De figura central de uma história que podia ser a de todos (afinal, o encanto e o desencanto fazem parte da vida de qualquer um), para segundo plano. É a partir desta transição quase vertiginosa que "Master of None" regressou este domingo, 23 de maio, à Netflix com a sua nova temporada. A vertigem, sabemos agora, é condizente com aquilo que terão sido os últimos três anos de Aziz Ansari, criador da série, após ter sido acusado, em 2018, por uma mulher, de conduta sexual imprópria.

Estávamos a 14 de janeiro de 2018. Grace (nome fictício), uma fotógrafa de Brooklyn, EUA, partilhava o seu testemunho com a revista "Babe", que publicava um texto com o título: "Tive um encontro com o Aziz Ansari. Acabou por ser a pior noite da minha vida." Neste encontro, consumado em setembro de 2017, após os dois se terem conhecido na edição desse ano dos Emmys, Ansari terá feito inúmeros avanços que a própria considerou desajustados e não consensuais.

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Foi isso, aliás, que a própria explicou ao ator na troca de mensagens no dia seguinte ao encontro, e a que a publicação teve acesso e publicou na sua página oficial de Twitter.

"A noite de ontem pode ter sido divertida para ti, mas não foi para mim. Quando chegámos ao teu apartamento, ignoraste sinais que, embora não-verbais, eram claros. Insististe nos avanços. Não havia como não perceberes que estava desconfortável [com a situação]", lê-se na mensagem enviada por Grace.

O jantar e a subida para o quarto de Aziz Ansari

"Quero aproveitar esta mensagem para te fazer pensar no teu comportamento e no quão desconfortável me deixou. Pensa no que aconteceu na noite passada. Podes ter pensado que estava tudo bem porque ambos estávamos a gostar, mas enquanto pensavas isso, os teus dedos estavam na minha boca. Puseste, de forma continuada, a minha mão no teu pénis mesmo depois de te ter mostrado que preferia levar as coisas com calma."

Na mesma mensagem, Grace conclui: "Quero ter a certeza de que pensas nas tuas atitudes para que a próxima mulher não tenha de ir a chorar no caminho para casa."

No texto publicado na revista digital "Babe", a fotógrafa recorda que o jantar que precedeu a subida ao quarto de Ansari foi muito rápido, uma vez que o ator "parecia ansioso por sair dali". Já no apartamento, Grace recorda-se de Aziz sugerir "ir buscar um preservativo após os primeiros beijos". Pelo meio, terá ainda "posto os dedos na boca e, depois, tentado pô-los na [sua] vagina".

Apesar das indicações de Grace que denotavam desconforto, a fotógrafa revelou que o ator ter-se-á tornado mais agressivo na sua abordagem — primeiro, avançando com sexo oral sobre ela e, depois, obrigando-a a fazer o mesmo a si. "Sei que dei sinais físicos de que não estava interessada no que aconteceu. Não sei se ele reparou nisso ou se simplesmente ignorou", revelou, na altura, à mesma publicação.

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O texto tornou-se viral numa altura em que o movimento #MeToo já tinha começado a dar os primeiros passos nos EUA, com as acusações contra Harvey Weistein. No mesmo dia, o ator foi obrigado a reagir através de um comunicado oficial, confirmando as alegações que tinham sido feitas contra ele. "Em setembro do ano passado, conheci uma mulher numa festa. Trocámos números, mensagens, e eventualmente decidimos encontrarmo-nos. Jantámos e, mais tarde, tivemos relações sexuais que, na altura, pareciam completamente consensuais", começa por dizer Ansari.

"No dia seguinte, recebi uma mensagem dela que me disse que embora toda aquela situação parecesse consensual, na verdade fê-la sentir-se desconfortável. É verdade que tudo me parecia ok e foi por isso que, quando percebi que não tinha sido para ela, levei muito a sério o que me disse. Respondi em privado e permiti-me algum tempo para refletir", continuou Ansari. A mensagem enviada em privado também foi divulgada pela revista, na qual o ator diz "estar muito triste" por saber como a fotógrafa se sentiu.

A ausência do espaço mediático e o regresso discreto

"Aquilo que posso dizer é que nunca foi a minha intenção fazer-te sentir da maneira que te sentiste. Obviamente, interpretei mal os sinais no momento e lamento imenso", conclui.

A partir daquele momento, Aziz Ansari, vencedor de um Globo de Ouro, de um Emmy e com uma popularidade crescente devido à sua série "Master of None", estreada em 2015, desapareceu do espaço mediático.

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O regresso surgiu um ano depois, em 2019, no seu novo espetáculo de stand up comedy, lançado na Netflix, e através do qual abordou a polémica. "Tenho a certeza de que há muitos de vós que estão curiosos para saber como me sinto em relação a toda aquela situação. No último ano, senti muitas coisas: houve alturas em que senti medo e outros em que senti humilhação. Mas, no fundo, sinto-me profundamente mal de que aquela pessoa se tenha sentido assim", refere.

E continua: "Quando vos vejo aqui [referindo-se às pessoas que pagaram bilhete para o ver atuar], a situação atinge-me de uma outra maneira. Significa muito para mim porque imaginei um mundo em que nunca mais poderia fazer isto [subir a um palco], e foi como sentir-me a morrer".

E ainda que as declarações que foi fazendo ao longo do espetáculo nunca demonstrassem raiva ou desdém por Grace — que reconheceu ter sido negativamente impactada pelos seus comportamentos —, foram as únicas que se ouviram de Ansari. De repente, o ator voltaria a ausentar-se do espaço mediático até maio deste ano devido ao regresso de "Master of None", a série da qual abdicou do protagonismo (embora tenha participações secundárias na nova história) para assumir a realização a tempo inteiro.

Olhando para uma das entrevistas que concedeu em 2017, ainda antes da acusação de conduta sexual imprópria, o desfecho parecia previsível. "Teria de me tornar numa pessoa totalmente diferente antes de escrever a terceira temporada [da série]. Teria de casar, ter um filho ou algo do género. Não tenho mais nada para dizer sobre ser um miúdo solteiro em Nova Iorque, que passa os dias a comer em vários pontos da cidade", revelou à revista "Vulture", fazendo prever o fim da sua personagem na história.

As acusações terão incentivado a decisão, deixando espaço para que, nesta nova temporada, o protagonismo seja divido entre duas mulheres homossexuais, num gesto condizente com o que o próprio ator tinha revelado no seu stand-up: querer contribuir para que as histórias que acabasse por contar em televisão fossem, o mais possível, representativas e inclusivas. Apesar das diferenças de gravidade entre os dois casos, a Netflix, que cortou todas as relações com Kevin Spacey após as acusações de agressão sexual, nunca reagiu às alegações levantadas contra Ansari.

Ao contrário das duas primeiras temporadas de "Master of None", compostas por dez episódios cada, a nova temporada tem apenas cinco — já inteiramente disponíveis. Espera-se que seja a última da série.

Terminado o interesse acentuado que geralmente acompanha as estreias da Netflix, Aziz Ansari deverá voltar para as sombras em que se refugiou durante o período conturbado — longe do escrutínio público e deixando que sejam outros os protagonistas de uma qualquer história, da sua autoria ou não.

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