Num direto de Instagram promovido pelo humorista Fábio Alves no início desta semana, um jovem de 19 anos assumiu ter violado uma rapariga, deixando-a ao abandono até o INEM chegar para a socorrer. A revelação surgiu depois de Fábio Alves ter questionado o mesmo jovem sobre a coisa "mais bizarra e erótica" praticada durante uma relação sexual.

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Num primeiro momento, o jovem diz não poder falar do tema no contexto do direto, numa altura em que cerca de 650 pessoas assistiam à transmissão. Mas um amigo do jovem, que nunca surge completamente na imagem, afirma que este teria violado uma rapariga, algo confirmado pelo interlocutor principal.

"Deixei-a lá e depois o INEM foi buscá-la", disse o jovem, após descrever que abandonou a mulher depois de a penetrar à força. Perante a chocante revelação, o humorista Fábio Alves questionou se ele estaria a falar a sério, e se tinha praticado mesmo a violação. "Acredita em mim, foi só uma vez", respondeu o jovem.

O caso explodiu nas redes sociais mas, antes disso, foi encaminhado para as autoridades pelo próprio humorista. Num vídeo publicado esta quarta-feira na sua página de Instagram, Fábio Alves explica que, após o sucedido, recorreu à esquadra mais próxima do local onde se encontrava para denunciar o crime, sendo posteriormente encaminhado para a Polícia Judiciária do Porto.

"Pareceram-me verdadeiramente interessados no caso", disse Fábio Alves no vídeo. Simultaneamente, o comandante da Polícia de Segurança Pública de Viseu confirmou que o jovem que assumiu a violação em direto já foi identificado. "Identificámos o jovem, que é da zona de Viseu e, como medida de precaução, apreendemos o telemóvel que vai ser remetido para perícia", esclareceu Vítor Rodrigues ao "Jornal de Notícias", embora tenha também avançado a incerteza quanto à veracidade do caso. "Nos últimos tempos, não recebemos qualquer denúncia relacionada com violação", afirmou.

Invenção para ficar "conhecido" e a confirmação da vítima

Poucos minutos depois de ter admitido em direto ter violado uma rapariga, o jovem em questão começou a negar a veracidade da confissão. "Confrontei-o e perguntei-lhe várias vezes se tinha violado mesmo uma rapariga", revelou Fábio Alves no vídeo publicado posteriormente na sua página.

"Passado algum tempo, já me está a dizer que foi a brincar. Mas mesmo que fosse a brincar, não se brinca com isso, não se brinca com violação", disse o humorista, que também garantiu que perante as perguntas sobre a dita "brincadeira", o jovem fugia ao assunto. "Não sabia responder".

Apesar de ter voltado com a confissão atrás, e de algumas fontes garantirem que o jovem de 19 anos inventou a história para "ficar conhecido", escreve o "Correio da Manhã", a verdade é que Fábio Alves garante ter sido contacto pela vítima, que confirmou o sucedido.

"A miúda contactou-me, eu falei com ela, perguntei-lhe se podia dar o contacto dela à polícia, ela disse que sim, e voltei a contactar a polícia", afirmou o humorista, que agradeceu ainda o contacto da jovem. "Agradeço-te por não teres permanecido no silêncio."

Em 2018, 215 mulheres apresentaram queixa por violação

As reações a este episódio não se fizeram tardar. Tânia Graça, psicóloga e sexóloga, recorreu ao Instagram para chamar a atenção para os sucessivos crimes contra mulheres que continuam a suceder em Portugal. Num seguimento de publicações, a psicóloga salientou números chocantes: de acordo com dados da PorData, só em 2018, 215 mulheres apresentaram queixa por violação. "Ficam de fora, claro, todas as outras que pela culpa, vergonha e medo que a sociedade lhes incute, não tiveram coragem de o fazer", escreveu na rede social.

Tânia Graça também abordou os números relativos aos casos de violência doméstica e violência no namoro, entre outros, salientando a insegurança constante das mulheres, que estão em perigo apenas por andarem na rua. "Piropos, buzinadelas, apalpões, homens a masturbarem-se a olhar para nós em locais públicos. O medo de andarmos sozinhas à noite, o irmos com as chaves na mão ou ligarmos a uma amiga só para nos sentirmos mais seguras no caminho", escreveu a psicóloga, que também salientou a pouca eficácia da justiça mesmo quando as situações são denunciadas.

"Quando finalmente ganhamos coragem para denunciar, corremos o risco de apanhar juízes que nos perguntam o que levávamos vestido, que usam fotografias do nosso Instagram ou até mesmo a Bíblia ou o Código Penal de 1886, para mostrar que no fundo, estávamos era mesmo a pedi-las", disse Tânia Graça, que ainda considerou o discurso do direto e a "naturalidade com que se afirma um CRIME desta natureza" um "reflexo de uma sociedade machista e patriarcal que continua a agredir e a matar".

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Na mesma linha de pensamento, Fábio Alves terminou o seu vídeo a chamar a atenção para o corpo de uma mulher não ser um objeto. "Uma miúda estar na discoteca, produzida, uma miúda estar sexy e bem vestida, não é um convite sexual, não é. Metam isso na cabeça. Uma miúda ter fotos de biquíni também não significa que esteja disponível para qualquer um, não significa que é um objeto que está numa montra (...) significa que se sente bem assim, que gosta de se sentir atraente, tal como qualquer pessoa gosta."

O humorista colou-se também no papel das mulheres. "Eu, se fosse mulher, tinha medo, tinha receio, de ir para certos sítios sozinho, ou mesmo acompanhado (...) De facto, existem homens que, na cabeça deles, veem o corpo de uma mulher como um objeto. E não é. Metam isso na cabeça."

Deputada pede a investigação do Ministério Público

Depois de o vídeo circular nas redes sociais, a deputada não-inscrita Cristina Rodrigues emitiu um comunicado, enviado a várias redações, a pedir ao Ministério Público que investigue o caso. "A ser verdade, constitui um crime de violação", salientou Cristina Rodrigues que, "face à gravidade das afirmações", revelou que "deu conhecimento das mesmas ao Ministério Público para que este investigue a veracidade dos factos e, a ser verdade, dar início à ação penal", pode ler-se no documento.

"A forma leviana como estes jovens assumem um alegado crime de violação é extremamente preocupante e deve ser investigado o quanto antes. Devendo-se verificar também o estado em que se encontra a vítima para quem dirijo uma palavra de apoio", afirmou Cristina Rodrigues no mesmo comunicado, onde assumiu desconhecer a origem e data de publicação do vídeo.

No entanto, até ao final desta quarta-feira, 24 de fevereiro, não existia qualquer registo de queixa no Ministério Público, avança o "Correio da Manhã".