É inverno, mas o sol está potente e se não estivéssemos em pleno Chiado até poderíamos pensar que estávamos no Brasil. Entrámos n'O Boteco pelas 14h30, o restaurante no número 37 da Praça Luís de Camões, em Lisboa, que promete trazer a Portugal os sabores da face oposta do Atlântico. Sentamo-nos à mesa e ao nosso lado temos uma obra do artista Bordalo II dedicada ao Rio de Janeiro. O chão é xadrez e nas paredes há encostos amarelos, tal como nos botecos e lanchonetes brasileiros.

É impossível não reparar no candeeiro no teto: além de ser gigante, é feito de garrafas de cachaça, agora homenagear as caipirinhas, que poucos minutos depois nos chegam à mesa com um sabor perigosamente doce. Promissor.

Além da jornalista e do fotojornalista da MAGG, temos connosco uma companhia especial: Rebeca Gasperini, 23 anos, é natural de São Paulo e vive em Lisboa há dois anos. Desafiámo-la para uma missão: conhecer o novo espaço do chef Kiko e tirar a barriga da miséria, matando as saudades do Brasil — caso a comida faça jus aos sabores da sua terra, claro está.

Pouco depois, somos recebidos pelo dono da casa e a mesa de quatro fica assim preenchida. O ambiente é sofisticado, mas ninguém está intimidado, porque a descontração e boa disposição são condições obrigatórias num espaço que é dedicado ao Brasil. Assim que mencionamos o facto de ter nascido na cidade carioca, o chef Kiko muda o chip, dá uma volta ao sotaque e regressa às origens. “É isso aí”, responde. “Morei no Rio de Janeiro até aos 11 anos, mas já estou em Portugal faz 30 anos. Sou já portuga.”

A ideia para abrir O Boteco (projeto que demorou 36 meses a ser desenvolvido) já vinha a germinar no imaginário do chef, que, como resultado dos passeios que tem dado em torno do globo, há alguns anos tem andado a providenciar aos lisboetas espaços para provar sabores de vários cantos do mundo — desde a Cevicheria, ao Asiático ou Barra Japonesa.

“Isso foi uma tentativa de homenagear o meu país. Desde que comecei a cozinhar e a montar restaurantes que pensei, ‘pô vou ter de ter um carioca”, conta. “Sempre quis isto: ter um boteco, servir umas boas caipirinhas, um bom bolo de brigadeiro, um bom quindim, ter pastéis, uma boa feijoada ou escondidinho. Não podia ter estes restaurantes todos e não ter um dedicado à minha cidade Natal, ao meu país.”

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Tal como acontece com os cheiros, os sabores têm uma capacidade misteriosa de nos remeter para as nossas memórias. A carta d'0 Boteco foi construída em cima disso mesmo: “É a comida que eu comia em casa, em família, quando vivia no Rio.” Mais à frente, descobrimos que para o dom do chef pode ter contribuído um qualquer fator genético: a mãe tem boa mão para a cozinha e faz parte do núcleo altamente restrito e selecionado que prova as receitas, antes de estas se oficializarem nas cartas.

Mas porque o nosso palato é mais português do que brasileiro, quisemos saber a opinião de Rebeca. Agora, sim, tiramos o pé do chão e damos início ao saboroso samba.

Pão de queijo. "Super aprovado"

Levámos uma brasileira a comer ao novo Boteco do chef Kiko

E à primeira dentada de todas, Rebeca Gasperini fecha os olhos e, do fundo da alma, sussurra: "Perfeito". Mais à frente, explica-nos o que de tão especial tem a fórmula do chef Kiko: "Sinto muitas vezes que o pão de queijo tem um aspeto e textura borrachudas. O do chef Kiko não: é crocante, com uma separação entre a casca e o interior. Você morde, sente a crocância e depois come. É realmente perfeito."

No Brasil, não provou muitos que superassem este. "É uma receita muito típica do Brasil, tipo o pastel de nata aqui em Portugal. Por isso, há lugares em que é muito bom, outros em que é um pão de queijo qualquer."

O que leva? Polvilho doce e queijo de minas (4,60€).

Pastel de vento recheado com queijo coalho e pastel de vento recheado com porco preto e camarão. "Muito gostozinho"

Levámos uma brasileira a comer ao novo Boteco do chef Kiko

O próximo candidato ao escrutínio de um palato verdadeiramente brasileiro é o tradicional pastel de queijo: "Adorei, achei super levezinho. Os do Brasil são muito carregados de óleo e esse aqui não", diz. "Achei o de carne mais forte, o que é normal. Mas gostei muito. Muito gostozinho."

O que levam? Massa de pastel, queijo coalho e orégãos (6,2€) e massa de pastel porco preto, camarão e cebolinho (6,30€).

Salada de polvo e tapioca com gelado de pimentos. "É ousado esse prato"

Levámos uma brasileira a comer ao novo Boteco do chef Kiko

Rebeca Gasperini nunca tinha provado este prato do Brasil. Além de não ser tão comum como um pastel ou pão de queijo, há ainda outro fator: "Não gosto de pimento. Sempre me recusei a comer pimento, que era uma coisa que a minha família fazia muito. Minha mãe adora, meus avós adoram. Eu sou a única que não", conta. "Mas comi o do chef Kiko. É ousado esse prato."

A brasileira ia a medo, mas surpreendeu-se: "Foi muito bom", admite. No entanto, não foi o seu preferido, tendo em conta a oferta vasta em especialidades. "Tinha muitas coisas boas do Brasil e esse era o prato menos típico de todos."

O que leva? Polvo, tapioca, vinagrete e gelado de pimentos (12,30€).

Espetinho de coração de galinha. "Tudo depende do tempero e o chef Kiko soube temperar"

Levámos uma brasileira a comer ao novo Boteco do chef Kiko

Sai o polvo, entram as espetadas com coração (ou corações) de galinha. "Meu pai fazia muito no churrasco. Meu irmão e minha madrasta comiam e eu nunca queria. Ele [pai] falava sempre: 'Tem que comer coração'. E eu não gostava", recorda. Novamente, aqui não teve dificuldade. "Até quem não aprecia aqui gosta." O truque, considera, está no tempero.

O que leva? Coração de galinha, cerveja e farofa (4,80€).

Dadinho de tapioca com goiabada picante. "Foi um dos meus preferidos"

Os dadinhos de tapioca conquistaram o segundo lugar, numa batalha renhida entre o croquete de feijão e o escondidinho (já lá vamos). "Foi um dos meus preferidos", diz. "Essas comidas brasileiras, como o bolinho, o pastel e até o próprio pão de queijo, são muito fáceis de errar, por causa do excesso de óleo ou textura", explica. "Esse estava muito levezinho, muito bom mesmo."

O que leva? Tapioca, parmesão, goiaba e malagueta Dedo de Moça (6,30€).

Croquete de feijoada à brasileira. "É o meu terceiro preferido"

Levámos uma brasileira a comer ao novo Boteco do chef Kiko

Levou a medalha de bronze. Foi a primeira vez que Rebeca provou, mas foi como se não fosse: é que comer este salgado é como apreciar um prato de feijoada tradicional dentro de um croquete."Eu trinquei e parecia que estava sentindo o sabor das carnes, do feijão e até do arroz. Gostei muito. Tem muito gosto de feijoada."

"O toque cítrico do maracujá ficou muito bom", considera, numa alusão ao gel de maracujá, colocado no topo do croquete. "Sou uma pessoa que gosta de sabores mais ácidos. Lá no Brasil, a minha madrasta faz uma feijoada maravilhosa com a carne de porco, a carne seca, mas coloca um molhinho caseiro com lima, azeite, cebola e salsa, que eu adoro."

Mais uma vez, a brasileira elogia a audácia do chef: "Novamente ousou: não pôs o molho óbvio que é o limão — pôs o de maracujá."

O que leva? Carnes de feijoada, feijão preto e gel de maracujá (6,40€).

Bobó de camarão e bacalhau. "Tem que gostar de picante para comer"

Bobó à esquerda, escondidinho à direita

Já muito bem aconchegados, entramos na categoria dos pratos principais. "Eram uns camarões bem robustos", comenta Rebeca. "Gostei bastante. Mas como era um pouco picante não foi o meu preferido. Tem que gostar de picante para comer."

O que leva? Camarão, bacalhau, mandioca e leite de coco (19,40€).

Escondidinho de pernil. "Não é um escondidinho qualquer"

E é na despedida dos pratos principais que Rebeca, sem hesitar, entrega a medalha de ouro. "Maravilhoso, foi o meu preferido", diz, sobre esta espécie de empadão "super típico" da gastronomia brasileira. "A carne estava muito saborosa, muito bem desfiadinha, tudo estava muito bem temperado."

A expectativa era elevada, não fosse este o prato preferido da brasileira. Superou as expectativas: "Estava no ponto. Não é um escondidinho qualquer."

O que leva? Pernil de estufado, tomate, cebola, mandioca e salsa (19,20€).

Brigadeiro e avelã. "É um bolo disruptivo"

Levámos uma brasileira a comer ao novo Boteco do chef Kiko

Rebeca gostou, mas com este não matou saudades de casa. Estava à espera de uma fatia de bolo tradicional, com recheio. "Este é um bolo disruptivo. Estava esperando algo mais pesadão, mais tradicional, com recheio de chocolate no meio."

O que leva? Bolo e brigadeiro de chocolate e paçoca de avelã (6,90€).

Quindim com tapioca e maracujá. "Esse quindim é o de minha avó"

Levámos uma brasileira a comer ao novo Boteco do chef Kiko

A refeição terminou com a sobremesa que menos agrada a brasileira. Mas não é de hoje: "Não gosto muito de quindim. Prefiro coisas mais doces." Ainda assim, deu uma garfada. E, contrariamente à sobremesa anterior, mostrou-nos que faz jus à receita tradicional: "Esse quindim é o de minha avó", exclamou.

O que leva? Pudim de ovos, tapioca de coco cremosa e gel de maracujá (6,70€).

Caipirinhas de limão, maracujá e goiaba. "Estava muito boa"

Levámos uma brasileira a comer ao novo Boteco do chef Kiko

E como a vida anda aos círculos, terminamos com o início. Foi com as bebidas que o chef abriu as hostilidades. "Traz-me três caipirinhas, se faz favor", pediu a um empregado de mesa. Rebeca só provou a de goibada — gostou tanto que se esqueceu das restantes."Estava muito boa, adorei". Mas, sem problema: nós (jornalista e fotojornalista, atenção) encarregámo-nos das outras. São perigosas: a cachaça vem bem camuflada pelo sabor doce da fruta.

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