(Atenção: este texto contém alguns spoiler sobre a terceira temporada de "The White Lotus", que chega à MAX esta segunda-feira, 17 de fevereiro)

"The White Lotus", cuja primeira temporada estreou em plena pandemia da COVID-19, no verão de 2021, não é uma série para consumir de uma vez só. Mais do que não seja porque os episódios são lançados semanalmente e, para saber o que se vai passar a seguir, é mesmo preciso esperar. E vale a pena, pelo menos a avaliar pelos primeiros três episódios desta nova temporada, que a MAGG já viu.

O primeiro, que chega à plataforma de streaming esta segunda-feira, 17 de fevereiro, apresenta-nos o novo grupo de veraneantes, acabadinhos de chegar ao resort de luxo The White Lotus, situado em Koh Samui, segunda maior ilha da Tailândia e destino popular entre os que procuram praia, sol e um toque de exotismo (mas não demasiado). E reforçamos o não demasiado porque a maior parte da acção se desenrola dentro de um resort de luxo, com as comodidades, comida e luxos ocidentais que o cliente típico deste tipo de turismo procura (exceto num pormenor que vai enfurecer e frustrar uma determinada família).

E se a primeira temporada de "The White Lotus" trazia personagens woke, fruto do ar dos tempos (leia-se, de uma América liderada por Biden), na terceira entramos em modo MAGA total, com a presença de personagens abertamente conservadoras. E nenhuma delas espelha melhor estes novos tempos, em que o machismo tóxico deixou de ser marginal para ocupar o centro da narrativa, do que Saxon Ratliff (Patrick Schwarzenegger).

A família Ratliff créditos: MAX

Os Ratliff são um dos núcleos desta terceira temporada. Uma família de classe média alta norte-americana, encabeçada pelo pater familias Timothy (Jason Isaacs) e pela dondoca Victoria, personagem que marca o regresso da hilariante Parker Posey aos grandes papéis. O clã fecha com o inseguro Lochlan (Sam Nivola) e Piper (Sarah Catherine Hook).

A filha dos Ratliff é uma bela súmula do que é não só o turismo ocidental mas também a apropriação da religião budista e de práticas ancestrais como o yoga e a meditação para propósitos hedonistas, onanistas e de consumo rápido. Piper leva a família toda até à Tailândia porque tem como propósito entrevistar um monge de um templo budista. Não o faz sozinha mas sim com a família toda atrás que, por ter posses (mais ou menos, vá), opta por ficar instalada num resort de luxo com tratamentos anti-stress, alinhamentos de chakras, meditações e afins. Em suma, um conjunto avulso de rituais com inspirações vagamente orientais que o resort vende aos ocidentais em burn out, que rumam a Oriente para "se encontrarem". Ou encontrarem qualquer coisa.

Piper Ratliff (Sarah Catherine Hook)

Mais uma vez, "The White Lotus" mostra a fragilidade e a hipocrisia das relações humanas em tempos de redes sociais, de capitalismo tardio, de espiritualidade seletiva, de gurus da moda. E essa ironia está também espelhada noutro núcleo, liderado por Jaclyn Lemon (Michelle Monaghan), estrela de TV / influencer, que aproveita a 'borla' no resort para reconectar-se com as amigas de longa data: Kate (Leslie Bibb), uma hiper-loira, que grita MAGA por todos os poros, e Laurie (Carrie Coon), uma neurótica advogada nova-iorquina. Nem tudo o que parece "migas forever" é e estas amizades, presas por um fio, vão começar a mostrar as suas fragilidades com muita rapidez.

As três amigas Laurie (Carrie Coon), Jaclyn (Michelle Monaghan) e Kate (Leslie Bibb)

Rick (Walton Goggins), a personagem mais misteriosa desta temporada, viaja acompanhado da sua namorada Chelsea (a maravilhosa Aimée Lou Wood, que já conhecemos de "Sex Education". E tem um propósito (que iremos perceber mais à frente qual). Belinda Lindsey (Natasha Rothwell) regressa a "The White Lotus". A terapeuta era a gerente do spa do resort do Havai e, recorde-se, foi enganada por Tanya McQuoid (Jennifer Coolidge), que morreu na segunda temporada.

Belinda Lindsey (Natasha Rothwell) créditos: MAX

A língua tailandesa, bem como a música daquele país, estão presentes ao longo de toda a narrativa, fazendo com que o telespectador (a não ser que esteja muito familiarizado com a cultura) se sinta um estranho ao presenciar os diálogos entre o staff. São momentos da história em que o telespectador é colocado num lugar de desconforto, como se, nas entrelinhas, a série nos estivesse a dizer "achas que isto é teu mas, na realidade, não pertences aqui". 

Sritala Hollinger (Patravadi Mejudhon), dona do resort, atua como outro elemento de mistério e uma espécie de mãe adotiva dos seus funcionários. Sempre acompanhada pelo subserviente Fabian (Christian Friedel), é ela quem parece controlar, ainda que ao longe, todas as narrativas que se vão desenrolando. Lalisa Manobal, mais conhecida como Lisa da girlsband Blackpink, tem em "The White Lotus" o seu primeiro grande papel, na pele de Mook, uma das mentoras de bem estar do resort (e interesse amoroso do doce Gaitok, interpretado por Tayme Thapthimthong).

Mook e Gaitok

A premissa desta temporada de "The White Lotus" é a mesma das primeiras duas: há um crime, ninguém sabe quem o cometeu, todos são suspeitos. Mas o crime nem é o mais interessante desta comédia dramática mas sim a forma como a série expõe, de forma cruel e hilariante, as nossas incongruências perante o que é exótico, diferente e não familiar. A bacoquice ocidental de achar que, numa versão imperialista soft, pode pegar em hábitos e costumes que não são os seus, processá-los e espetá-los numa tosta com abacate.

Os ricos vs. os pobres, a visão simplista e domesticada das religiões nãos-ocidentais, a procura de uma espiritualidade que seja uma panaceia para todos os males, sempre coadjuvada pela medicina ocidental (leia-se, ansiolíticos) ou pelas drogas. Tudo isto embrulhado num cenário no qual, à primeira vista, só apetece mergulhar mas, à medida que o tempo passa, do qual só apetece fugir. Como se fosse preciso ir à Tailândia (ou à Índia, ou a Bali) para uma pessoa "se encontrar". Ou desencontrar.