Quando as Doce se apresentaram cheias de cor a um País atordoado pelas feridas ainda abertas de mais de 40 anos de ditadura, agitaram as águas. Mas anexo ao sucesso, estava alguma resistência social ao progresso. As roupas reduzidas, as letras (por vezes) sugestivas, a pele à mostra e o desafio das convenções nem sempre convenceu quem fazia, até, do progressismo bandeira. Paradigmático do desprezo que, em Portugal, se tem pela cultura, atualmente ninguém sabe das Doce, ainda que as suas canções perdurem no tempo.

"Bem Bom", o filme que se estreia esta quinta-feira, 8 de julho, nos cinemas, recorda quatro mulheres e o fenómeno que criaram, homenageando-as. E ainda que a produção vá da criação da banda, em 1979, até à vitória no Festival da Canção, em 1982, a argumentista Filipa Martins diz que a equipa se recusou "a contar apenas a história de uma banda feita por mulheres", tal como explica à MAGG.

"Bem Bom". Como as Doce (en)cantaram um Portugal amargo e a preto e branco
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Não é só disso que se trata.

"Enquadrámos o fenómeno das Doce naquilo que era o Portugal saído de 40 anos de ditadura, em que a televisão já era a cores, mas muitas das mentalidades ainda eram a preto e branco. A maneira como se mostravam, as letras que cantavam, a forma como se vestiam ou dançavam gerou ondas de ovação, mas também muitas críticas", continua.  E essas vieram de todos os lados, de feministas e de intelectuais de esquerda que "viam, naquelas letras, mensagens muito superficiais".

Também aqui, o enquadramento político-social volta a ser necessário. Na altura em que as Doce surgem, Portugal tinha acabado de sair do Estado Novo e a indústria musical, tal como a conhecemos atualmente, não existia.

Filipa Martins, a argumentista do filme, diz que a ideia passou por enquadrar o fenómeno das Doce num Portugal saído da ditadura

"A indústria estava profundamente marcada pela canção de protesto que teve o seu lugar e foi fundamental para o grito de liberdade que o País deu, mas as Doce não eram nada disso", refere Martins. Nem tinham de ser.

"Para muitos, as Doce rimavam com prostitutas"

Isso não significa, porém, que não tivessem uma posição política. Talvez não a assumissem "nas canções, ou na intenção" dos gestos, mas fizeram-no representando a mulher de outra forma na sociedade portuguesa que as educava para serem "donas de casa", para terem "profissões pouco diferenciadas", para "não ocupar cargos de poder", nem sequer sonhar com "ter voz ou sucesso".

"As Doce jogaram fora de baralho e perturbaram a ordem moral das coisas que estava criada neste pós-25 de abril e sofreram as consequências disso", recorda a argumentista. E se é verdade que há muita alegria nas quase duas horas de história cinematográfica, também são conhecidas as consequências que decorreram desse "mexer com muitas crenças enraizadas na mentalidade portuguesa vinda de 40 anos de ditadura".

"Se atualmente consideramos legítimo denunciar o assédio ou a objetificação da mulher nos meios ligados ao negócio da música e dos filmes, naquela altura isso não era, de todo, discutido. Para muitos, as Doce rimavam com prostitutas pela forma como se vestiam, estavam e dançavam", diz. O filme aborda, portanto, o fenómeno que elas criaram, mas também como foram capazes de tocar nos extremos.

"As Doce tocaram nos extremos. Afinal, foram amadas e profundamente criticadas", e isso, diz Filipa Martins, afetou-as de formas muito particulares, mexendo com "a vida pessoal, os afetos e os seus contactos pessoais nos anos 80".

"Desde o início, tinha uma palavra que repetia muitas vezes: intemporalidade"

Quando Patrícia Sequeira, a realizadora, arregaçou as mangas para começar a filmar "Bem Bom" — que, desde o início ao final das filmagens, nunca contou com o apoio do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) — repetiu por diversas vezes uma palavra que queria ver aplicada em toda a história.

"Desde o início, tinha uma palavra que repetia muitas vezes: intemporalidade. Gostava de contar uma história que fosse válida, fosse qual fosse a época em que se passava. 40 anos depois, os temas abordados neste filme são muito atuais e essa foi uma ideia que esteve sempre muito clara para mim", explica Patrícia Sequeira à MAGG.

A ideia foi transmitida a todos os setores envolvidos na produção, como o do guarda-roupa. Afinal, queria-se consistência em todo o filme. "É muito fácil olharmos para os anos 80 e irmos ao lado mais óbvio e menos interessante. Todos nós escondemos aquelas fotografias de casamentos, com aquelas poupas e outras coisas com as quais hoje não nos reconhecemos, mas há cortes de cabelo e peças de roupa que, apesar de terem existido naquela época, ainda hoje são atuais", refere.

patrícia sequeira
Patrícia Sequeira, a realizadora, fala num projeto com muitas dificuldades, mas que se concretizou pela "vontade de fazer" créditos: Nash Does Work

No trabalho de realização, o objetivo passou por "filmá-las como estrelas", usando todos os meios técnicos à disposição de Sequeira e contrastando com algumas das imagens das atuações da Doce no Portugal dos anos 80, e disponíveis no YouTube, "filmadas com uma câmara fixa que as mostra a partilhar o mesmo plano". Por isso, "há movimento, planos fechados e câmara baixa" — que traz dinamismo a uma banda colorida e arrojada. "Tinha esse desejo de lhes dar a dimensão de estrela porque, à época, foram vistas assim".

E estas Doce não se limitam apenas a um filme. "Este é um projeto como um todo: é um filme, uma série e seria muito mais se não existisse uma pandemia. Foi daquelas empreitadas tão gigantes que, em vários momentos, se me apresentaram vários obstáculos que pensei não ser capaz ultrapassar. Felizmente, fui derrubando estes muros com sucesso e com muita vontade de fazer, porque deparei-me com uma história que é muito mais do que aquilo que me parecia ser inicialmente", diz.

As dificuldades foram várias: "O facto de estar a falar sobre pessoas vivas, de retratar uma banda e de haver música, que fez encarecer o filme porque as canções têm direitos de autor". Tudo isto sem apoio financeiro do ICA.

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Apesar de tudo isso, e de estar ciente da "loucura" que é lançar o filme nesta altura "em que o valor de bilheteira não vai ser o esperado", Patrícia Sequeira tem "uma grande vontade de que as pessoas, num momento de enorme angustia, possam ver um filme alegre".

"Muitos me têm perguntado: lançar o filme agora tem como objetivo levar as pessoas a voltar ao cinema? Também é isso. Mas é, sobretudo, para dar uma experiência de alegria e alguns momentos de felicidade a quem for ver às salas", explica a realizadora. E apesar dos momentos duros que marcaram a carreira das Doce, e que são abordados no filme, felicidade é coisa que preenche as quase duas horas de "Bem Bom".

Quanto à série da RTP, que terá um arco narrativo maior — até porque será composta por sete episódios —, espera-se que a estreia aconteça ainda este ano, embora ainda não haja data fechada. Sabe-se que terá uma estrutura própria e não será igual ao filme.

Do elenco de "Bem Bom", em cartaz a partir desta quinta-feira, fazem parte nomes como Bárbara Branco, Lia Carvalho, Carolina Carvalho, Ana Marta Ferreira e José Mata.

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