Limite. É a palavra que mais se ouve nos últimos dias nos relatos de quem convive diariamente com o pesadelo da COVID-19. São profissionais de saúde de unidades de Norte a Sul do País, que falam de uma "medicina de catástrofe", conforme descreveu a Ordem dos Médicos num apelo enviado ao Governo esta segunda-feira, 18 de janeiro, para que fossem tomadas medidas mais severas.

Mas há outros testemunhos ainda mais reais, mais aflitivos, dos profissionais que se deparam com decisões todos os dias. "É difícil manter a racionalidade numas urgências em que se pratica uma medicina de catástrofe. Os profissionais ficam devastados quando sabem que, se tivessem chegado meia hora mais cedo, o desfecho daquele doente teria sido diferente", conta Carlos Meneses Oliveira, médico intensivista no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, ao jornal "Público".

O médico fala em falta de lugares na Unidade de Cuidados Intensivos e de mãos a medir para tantos doentes, sendo que passou a ser normal haver apenas um médico e dois internos para meia centena de doentes.

A falta de pessoal nas equipas médicas é também um dos problemas apontados pelo enfermeiro das urgências pediátricas do Amadora-Sintra, Mário André Macedo, que fala em "desespero" por ajuda. "Os hospitais estão desesperados por pessoal. Mesmo que houvesse o dobro dos enfermeiros, o trabalho não faltaria”, revela ao mesmo jornal.

Como resultado disso, o cansaço torna-se palavra de ordem entre a comunidade médica. "Os profissionais de saúde estão rebentados, exaustos, infetados e desesperados com o sofrimento ético por causa dos critérios de escolha para atribuir uma vaga nos cuidados intensivos. Já não sei como solicitar aos médicos do meu serviço para darem apoio a mais uma enfermaria ou a fazer mais uma urgência”, conta o diretor do serviço de pneumologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Carlos Robalo Cordeiro.

Os relatos vêm de todo o lado, incluindo das redes sociais, às quais chegam testemunhos de vários profissionais de saúde que encontram nas mensagem privadas enviadas a influenciadores e celebridades, uma forma de desabafo e ao mesmo tempo de alerta.

Já pelo Twitter, tem circulado outro testemunho, desta vez do deputado do PSD e médico, Ricardo Baptista Leite, que no sábado, 16 de janeiro, foi prestar serviço "como médico voluntário" nas urgências do Hospital de Cascais.

"Ontem ao sair do hospital sentia uma enorme frustração e angústia. Para garantir a racionalidade das minhas palavras, decidi esperar por hoje para fazer esta partilha", disse na publicação, que termina com um apelo: "O cenário é de guerra e estamos a perder. Urge agir".

Ainda que haja um documento emitido pela Ordem dos Médicos com critérios de admissão de um doente em unidades de cuidados intensivos em caso de medicina de catástrofe, o presidente do Conselho Nacional de Ética e Deontologia Médicas (CNEDM) da Ordem dos Médicos, Manuel Mendes da Silva, recorda que é bom que os profissionais de saúde o tenham presente, mas alerta: "Ainda não estamos na fase de escolher entre dois doentes críticos, mas se nada for feito rapidamente chegaremos lá", disse ao "Diário de Notícias".

Contudo, quando o momento de tal decisão chega, esta é feita com base em avaliações do estado clínico e do potencial de recuperação depois das intervenções a que serão submetidos, segundo João Ribeiro, diretor do Serviço de Medicina Intensiva do Santa Maria. "É uma violência extraordinária. Em primeira instância para o doente que não pode ser assistido. E para o próprio país, pelo esgotamento de recursos. Se isso vier a acontecer, ficamos com a mácula histórica de ter havido uma situação de pandemia em que houve doentes que não tiveram hipótese de ser tratados", relata ao jornal "Observador" numa de várias reportagens sobre como são 85 horas no Hospital Santa Maria, em Lisboa.

Hospitais a uma cama do estão no limite

Fazendo um balanço da lotação dos hospitais, para já, o Centro Hospitalar do Oeste (CHO) revelou que já está no limite da capacidade de internamento de doentes infetados com COVID-19, que é de 102 doentes, havendo apenas uma cama disponível, conforme revela a administração em comunicado. Por outro lado, a situação nas urgências está controlada.

O limite também está próximo no Hospital de Beja, que nos últimos dias tem registado um aumento exponencial de doentes COVID-19. "Estamos numa situação muito complicada", descreve o diretor clínico do Hospital de Beja, José Aníbal Fernandes, à TVI24.

Com muitos hospitais a não conseguirem responder à sobrecarga de novos infetados com COVID-19 a precisar de cuidados médicos, já foram entretanto criados dois hospitais de campanha — um no Estádio Universitário e outro nas instalações da Casa dos Atletas na Cidade do Futebol, na Cruz Quebrada — para aliviar os hospitais de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e conseguir cuidar de doentes com pouca gravidade.

O mesmo acontece em Viseu, onde começou esta segunda-feira a funcionar um hospital de campanha para fazer face às limitações do centro hospitalar local.

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Como consequência desta lotação próxima da rutura, "doentes que tinham espaço em cuidados intensivos há meses atrás, neste momento não têm, porque as UCI estão completamente saturadas", revela o presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM), Carlos Cortes, ao "Expresso". O médico defende ainda que para travar a situação é preciso "fechar as pessoas em casa", incluindo as crianças que continuam a ir à escola.

Enquanto o médico Carlos Cortes fala em "limiar da rutura", a diretora do serviço de infeciologia no Hospital Amadora-Sintra, Patrícia Pacheco, diz que "é muito claro que o sistema já entrou em rutura há muito tempo”, o que tem obrigado os profissionais de saúde “a viver situações inimagináveis”, apontando o dedo ao Governo e às autoridades competentes.

"Tudo isto era previsível, esta hecatombe foi anunciada, mas os responsáveis preferiram o pensamento mágico de que não ia acontecer”, indigna-se a infeciologista. Tal como o presidente da SRCOM, Patrícia Pacheco defende o agravamento das restrições. "Um confinamento severo é imprescindível”, diz.

O que acontece no fim da linha

Além daqueles que lutam pela vida, há outros que sabem que pouco tempo lhes resta. O fisioterapeuta João Pereira, que acompanha doentes nos Cuidados Intensivos e nas enfermarias COVID-19 do Hospital Santa Maria, não consegue ficar indiferente às consequências do que se está a passar para doentes cuja vida está próxima do fim.

"Quando uma pessoa está em processo terminal, está sozinha — mesmo que esteja numa enfermaria de quatro camas. Não pode ir à sala de refeições, não pode sair do quarto, tem de fazer as necessidades ali. Muitas vezes está consciente de tudo o que se está a passar. Lembro-me de um senhor que morreu sozinho assim. Nestas circunstâncias é quase desumano", conta ao "Observador".

Já no fim da linha, aqueles que levam os corpos para a morgue do Santa Maria tentam distanciar-se da identidade do corpos e apenas saber se é ou não um corpo COVID-19 para seguir os protocolos e avançar com o devido trabalho, que não é pouco. "Há trabalho toda a noite, nunca se sabe a que horas é preciso ir buscar um corpo", revela o coordenador da Casa Mortuária, António Nunes, ao mesmo jornal.

Esta segunda-feira, 18, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, veio afirmar que o mundo "está à beira de um fracasso moral e catastrófico". A expressão não se refere ao elevado número de casos que se tem vindo a assistir, mas sim à vacinação a nível mundial. De acordo com o diretor-geral, caso os países ricos não partilhem vacinas contra a COVID-19 com os mais pobres "o preço deste fracasso será pago com vidas e o sustento nos países mais pobres", disse na abertura da 148.ª sessão do Conselho Executivo da OMS.

A razão para este alerta deve-se ao facto de terem sido administradas apenas 25 doses de vacina contra a COVID-19 num país pobre, ao passo que mais de 39 milhões de doses foram dadas em pelo menos 49 países ricos.

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