Em janeiro de 2020, "Consentimento", a obra autobiográfica da Vanessa Springora, foi responsável por causar uma onda de choque e repúdio na comunidade francesa. Aquilo que estava impresso naquelas páginas também não era para menos, já que a autora contava ao detalhe a relação abusiva que, dos 14 aos 16 anos, manteve com o escritor francês Gabriel Matzneff, que estava na casa dos 50.

Três anos depois, o sucesso da obra fez com que nascesse uma adaptação cinematográfica com o mesmo título, que gerou exatamente a mesma revolta no país. Os debates sobre o abuso sexual de menores e respetiva impunidade, a criminalidade e outras questões morais, como o poder e a manipulação, voltaram a ficar em cima da mesa, desta vez graças à mestria da realizadora Vanessa Filho, emparelhada com a assinatura de Vanessa Springora no argumento.

vanessa springora
Vanessa Springora, autora de "Consentimento". créditos: DR

O filme é uma montanha-russa de emoções, daquelas que apresentam descidas a pique, responsáveis por nos dar a volta ao estômago. É que de uma curiosidade inicial, tal como acontece em qualquer filme, somos conduzidos muito rapidamente até à repugnância, manifestamente presente desde a primeira interação entre Vanessa e Gabriel, a quem Kim Higelin e Jean-Paul Rouve dão vida de forma irrepreensível, respetivamente.

É que Matzneff jamais escondeu a sua preferência sexual por crianças, algo que não só nunca lhe trouxe problemas, como lhe rendeu inúmeros elogios. Até que a publicação da obra de Vanessa Springora veio trocar-lhe as voltas, uma vez que culminou na abertura de uma investigação do ministério público francês, para tentar encontrar todas as vítimas do escritor.

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Uma coisa podemos garantir-lhe: tal como a obra que retrata, "Consentimento" transcende a categoria de um filme confessional. É um grito de revolta, um manifesto contra um homem que sempre se gabou das suas atitudes pedófilas – e ganhou prémios literários graças aos seus relatos, imortalizados nas páginas de inúmeros livros, bem como a condecoração pelo Estado francês, com a medalha das Artes e das Letras, em 1995 – e uma sociedade conivente com estes comportamentos, tendo acabado por normalizá-los e, sobretudo, romantizá-los.

A MAGG teve oportunidade de ver este filme, que chega às salas de cinema esta quinta-feira, 30 de novembro. E eis três aspetos, dos vários que esta película evidencia do início ao fim, que foram autênticos murros no estômago.

Vanessa só tinha 13 anos quando conheceu Matzneff

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Kim Higelin a interpretar Vanessa Springora. créditos: Julie Trannoy/Reprodução Allociné

Os pais de Vanessa estavam divorciados. A mãe, destroçada e brilhantemente interpretada por Laetitia Casta, tornou-se no arquétipo de um diletante francês, aquele que vive para os prazeres da vida: jantares com amigos, que se fazem acompanhar de copos de champanhe. Foi num destes contextos que Vanessa conheceu Gabriel Matzneff, com apenas 13 anos.

Descrevendo-se a si mesma como uma jovem fragilizada pelo divórcio dos pais na obra, é exatamente essa a primeira impressão que temos de Vanessa no filme, cuja timidez fez com que utilizasse a leitura como escape da realidade. Mais tarde, é um aspeto confirmado pela mesma, em conversa com aquele que se tornaria o seu agressor: "O único amor que conheço é o que leio nos livros", confessa-lhe.

Em tenra idade, já lia as obras de autores bastante conceituados, como Fiódor Dostoiévski ou Liev Tolstói, uma característica da qual a mãe se gabava, por ser pouco convencional para aquela faixa etária. E isto, a juntar às já conhecidas tendências pedófilas de Gabriel Matzneff, foi música para os seus ouvidos, dizendo que teria todo o gosto em discutir literatura com a menina.

Mas a primeira interação do escritor e de Vanessa não se fica por aqui – pelo contrário, só piora. É que, já depois de jantar, a bordo de um táxi a caminho de casa, a jovem senta-se no banco de trás do automóvel com o autor, que lhe coloca a mão no colo. Descartando a investida, seguem-se meses de perseguição por parte de Matzneff, através de cartas ou de visitas à sua escola, a que a jovem só acede muito tempo depois, abrindo a porta daquela que viria ser uma relação que a destruiria completamente.

E é só quando a jovem confessa que estaria a sentir algo pelo escritor que a mãe, chamando-lhe "perverso e debochado", tenta abrir-lhe os olhos para o facto de este ser um pedófilo confesso. E Vanessa percebe que a progenitora, mesmo sabendo disso, a deixou ir na retaguarda do táxi com aquele homem. Quando tinha apenas 13 anos.

Matzneff assumia-se como o iniciador de crianças

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Jean-Paul Rouve e Kim Higelin a interpretar Gabriel Matzneff e Vanessa Springora. créditos: Julie Trannoy/Reprodução Allociné

Um ano depois de se conhecerem, Vanessa Springora e Gabriel Matzneff começaram a relacionar-se sexualmente — ela tinha 14, o escritor já tinha passado dos 50. E ainda que seja difícil conceber o que ia na cabeça da então adolescente, o feitiço em que se encontrava passava pelo facto de o homem se assumir como uma figura protetora, quase paternal, alegando servir de escudo a todos os perigos que pudessem atravessar-se no caminho da jovem.

Sempre obcecado com a ideia de pureza e do conceito da virgindade, ouvir o escritor a manipular a adolescente foi uma constante (e, no mínimo, aterrador). "Tens sorte que eu seja o primeiro", "não suportarei que outra pessoa te meta as mãos em cima" e "no amor nada é sujo, não há gestos proibidos" – foram algumas das frases que foi proferindo e que nos faziam um arrepio na espinha, por serem uma clara tentativa de legitimar o crime que estava a cometer.

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Como se isto já não fosse absolutamente devastador, chegar à conclusão de que esta não foi a única vítima de Gabriel Matzneff foi ainda pior. Em livros como "Les Moins de seize ans" (os menores de dezasseis anos, em português), relatava as aventuras sexuais na sequência das suas viagens de turismo sexual às Filipinas, onde, palavras do próprio, desempenhava o papel de iniciador com crianças de ambos os sexos e com idades compreendidas entre os 11 e 12 anos.

Pior: o escritor não escondeu, em momento algum, as suas tendências criminosas. E não só não o fazia, como escrevia duras críticas direcionadas à sociedade ocidental, cujos códigos morais condenam as relações entre adultos e menores, impedindo-os de exercer a sua liberdade de escolha. Por isso, tem a convicção de que está inserido numa sociedade limitada, que tentava elucidar com as suas obras, que foram alvo de aplausos durante anos.

(Quase) toda a gente foi conivente

Lendo o livro de Vanessa Springora ou vendo o filme, um dos aspetos que mais saltam à vista é a apatia e a normalização, vinda daqueles que a rodeavam, da relação que manteve com o escritor durante dois anos. A autora critica particularmente a negligência dos adultos, especialmente os do círculo de Matzneff, que se comportavam com toda a normalidade na sua presença.

Até a mãe, que era uma crítica acérrima no início da relação da filha com aquele homem, que era 36 anos mais velho, começou a legitimá-la e até a incentivá-la. Exemplo disso é quando Vanessa, já depois de ter saído de casa para ir viver com Gabriel, tem um vislumbre de lucidez e decide desistir, algo que faz com que o escritor ligue para a sua casa, deixando na mãe uma sensação de pena pelo seu desespero.

E mesmo que, em momento algum, Vanessa Springora negue ter consentido as vivências que teve com o escritor, interroga-se sobre o significado do "consentimento" naquela idade. E não foi a única a fazê-lo, mesmo estando no seio da elite parisiense, à qual pertenciam filósofos que, por terem uma visão tão complexa da vida, não se debruçavam sobre o facto de o abuso cometido contra crianças ser errado.

Foi o caso da jornalista canadiana Denise Bombarier, que, em 1990, enfrentou Gabriel Matzneff com unhas e dentes em "Apostrophes", um talk show dos anos 70, que tinha a literatura como mote, e que era exibido no horário nobre na televisão francesa, tendo sido criado e apresentado por Bernard Pivot.

Sem medo nem pudor, a jornalista abordou Matzneff diretamente – e este momento figurou no filme, com a reprodução de um excerto real do programa em questão. Mesmo sendo intimidada por aquele que era considerado um dos génios da literatura, não se deixou abalar, condenando e responsabilizando-o por aquilo que estava impresso nas páginas dos seus livros.

"Acho que vivo noutro planeta", começou por dizer. "Para mim, o senhor Matnzeff é intragável. Aquilo que não compreendo é como é que neste país a literatura, entre aspas, serve de álibi a este tipo de confidências", continuou.

Se o debate surtiu algum efeito? Não, pelo menos na altura. Gabriel Matzneff continuou a legitimar os seus atos, reiterando que não era pedófilo. Em 2002, acaba por reafirmar a sua posição: "Quando se fala de 'pedofilia', metem-se no mesmo saco o sacana que viola uma criança de 8 anos e aquele que tem uma bela relação amorosa com uma rapariga de 15. Pessoalmente, desprezo os sacanas que abusam de crianças e sou a favor de sermos duros com eles. Mas as pessoas confundem tudo", lê-se no "Le Monde".

Mas a justiça prevaleceu e, em 2020, Matzneff viu alguns dos seus principais manuscritos serem retirados do mercado, foi alvo de processos judiciais contra si e contra as editoras que publicavam as suas obras e até deixou de receber o subsídio vitalício proveniente do Ministério da Cultura francês. Isto tudo por causa de Vanessa Springora, que decidiu usar a sua voz para que a das outras vítimas também se fizessem ouvir.

A linha de apoio à vítima é o 116 006. O serviço é totalmente gratuito e está disponível todos os dias úteis entre as 9 e as 21 horas. Estão também espalhados, um pouco por todo o País, vários gabinetes da associação para que os possa contactar diretamente dependendo da sua localidade.

A lista completa de gabinetes pode ser consulta no site oficial da APAV.

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