 anos, tornando-se assim o primeiro rosto da doença em Portugal.

Foi a mentora do programa de troca de seringas

A troca de seringas nas farmácias foi um dos seus projetos com maior impacto. Chamava-se "Diz não a uma seringa em segunda mão" e teve como finalidade diminuir o risco de transmissão do VIH e de outras doenças transmissíveis (hepatitie B e C) à população toxicodependente por via endovenosa.

Este projeto foi considerado pela Comissão Europeia o melhor projeto apresentado por um país europeu, não só pela inovação, mas por ter sido possível desenvolvê-lo em todo o território nacional.

Uma carreira premiada

Em 1975 foi nomeada pelo governo francês “Chevalier dans l’Ordre des Palmes Academiques”, pelo desempenho no fortalecimento da cooperação científica entre Portugal e França. Mais tarde, em 87, voltou a ser distinguida pelos franceses como “Chevalier de la Légion d’Honneur”, pelas descobertas na investigação da Sida.

Em Portugal também não faltaram galardões. Em 1988 foi-lhe dado o “Grau de Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago de Espada”, pelo prestígio alcançado e, no ano seguinte, a Ordem dos Farmacêuticos atrbuiu-lhe a sua Medalha de Honra, e, em 2012 a Medalha de Ouro da Ordem dos Farmacêuticos.

No intermédio, em 2006, recebeu o Prémio Universidade de Lisboa e, mais tarde, o Prémio Nacional de Saúde.

Em 2016  foi distinguida pelo Ministério da Ciência com a Medalha de Mérito e, em 2018, Marcelo Rebelo de Sousa condecorou Odette Ferreira com a Grã-Cruz que galardoa serviços prestados à causa da educação e do ensino.

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