Tínhamos chegado nem há meia-hora e eu já comentava: "Sinto que vou gostar disto". E, acreditem, não foi pela decoração moderna ou pelos mil empregados que normalmente acham que a minha mochila de três quilos de repente é muito pesada para que a consiga levar até ao quarto. Esses deixam-me nervosa e a pensar que nunca trouxe a roupa certa para aquele lugar.

Na Quinta do Marco, um hotel rural algarvio, vale o chinelo no pé, o funcionário descontraído que nos conta peripécias de quando trabalhava no navio, e a família que faz tudo, desde marketing a servir os pequenos-almoços. "Eu sentei-me à mesa com as quatro mulheres da casa e avisei: se é para nos metermos nisto, é para irmos todos juntos", conta Hélder Martins, que comprou estes 18 hectares para construir ali um sonho antigo.

A esta ideia, que começou há cinco anos, juntou-se então a mulher, Maria João, e as filhas Maria, Catarina e Joana. Juntos reconstruíram um espaço que estava praticamente ao abandono. "Só para ter uma ideia, a antiga gerência tinha cá 3 pessoas a trabalhar, nós temos 20", explica o atual proprietário.

Quinta do Marco
A piscina do Hotel conta ainda com zona de jacuzzi, espreguiçadeiras e relvado.

Hélder senta-se à mesa do pequeno-almoço com a MAGG, assim como é habitual juntar-se à mesa dos clientes que gostam de saber mais sobre o espaço que escolheram para uns dias longe de tudo. É que aquele não é o típico sítio onde damos boa noite, mostramos a identificação e, de cartão na mão, abrimos a porta do quatro até à hora do check out.

O atendimento é personalizado e sem grandes cerimónias. Afinal, estamos numa quinta que, ainda que esteja em pleno Algarve, quase que nos remete ao Gerês.

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Comecemos pelo nome da terra: Santa Catarina da Fonte do Bispo. Então não era suposto Algarve ser Albufeira, Monte Gordo, Quarteira e, na loucura, Sagres ou Lagos? Não amigos, o Algarve não é só pints e ribs para estrangeiros e pode muito bem ser uma quinta de animais no meio do verde.

Na Quinta do Marco, os ovos do pequeno-almoço são das galinhas criadas nas traseiras, os legumes são os da horta e as compotas são feitas com as frutas que apanham das árvores em redor.

Não se admire ainda se abrir a porta do quarto e tiver um pavão à porta. Basta uns passos até à zona dos animais para perceber que está ali montado um pequeno zoo. Ovelhas, burros, patos, galinhas estão acondicionados na traseira do edifício principal, além dos muitos gatos que se passeiam pela propriedade.

Receber hóspedes numa pandemia

Obrigados a fechar quando o turismo era palavra proibida, o hotel tenta agora voltar ao ativo, com as adpatações necessárias. O Spa, por exemplo, encontra-se encerrado. Mas há toda uma piscina com vista para as montanhas para aliviar todo o stresse que possa estar acumulado.

A equipa de limpeza foi reforçada para que a segurança do espaço esteja garantida e até o pequeno-almoço teve que ser adaptado. Numa fase inicial, o buffet foi substituído por pedidos feitos à carta e entregues no quarto do cliente. "O problema é que a maioria dos clientes tem mais olhos do que barriga", brinca Joana. O desperdício era muito e, por isso, agora os clientes sentam-se à mesa do restaurante — que tem esplanada — onde lhes são servidos os básicos: pão caseiro, manteiga queijo fiambre, compotas, fruta, sumo, chá e café. A pedido chegam os ovos, o leite ou os iogurtes com cereais.

Ainda sem sair do tema da gastronomia, falemos do restaurante, onde são também servidas as refeições principais e é famoso na vizinhança pelos pratos algarvios servidos por quem realmente sabe. A equipa da Cozinha do Marco é toda das redondezas, o que a juntar aos ingredientes frescos da quinta, dá origem a pratos que quase que nos fazem meter já no carro para quase três horas de auto estrada.

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Habitualmente aberto ao público externo, por razões de segurança o restaurante está agora disponível apenas para hóspedes (ainda que abram excepções para reservas feitas em dias com poucas marcações internas). E é também por razões de segurança que a ementa passou a ser reduzida e conta agora com três opções diárias: prato de peixe, prato de carne e opção vegetariana. Calhou-nos na rifa o dia da massada de peixe que, graças aos deuses da boa educação à mesa, veio acompanhada de uma colher de sopa, caso contrário era ver-nos de cara enfiada no prato para aproveitar todo aquele molho feito quando os tomates são da época.

E, ao contrário do que seria de esperar, não é por preferir deixar a carne de fora que fica a perder. A carta diz espetada de tofu com legumes e batata e decidimos arriscar. O tofu marinado em condições — coisa rara mesmo em restaurantes habituados a estas andanças —, batata doce do Algarve assada a saber a brasa e os legumes, bom, já falei aqui que os legumes são da horta a dois metros do restaurante, não é? Exato. Imaginem o resultado

De barriga cheia de comida e de bem servir, só nos resta apreciar o resto da estadia como se estivéssemos em casa. É que o estranho vai ser mesmo voltar para um T2 em Lisboa sem figos nas árvores e ovos caseiros em cima do pão quente.

* A MAGG ficou alojada a convite do Hotel Rural Quinta do Marco

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