Janeiro é, historicamente, um mês de resoluções. Que atire a primeira pedra quem não sente a instalar-se aquela sensação coletiva de recomeço, seja no trabalho, em casa ou até mesmo na forma como cada um olha para si próprio. Não é por acaso que, também na medicina estética, o início do ano continua a ser um dos períodos de maior procura por consultas e cirurgias.

O cirurgião plástico Rúben Malcata Nogueira confirma-o: o primeiro mês do calendário é, ano após ano, aquele que gera uma procura desenfreada. “É sempre um mês muito preenchido, com muita procura, com muita cirurgia. O mês que habitualmente encerro mais cedo em termos de vagas é sempre janeiro”, afiança, em entrevista à MAGG, esclarecendo que se trata de um fenómeno que não acontece por acaso.

O stress prejudica a pele, mas sabia que a maquilhagem pode ajudar a tratá-la? Especialista explica como
O stress prejudica a pele, mas sabia que a maquilhagem pode ajudar a tratá-la? Especialista explica como
Ver artigo

Hoje, a cirurgia plástica está longe de ser vista como um capricho superficial. Pelo contrário, é cada vez mais entendida como parte de um processo mais amplo de cuidado com o corpo e com a saúde, incluindo a psicológica. “Qualquer uma destas cirurgias acaba por ter sempre um certo cunho de saúde, ainda que muitas vezes seja uma saúde mais psicológica”, sublinha o médico, que observa mudanças significativas na forma como os pacientes se percecionam depois dos procedimentos.

Mas, afinal, porque é que janeiro desperta esta vontade de mudança? O que é que os pacientes mais pedem nesta altura do ano? E que caminhos se estão a consolidar em 2026 na cirurgia estética, sempre com responsabilidade, bom senso e expectativas realistas? Fomos à procura de respostas junto do cirurgião.

Janeiro é um mês de mudança. Porquê?

Para Rúben Malcata Nogueira, a explicação está longe de se cingir apenas à estética. “Há um bocadinho aquela mentalidade de ‘ano novo, vida nova’. Muitas pessoas querem mudar aquilo com que se sentem inseguras”, explica. Tal como acontece com o início do ginásio ou com novas rotinas de saúde, o corpo entra naturalmente neste pacote de resoluções.

A isto, garante, soma-se um fator prático: a disponibilidade da agenda. "Muitos pacientes pensam no verão. Gostam de fazer as cirurgias durante o inverno para estarem funcionais e recuperados quando chega a época da praia", afirma. Janeiro surge, assim, como o momento ideal para iniciar um processo que exige tempo não só para fazer, mas para toda a recuperação e acompanhamento com que vem de mãos dadas.

Rúben Malcata Nogueira
Rúben Malcata Nogueira Rúben Malcata Nogueira, Cirurgião Plástico, Reconstrutivo e Estético (OM 60023) créditos: Instagram

Contrariamente à já tão disseminada ideia de que a cirurgia plástica é o cúmulo da vaidade, o cirurgião defende que, na maioria dos casos, ela surge no final de um percurso bastante mais complexo. “Um paciente que se submete, por exemplo, a uma cirurgia de mama ou de contorno corporal habitualmente já vem num trajeto de melhoria da sua saúde física”, adianta. Dieta, exercício, deixar de fumar são apenas algumas das coisas que, muitas vezes, antecedem a cirurgia.

E o impacto, claro está, não é somente físico. “O que vejo muito em consulta e nas semanas após o procedimento é uma mudança incrível a nível da autoperceção corporal”, afirma. A melhoria da imagem refletida no espelho pode funcionar como um reforço positivo, com efeitos diretos na autoestima e no bem-estar psicológico. E esta é, para os pacientes, a rampa de lançamento de que necessitam para começar o ano com o pé direito.

Quais são os procedimentos mais pedidos?

Quando se fala em cirurgias estéticas mais procuradas, o padrão mantém-se relativamente estável, mas com nuances importantes de ter em conta ao longo dos vários meses. Na experiência clínica de Rúben Malcata Nogueira, há procedimentos que se destacam de forma clara, sobretudo no início do ano. "Se tivesse de escolher um top 3 de cirurgias que os pacientes mais procuram, está, sem dúvida, a cirurgia da mama", revela.

Neste grupo inserem-se diferentes abordagens: aumento mamário, mastopexia (elevação da mama) e redução mamária, cirurgias com grande impacto na silhueta e também na forma como as pacientes se percecionam. Mas, mesmo nestes casos, nem só pela cirurgia primária é procurado, diga-se. "Sou muito procurado para casos secundários, ou seja, cirurgias que correram menos bem e que os pacientes querem corrigir", admite.

Seguidamente surge o chamado mommy makeover, conjunto de procedimentos que combina, habitualmente, cirurgia da mama, abdómen e, em alguns casos, glúteos. "É uma recuperação do corpo após as mudanças da gestação", afirma o especialista, sublinhando que se trata de uma abordagem integrada, pensada para responder a alterações corporais profundas que dificilmente se resolvem só com a prática de exercício físico ou dieta.

Quer que o seu perfume dure o dia todo? Falámos com uma especialista e temos 7 dicas infalíveis
Quer que o seu perfume dure o dia todo? Falámos com uma especialista e temos 7 dicas infalíveis
Ver artigo

Por outro lado, a lipoaspiração continua a ser um dos procedimentos mais conhecidos e procurados, embora com uma sazonalidade própria. Isto é, Rúben Malcata Nogueira relata que este procedimento "acaba por ser mais procurado a um, dois meses do verão", sendo que pressupõe uma recuperação mais curta, pelo que não é problemático que um paciente se submeta ao mesmo mais perto da época balnear, se for o mais adequado para o seu caso.

Neste contexto, o médico faz questão de esclarecer que "é um mito absoluto" que a lipoaspiração sirva para perder peso. Trata-se de uma ferramenta complementar, indicada sobretudo para quem já tem um estilo de vida saudável, mas não consegue atingir determinado grau de definição corporal. "Se pensarmos nestas cirurgias como complementos, tudo funciona bem. Se pensarmos nelas como soluções milagrosas, entramos por caminhos menos seguros", remata.

O que se avizinha para 2026?

Em vez de falar em modas passageiras, Rúben Malcata Nogueira prefere olhar para 2026 como um ano de “ajuste de prioridades clínicas”. Um dos temas que vai continuar a ter muito impacto é a gestão da gordura corporal, fortemente influenciada pelo aumento do uso de medicamentos injetáveis para perda de peso – os chamados agonistas do recetor GLP-1, originalmente indicados para o tratamento da diabetes tipo 2 e, agora, da obesidade.

“Este tipo de medicação veio para ficar”, afirma, sublinhando, no entanto, que o seu uso levanta novos desafios do ponto de vista da estética corporal. A perda de peso rápida e acentuada, muitas vezes sem acompanhamento nutricional adequado, leva a consequências visíveis, como a perda de massa muscular, flacidez da pele e diminuição da elasticidade. "Os pacientes acabam por ter hipotrofia muscular e muita perda de consistência da pele", explica.

Este fenómeno já é amplamente discutido em congressos nacionais e internacionais, com expressões como "body effects" e "face effects" a surgirem cada vez mais associadas a estes medicamentos, diz o especialista. “Vamos começar a abordar menos a retirada de gordura e mais a questão da flacidez”, antecipa, frisando que isso pode passar por cirurgias para remoção de pele, mas também por tecnologias como "radiofrequência interna", que ajudam a melhorar a qualidade cutânea.

Na mama, também os efeitos deste género de fármacos são particularmente evidentes. “Após seis meses deste tipo de medicação, as mamas ficam mais caídas, flácidas e com menos volume”, refere, enquanto explica que, ao contrário do que acontece noutras zonas do corpo, que podem ser minimamente solucionáveis sem intervenções, o exercício físico não resolve esta perda de volume. E é aqui que "entram as mamoplastias de aumento ou as mastopexias".

É nestes pontos que as intervenções cirúrgicas assumem um papel central não só no que à estética diz respeito. "A cirurgia plástica consegue recuperar completamente a saúde mental destes pacientes", frisa, admitindo que, neste e nos próximos anos, o caminho passa inevitavelmente por uma "abordagem multidisciplinar". Primeiro estabilizar o peso, depois otimizar o corpo e, só então, intervir cirurgicamente, diga-se.

"Cada vez que pego num bisturi é um ato de responsabilidade"

Se há uma mensagem que o Rúben Malcata Nogueira repete, por outras palavras, é esta: a cirurgia não é um milagre ou um atalho para atingir um objetivo há muito desejado, nem é para ser feita de ânimo leve. "Não faz sentido fazer cirurgias se os pacientes não estão na sua melhor condição", afirma. Em muitos casos, a resposta do médico é esperar.

“O tempo médio entre a primeira consulta e a cirurgia é, na maioria dos casos, superior a seis meses”, explica, referindo-se a este período essencial para preparar o corpo, alinhar expectativas e garantir segurança. Por isso é que, em alguns casos, o papel do cirurgião é também saber dizer não. "Eu não faço medicina a pedido. Cada vez que pego num bisturi é um ato de responsabilidade", relata.

Nova máscara de Kim Kardashian promete rosto menos flácido. Mas funciona ou é marketing? Falámos com uma especialista
Nova máscara de Kim Kardashian promete rosto menos flácido. Mas funciona ou é marketing? Falámos com uma especialista
Ver artigo

Para o médico, a cirurgia deve ser uma decisão partilhada, informada e tomada no momento certo do processo de cada paciente. Por isso, a recomendação para quem começa o ano a pensar numa cirurgia passa por marcar uma consulta com um especialista, ouvir, refletir e não ter pressa. Até porque, no fim, a cirurgia estética "só faz sentido quando é parte de um percurso consciente".