"Estamos deitados num êxtase pós-coito sob as lanternas de papel  rosa, flores silvestres e luzes coloridas que brilham nas vigas. À medida  que a minha respiração diminui, aperto ainda mais Anastasia. Ela está  em cima de mim com o rosto no meu peito e a mão pousada no meu  coração acelerado. A escuridão desapareceu levada pela minha caçadora  de sonhos… a minha noiva. O meu amor. A minha luz. 

Poderia ser mais feliz do que sou neste momento? 

Guardo a cena na minha memória: a casa dos barcos, o ritmo  calmante da agitação da água, a flora, as luzes. Fecho os olhos e memorizo a sensação da mulher que está nos meus braços, o seu peso em  cima de mim, o lento subir e descer da sua respiração, as suas pernas  entrelaçadas em mim. A fragrância do seu cabelo enche-me as narinas  acalmando-me os sentidos. Este é o meu lugar feliz. O Dr. Flynn ficaria  orgulhoso. Esta mulher linda aceitou ser minha. Em todos os sentidos.  Novamente. 

– Podemos casar amanhã? – sussurro ao seu ouvido. 

– Hum. – O som na sua garganta ecoa com um suave estremecimento pela minha pele. 

– Isso é um sim? 

– Hum. 

– Um não? 

– Hum. 

Sorrio e noto que está cansada. 

– Miss Steele, é incoerente? – Sinto o seu sorriso e a minha alegria irrompe numa gargalhada, enquanto a abraço com força e beijo  o seu cabelo. 

– Las Vegas, amanhã, então. – Ela levanta a cabeça, os olhos ainda semicerrados sob a luz das lanternas. Está sonolenta, mas saciada.

– Acho que os meus pais não iam ficar muito contentes com isso.  – Ela baixa a cabeça e eu tamborilo as pontas dos dedos nas suas costas  nuas, desfrutando delicadamente do calor da sua pele lisa. 

– O que queres, Anastasia? Las Vegas? Um grande casamento com  todos os extras? Diz-me. 

– Grande não... Só amigos e familiares. 

– Ok. Onde? 

Ela encolhe os ombros e sinto que não pensou nisso. 

– Podia ser aqui? – pergunto. 

– Na casa dos teus pais? Eles não se importavam? 

Rio-me. Grace adoraria a oportunidade. 

– A minha mãe ficaria no sétimo céu. 

– Então fazemos aqui. Tenho a certeza de que a minha mãe e  o meu pai iam preferir assim.  

E eu também. 

Pelo menos concordamos. Sem discussões. 

Será a primeira vez? 

Suavemente acaricio-lhe o cabelo, ligeiramente desalinhado pelos  nossos momentos de paixão. 

– Então, já estabelecemos onde, agora falta decidir quando. – Deves ter de perguntar à tua mãe. 

– Hum. Posso dar-lhe um mês, não mais. Quero-te demasiado  para esperar. 

– Christian, tu já me tens. Já me tens há algum tempo. Mas está  bem... um mês, então. – Beija-me ternamente o peito e eu agradeço por  a escuridão continuar longe. A presença dela afasta-a. 

– É melhor regressarmos. Não quero que a Mia nos interrompa  como da outra vez. 

Ana ri-se. 

– Ah, sim. Essa foi por pouco. A minha primeira vez de sexo com punição. – Passa os dedos pelo meu queixo e eu viro-me, levando-a  comigo no gesto e apertando-a contra o tapete felpudo do chão. 

– Não me lembres. Não foi um dos meus melhores momentos. Os seus lábios abrem-se num sorriso tímido e os olhos brilham  de satisfação.

– No que toca à punição, foi bom. E consegui recuperar as minhas cuecas. 

– Pois foi. Muito justo. – Beijo-a levemente e levanto-me, ainda  a rir-me só de me lembrar. – Anda, veste as cuecas e vamos voltar para  o que resta da festa. 

Puxo o fecho do seu vestido verde-esmeralda e ponho-lhe o meu  casaco sobre os ombros. 

– Pronta? – Entrelaça os dedos nos meus e subimos as escadas da  casa dos barcos. Para no topo e vira-se uma última vez para olhar para  o nosso paraíso floral, como se estivesse a memorizar o local. – E as luzes e as flores? 

– Não faz mal. A florista regressa amanhã para desmontar este  caramanchão. Ficou muito bonito. Agora as flores irão para um lar de  terceira idade. 

Ela aperta-me a mão. 

– És um bom homem, Christian Grey. 

Espero ser suficientemente bom para ti. 

A minha família está na sala, a maltratar o pobre aparelho de  karaoke. Kate e Mia dançam e cantam "We Are Family" e os meus pais  assistem. Acho que estão todos um tanto tocados. Elliot está estendido  no sofá a beber a sua cerveja e a murmurar a letra da canção. 

Kate avista Ana e acena-lhe com o microfone. 

– Oh, meu Deus! – grita Mia, sobrepondo-se à canção e agarrando  a mão de Ana. – Olhem para esta pedra! Christian Grey, pediste-a em casamento! 

Ana esboça um sorriso tímido enquanto Kate e a minha mãe se juntam para inspecionar o anel e demonstrar convenientemente a sua  admiração. Sinto o meu ego rejubilar. 

Sim. Ela gostou dele. Elas gostaram dele. 

Portaste-te bem, Grey. 

– Christian, posso falar contigo? – pergunta Carrick, levantando-se com uma expressão sombria. 

Agora?

O seu olhar é inabalável, enquanto me leva para fora da sala. – Claro. – Lanço um olhar a Grace, mas ela evita-me. Será que ela lhe falou sobre Elena? 

Foda-se. Espero que não. 

Sigo-o para o escritório e ele acena-me para entrar, fechando  a porta atrás de si. 

– A tua mãe contou-me – diz ele, sem qualquer preâmbulo. Dou uma olhadela ao relógio… são 00h28. É demasiado tarde para  este tipo de conversa… em todos os sentidos. 

– Pai, estou cansado… 

– Não. Não vais evitar esta conversa. – O seu tom de voz é sério e  os seus olhos semicerram-se como se fossem alfinetes, mirando-me por  cima dos óculos. Está zangado. Muito zangado. 

– Pai… 

– Cala-te, filho. Tens de ouvir. – Senta-se na extremidade da  secretária, tira os óculos e começa a limpá-los com o pano que tira do bolso das calças. Estou na sua frente, como aliás já estive várias vezes.  Sinto-me como se tivesse catorze anos e tivesse acabado de ser expulso  da escola… outra vez. Resignado, respiro fundo e suspiro ruidosamente,  pondo as mãos na cintura à espera da investida. 

– Dizer que estou desiludido é muito pouco. O que a Elena fez foi criminoso… 

– Pai… 

– Não, Christian. Agora não podes falar – interpõe, observando-me com muita atenção. – Ela merece ser presa. 

Pai! 

Faz uma pausa para colocar os óculos. 

– No fundo, acho que é a tua mentira que mais me desilude. Todas as vezes que saíste desta casa e impingiste a história de que ias estudar com os teus colegas… colegas que nunca conhecemos… estavas com esta mulher. 

Cristo! 

– Como é que posso acreditar em tudo o que nos disseste? – continua. Oh, caramba. Esta reação é totalmente exagerada. 

– Posso falar agora?

– Não, não podes. Claro que me culpo a mim próprio. Pensei que  te tinha dado alguma espécie de orientação moral, mas agora pergunto-me se consegui ensinar-te alguma coisa. 

– É uma pergunta retórica? 

Ele ignora-me. 

– Ela era uma mulher casada e não respeitaste isso, e ainda por cima vais casar-te… 

– Isto não tem nada a ver com Anastasia! 

– Não te atrevas a gritar comigo – diz ele, com tal intensidade que  me silencia de imediato. Nunca o vi tão zangado. Isto é muito sério.  – Tem tudo a ver com ela. Estás prestes a comprometer-te seriamente com esta mulher. – O seu tom de voz suaviza-se. – É uma surpresa  para todos nós, e estou feliz por ti. Mas estamos a falar da santidade  do casamento. E se não respeitas isso, então não vale a pena casares. 

– Pai… 

– E se estás tão convicto dos votos sagrados que em breve assumirás, tens seriamente de pensar num acordo pré-nupcial. 

O quê? Levanto a mão para o calar. Foi longe demais. Eu sou adulto,  pelo amor de Deus.

– Não tragas a Ana para isto. Ela não é uma reles caçadora de fortunas. 

– Não estou a falar dela – diz, levantando-se e avançando na minha  direção. – Estou a falar de ti. Tens de assumir as tuas responsabilidades.  Tens de ser uma pessoa decente e de confiança. Como marido! 

– Porra, pai, eu tinha quinze anos! – gritei, e ficámos cara a cara, observando-nos mutuamente. 

Porque está a reagir tão mal a isto? Sei que sempre fui um grande desapontamento para ele, mas nunca o manifestou de forma tão franca. Carrick fecha os olhos e belisca o nariz, e eu percebo que em momentos de stresse faço exatamente o mesmo. Este hábito vem dele, mas no meu caso a maçã caiu bem longe da árvore. 

50 Sombras Mais livre
"Mais Livre" é lançado em Portugal pela Lua de Papel / Leya

– Tens razão. Eras uma criança vulnerável. Não entendes que o que ela fez foi errado, e continuas claramente sem entender porque ainda estás ligado a ela, não apenas como amigo da família, mas como parceiro de negócios. Andam os dois a mentir-nos há anos. E é isso que mais magoa. – O seu tom de voz baixa. – Ela era amiga da tua mãe. Pensávamos que era uma boa amiga. Mas é o oposto. Vais cortar todos os laços financeiros que tens com ela. 

Desaparece, Carrick. 

Queria dizer-lhe que Elena era uma força do bem, e que não teria continuado associado a ela se pensasse o contrário. Mas sei que ele nem me vai ouvir. Não quis ouvir quando tinha catorze anos e estava na escola e parece que também não me quer ouvir agora. 

– Já terminaste? – As palavras silvam com azedume. 

– Pensa naquilo que te disse. 

Viro-me para sair. Já ouvi o suficiente. 

– Pensa no acordo pré-nupcial. Vai poupar-te muitos dissabores  no futuro. 

Ignorando-o, saio do escritório e bato com a porta. 

Que se foda! 

Grace está à porta. 

– Porque lhe contaste? – grito-lhe, mas Carrick seguiu-me, por isso ela não me responde. O seu olhar gélido dirige-se a ele. Vou buscar Ana para irmos para casa. 

De mau humor, sigo o som de gemidos até à sala e encontro Elliot  e Ana ao microfone a assassinar "Ain’t No Mountain High Enough".  Se não estivesse tão zangado, ria-me. Os uivos desafinados de Elliot não podem realmente ser classificados como cantar, já que está a afogar a doce voz de Ana. Felizmente, a canção está quase no fim, por isso,  sou poupado ao pior. 

– Acho que Marvin Gaye e Tammi Terrell andam às voltas na  campa – observo secamente quando terminam. 

– Penso que foi uma prestação bastante boa – diz Elliot, fazendo  uma vénia de forma teatral a Mia e a Kate, que se riem e aplaudem  exageradamente. Estão todos mesmo embriagados. Ana ri-se, com umas  belas faces coradas. 

– Vamos para casa – digo-lhe. 

Fica desapontada. 

– Disse à tua mãe que ficaríamos. 

– Disseste? Mesmo agora?

– Sim. Ela trouxe para baixo uma muda de roupa para nós. Eu  estava desejosa de dormir no teu quarto. 

– Querido, eu queria mesmo muito que ficasses. – É uma súplica  da minha mãe, que permanece à porta, com Carrick atrás dela. – A  Kate e o Elliot também vão ficar. Gosto de ter os meus filhotes todos  comigo. – Estende a mão e agarra a minha. – E ainda esta semana pensávamos que te tínhamos perdido. 

Murmurando um palavrão em voz baixa, mantenho a minha com postura. Os meus irmãos parecem completamente alheios ao drama  que se desenrola na frente deles. Esperava esta ignorância de Elliot,  mas não de Mia. 

– Fica, filho. Por favor. – O olhar do meu pai penetra-me, mas  aparenta ser bastante cordial. Até parece que não me acabou de dizer  que sou um desapontamento total e completo.

Novamente. 

Ignoro-o e respondo à minha mãe. 

– Ok. 

Mas é só porque Ana me olha com ar de súplica e eu sei que se sair  com este mau humor isso vai manchar o dia maravilhoso que tivemos.  Ana abraça-me. 

– Obrigada – sussurra. Sorrio para ela e a nuvem negra que paira  sobre mim começa a dissipar-se. 

– Vamos, pai. – Mia atira-lhe o microfone para as mãos e arrasta-o para a frente do ecrã. – Última música! – diz ela. 

– Cama, Ana! – Não é um pedido. Já estou farto da minha família  por esta noite. Ela assente e entrelaço os seus dedos nos meus. – Boa  noite a todos. Obrigado pela festa, mãe. 

Grace abraça-me. 

– Tu sabes que te amamos. Só queremos o melhor para ti. Estou  tão feliz com a novidade. E tão feliz por estares aqui. 

– Sim, mãe. Obrigado. – Afago-lhe o rosto com carinho. – Estamos  cansados. Vamos dormir. Boa noite. 

– Boa noite, Ana. Obrigada – diz ela, e dá-lhe um abraço rápido. Puxo a  mão de Ana para sairmos quando Mia põe "Wild Thing" para Carrick cantar. Não quero de todo ver isso.

 Acendo a luz, fecho a porta do quarto e puxo Ana para os meus  braços, em busca do seu calor, numa tentativa de me distanciar da repreensão intensa de Carrick. 

– Ei, estás bem? – pergunta ela num murmúrio. – Estás aborrecido. – Só estou irritado com o meu pai. Mas isso não é nada de novo.  Ele ainda me trata como um adolescente. 

Ana abraça-me com mais força. 

– O teu pai ama-te. 

– Bem, hoje ele está muito desapontado comigo. Outra vez. Mas  não quero falar disso agora. – Beijo-lhe o cocuruto e ela lança a cabeça  para cima, olhando-me com compaixão e compreensão e eu sei que  nenhum de nós quer reavivar o espectro de Elena neste momento…  Mrs. Robinson

Lembro-me do início da noite quando Grace, em toda a sua glória vingadora, pôs Elena na rua. Interrogo-me sobre o que teria dito a minha  mãe se, nos velhos tempos, me tivesse apanhado com uma rapariga no meu quarto. Subitamente sinto-me estimulado pela mesma excitação juvenil que tive quando Ana e eu viemos para aqui às escondidas no  último fim de semana durante o baile de máscaras. 

– Tenho uma rapariga no meu quarto – gracejo. 

– O que lhe vais fazer? – O sorriso de Ana é sedutor. – Hum. Tudo o que queria fazer com raparigas quando era adolescente. – Mas não podia. Porque não suportava ser tocado. – A não ser que estejas muito cansada. – Passo com o nó dos dedos pela suave curvatura da sua face. 

– Christian, estou exausta, mas também excitada. 

Oh, querida. Beijo-a e fico com pena dela. 

– Talvez seja melhor dormirmos. Foi um longo dia. Vem. Eu aconchego-te na cama. Vira-te. 

Ela obedece e abro o fecho do vestido. 

Enquanto a minha noiva adormece ao meu lado, envio a Taylor uma mensagem a pedir que nos traga uma muda de roupa do Escala pela manhã. Deitado ao lado de Ana, foco-me no seu perfil, maravilhado por  ela já ter adormecido… e por ter concordado em ser minha.

Alguma vez serei suficientemente bom para ela? 

Serei material para marido? 

O meu pai parece duvidar disso. 

Suspiro e deito-me de costas, a olhar para o teto. 

Vou provar-lhe que está errado. 

Ele sempre foi severo comigo. Mais do que com Elliot ou Mia. Maldito. Ele sabe que não sou boa rês. Enquanto revivo a nossa conversa na cabeça, vagueio até o sono me reclamar.

Braços para cima, Christian. O papá está muito sério. Está a ensinar- -me a mergulhar na piscina. É isso mesmo. Agora curva os dedos  dos pés sobre a extremidade da piscina. Isso. Arqueia as costas. Isso  mesmo. Agora atira-te. Eu caio. E caio. E caio. Mergulho. Na água fria e transparente. No azul. Na calma. Na tranquilidade. Mas as  minhas asas de água puxam-me para receber ar. E procuro o papá.  Olha, papá, olha. Mas Elliot salta-lhe para cima. E caem no chão. O papá faz cócegas a Elliot. Elliot ri-se. E ri-se. E ri-se. E o papá beija-lhe a barriga. O papá não me faz isso a mim. Eu não gosto.  Estou na água. Quero estar ali em cima. Com eles. Com o papá.  E estou junto às árvores. A ver o papá e a Mia. Ela dá risadas de  alegria enquanto ele lhe faz cócegas. E ele ri-se. E ela contorce-se  e salta para cima dele. Ele atira-a ao ar e apanha-a. E eu permaneço junto às árvores sozinho. A ver. A querer. O ar cheira bem.  Cheira a maçãs.

– Bom dia, Mr. Grey – murmura Ana quando abro os olhos. O sol  matinal brilha através das janelas e eu estou enrolado a ela como uma  videira. O nó da saudade e da tristeza, provavelmente evocado por um  sonho, desfaz-se ao vê-la. Estou encantado e excitado e o meu corpo  ergue-se para a cumprimentar. 

– Bom dia, Miss Steele. – Ela está linda, apesar de estar a usar  a t-shirt I Ƅ Paris da Mia. Agarra-me o rosto com os olhos a brilhar e o  cabelo selvagem e brilhante sob a luz matinal. Passa o dedo pelo meu  queixo e faz-me cócegas na barba por fazer. 

– Estava a ver-te dormir.

– Estavas? 

– E a olhar para o meu belo anel de noivado. – Estende a mão e mexe  os dedos. O diamante capta a luz e lança pequenos arco-íris sobre os  meus antigos cartazes de filmes e de kickboxing pendurados nas paredes. – Oh! – murmura ela. – É um sinal. 

Um bom sinal, Grey. Esperemos. 

– Nunca mais o tiro. 

– Boa! – Mexo-me de modo a tapá-la. – Estás a observar-me há  quanto tempo? – Esfrego o meu nariz no dela e beijo-a. – Não, não. – Ela empurra os meus ombros e a minha sensação  de desapontamento é real, mas depois vira-me para cima e instala-se  sobre mim. Sentada, tira a t-shirt num movimento fluido e atira-a para  o chão. – Estava a pensar em acordar-te como deve ser. – Sim? – O meu pénis e eu rejubilamos. 

Antes de conseguir mexer-me, ela inclina-se e beija-me suavemente  no peito. O seu cabelo castanho cai sobre nós e os seus olhos azuis  brilhantes espreitam-me. 

– A começar aqui. – Beija-me novamente. 

A minha respiração acelera. 

– Depois passando para aqui. – A sua língua percorre uma linha  descendente na direção do meu esterno. 

Sim. 

A escuridão permanece longe, submissa à deusa em cima de mim  ou à minha líbido prestes a rebentar. Não sei a qual. 

– Sabe muito bem, Mr. Grey – sussurra ela contra a minha pele. – Fico feliz com isso. – As palavras soam roucas na minha gar ganta. 

Ela lambe-me e mordisca-me o peito, e os seus seios deslizam sobre  o meu estômago provocando-me arrepios de prazer. 

Ah! 

Uma vez, duas vezes, três vezes. 

– Ana! – Aperto-lhe os joelhos, comprimindo-os à medida que  a minha respiração acelera. Mas ela contorce-se em cima das minhas  ancas, por isso, deixo-me ir. Ela ergue-se, deixando-me excitado com  tanta expectativa. Acho que ela me vai possuir. Ela está pronta.

Eu estou pronto. 

Foda-se, estou tão pronto. 

Mas ela continua a descer pelo meu corpo. Beija-me o estômago e  a barriga, a sua língua desliza pelo meu umbigo, passando de seguida  pelo pénis. Mordisca-me mais uma vez e sinto-a no meu pénis. Ah! 

– Aí estás tu! – murmura ela, olhando com cobiça para o meu  pénis sedento e depois para mim, lançando-nos um sorriso lascivo.  Lentamente, com os olhos presos nos meus, enfia-o na boca. Meu Deus. 

A cabeça dela sobe e desce, com os dentes escondidos atrás dos  lábios, e enfia o pénis cada vez mais fundo. Os meus dedos encontram  o seu cabelo e afastam-no do caminho para poder apreciar a visão da  minha futura mulher a apoderar-se do meu pénis. Aperto as nádegas  e empurro as ancas, à procura de mais profundidade. Ela aceita, pressionando a boca em redor de mim. 

Mais fundo. 

Ainda mais fundo. 

Ah, Ana. Sua deusa do sexo. 

Ela apanha o ritmo e fecha os olhos. Agarro-lhe o cabelo com força. Ela é tão boa nisto. 

– Sim – silvo entredentes, e perco-me nas subidas e descidas da  sua boca maravilhosa. Estou a atingir o clímax. 

De repente, ela para. 

Maldição. Não! Abro os olhos e vejo-a mover-se por cima de mim.  Depois, mergulha muito devagar no meu pénis prestes a rebentar de  prazer. Gemo, desfrutando de cada precioso centímetro. O cabelo cai- -lhe sobre os seios nus e ergo-me para o acariciar, deslizando os meus  dedos pelos seus seios duros, vezes sem conta. 

Ela liberta um longo gemido, esmagando os seios contra as minhas  mãos. 

Oh, querida. 

Depois inclina-se para a frente, beijando-me. A língua dela invade  a minha boca e sinto o meu sabor salgado na sua boca doce. Ana. 

Coloco as mãos nas suas ancas, ergo-a para fora de mim e, logo a  seguir, puxo-a para baixo ao mesmo tempo que levanto os meus quadris. Ela grita, agarrando-se aos meus pulsos. 

E faço-o novamente. 

E mais uma vez. 

– Christian – grita ela para o teto, numa súplica, enquanto nos  juntamos em uníssono e nos movemos ao mesmo tempo. Como um.  Até ela se desmoronar em cima de mim, arrastando-me com ela e despoletando o meu clímax. 

Aninho-me no seu cabelo e passo os dedos pelas costas. Ela deixa-me sem fôlego. 

Isto ainda é recente. Ana no comando. Ana a tomar a iniciativa.  Gosto. 

– Esta é a minha ideia de culto de domingo– murmuro. – Christian! – Ela encosta a cabeça à minha, os olhos muito abertos  em desaprovação. 

Dou uma gargalhada. 

Isto alguma vez deixará de ter graça? Conseguir chocar Miss Steele? Abraço-a com força, viramo-nos e ela fica por baixo de mim. – Bom dia, Miss Steele. É sempre um prazer acordar consigo. Ela afaga-me o pescoço. 

– E consigo, Mr. Grey. – O seu tom de voz é suave. – Temos de  nos levantar? Gosto de estar aqui no teu quarto. 

– Não. – Olho para o relógio na mesa de cabeceira. São 09h15.  – Os meus pais devem estar na missa. – Mudo-me para o lado dela. – Não sabia que eles eram do género de ir à igreja. 

Faço uma careta. 

– Sim, eles são católicos. 

– E tu? 

– Não, Anastasia. 

Deus e eu seguimos caminhos separados há muito tempo. – E tu? – pergunto, sabendo que Welch não conseguira encontrar  afiliações religiosas durante a verificação do seu passado. Ela abana a cabeça.

Está um pequeno saco de couro à porta do meu quarto. Taylor  entregou roupa limpa. Verifico o saco e fecho a porta. Ana está embrulhada numa toalha, com gotas de água a brilharem nos ombros. Tem a  atenção focada no meu quadro de avisos, com o olhar fixo na fotografia  da prostituta. Vira a cabeça na minha direção, com um olhar inquisitivo  na sua bela face… uma pergunta à qual não quero responder. – Ainda a tens – diz ela. 

Sim, ainda tenho a foto. Qual é o problema? 

À medida que a sua pergunta paira no ar entre nós, o sol matinal  acentua o crescente brilho dos seus olhos, bebendo de mim, suplicando- -me para dizer algo. Mas não consigo. Não quero ir por aí. Por um  instante, lembro-me do murro no estômago que senti quando Carrick  me deu aquela fotografia há muitos anos. 

Maldição. Não vás por aí, Grey. 

– Taylor trouxe-nos uma muda de roupa – murmuro, atirando o saco para cima da cama. Segue-se um silêncio demasiado longo antes  de ela responder. 

– Ok – diz, encaminha-se para a cama e abre o saco. 

Estou a abarrotar. Os meus pais regressaram da missa e a minha  mãe cozinhou o seu brunch tradicional: um prato delicioso capaz de  causar enfartes, com bacon, salsichas, batatas fritas, ovos e queques. Grace está muito calada e suspeito que deve estar de ressaca. 

Durante a manhã evito o meu pai. 

Não lhe perdoei por ontem à noite. 

Ana, Elliot e Kate discutem ardentemente, entre todas as coisas importantes da vida, sobre o bacon, e debatem quem deve comer a última salsicha. Estou meio a ouvir, divertido, enquanto leio, na edição  de domingo do The Seattle Times, um artigo sobre a taxa de fracasso  dos bancos locais. 

Mia guincha e reclama o seu lugar à mesa, agarrada ao computador  portátil. 

– Vejam só. Há um artigo nas páginas sociais do site Seattle Nooz  Web acerca do teu noivado, Christian. 

– Já? – observa a mãe, surpreendida. 

Estes idiotas não têm nada melhor para fazer? 

Mia lê a coluna em voz alta. 

– “Aqui no Nooz ficámos a saber que o solteiro mais cobiçado de  Seattle, o Christian Grey, foi finalmente apanhado, e que há sinos de  igreja prestes a badalar.” 

Observo Ana. Está pálida, alternando o seu olhar triste entre mim  e Mia. 

– “Mas quem será a jovem sortuda?” – continua Mia. – “O Nooz está a investigar. De certeza que ela está a ler uma data de condições  pré-nupciais.” – Mia começa a rir-se. 

Olho para ela. Cala a boca, Mia. 

Ela para e comprime os lábios. Ignorando-a e a todos os olhares  ansiosos trocados à mesa, viro a minha atenção para Ana, que fica ainda  mais pálida. 

– Não – digo, tentando tranquilizá-la. 

– Christian – diz o pai. 

– Não vou voltar a discutir este assunto – rosno-lhe. Ele abre a  boca para dizer algo. – Não há acordo pré-nupcial! – digo com tanta  veemência que ele fecha a boca. 

Cala-te, Carrick! 

Voltando a olhar para o jornal, dou por mim a ler, vezes sem conta,  a mesma frase do artigo sobre o sistema bancário. Sinto-me irritado. – Christian – murmura Ana. – Eu assino qualquer coisa que tu  e Mr. Grey queiram. 

Encaro-a e ela está a suplicar-me. O brilho de lágrimas por derramar assoma aos seus olhos. 

Ana. Para.

– Não! – exclamo, implorando-lhe para esquecer o assunto. – É para te proteger. 

– Christian, Ana… Parece-me que deveriam discutir isto em privado – avisa Grace, e olha carrancuda para Carrick e Mia. – Ana, a questão não és tu – murmura o pai. – E, por favor, trata- -me por Carrick. 

Não tentes compensá-la agora. Estou a ferver por dentro. Subitamente  Kate e Mia levantam-se para limpar a mesa e Elliot agarra rapidamente  a última salsicha com o garfo. 

– Eu não tenho dúvidas, prefiro salsichas – diz ele, com uma frivolidade forçada. 

Ana está a fitar as próprias mãos. Parece cabisbaixa. 

Meu Deus. Pai. Olha o que fizeste. 

Inclino-me e agarro-lhe as mãos, murmurando para que só ela me  possa ouvir: – Para com isso. Ignora o meu pai. Ele está chateado por  causa da Elena. Tudo aquilo foi para me atingir. Quem me dera que  a minha mãe tivesse ficado calada. 

– Ele tem razão, Christian. És muito abastado e eu não trago nada para este casamento, a não ser as dívidas do meu empréstimo universitário. 

Querida, eu quero-te de qualquer forma. Tu sabes isso! 

– Anastasia, se me deixares, bem podes levar tudo. Já me deixaste uma vez. Sei o que me faz sentir.

– Isso foi diferente – murmura ela, e franze o sobrolho mais uma  vez. – Mas… tu podes querer deixar-me. 

Agora ela está a ser ridícula. 

– Christian, sabes que sou capaz de fazer alguma coisa excecionalmente estúpida… e tu… – Ela para. 

Ana, acho que isso é bastante improvável. 

– Para. Para já. Este assunto está encerrado, Ana. Não vamos voltar a discuti-lo. Não há acordo pré-nupcial. Nem agora, nem nunca. Luto com os meus pensamentos, tentando agarrar-me a alguma  coisa e a inspiração atinge-me. Viro-me para Grace, que está a remexer  as mãos e a olhar ansiosamente para mim, e pergunto: – Mãe, podemos  fazer o casamento aqui?

A sua expressão altera-se. Passa de alarme para alegria e gratidão. 

– Querido, isso seria maravilhoso. – E acrescenta, como se tivesse  pensado nisso depois: – Não querem um casamento na igreja? Olho para ela de lado e ela capitula de imediato. 

– Adoraríamos que se casassem aqui. Não achas, Cary? – Sim, sim, claro. – O meu pai sorri benignamente para Ana e para  mim, mas não consigo olhar para ele. 

– Tens uma data em mente? – pergunta Grace. 

– Quatro semanas. 

– Christian. Isso não chega. 

– É muito tempo. 

– Preciso de pelo menos oito! 

– Mãe. Por favor! 

– Seis? – suplica ela. 

– Isso seria maravilhoso. Obrigada, Mrs. Grey – afirma Ana e  atira-me um olhar de aviso, desafiando-me a ousar contradizê-la. – Seis será – declaro. – Obrigado, mãe. 

Ana está silenciosa na viagem de regresso a Seattle. Provavelmente  está a pensar na minha explosão com Carrick esta manhã. A nossa  discussão da noite anterior ainda me causa ressentimento – a sua desaprovação ainda me irrita. No fundo, estou preocupado por ele poder ter  razão. Talvez eu não tenha sido feito para marido. 

Raios. Vou-lhe provar que está errado. 

Não sou o adolescente que ele pensa que sou. 

Olho para a estrada à minha frente, desanimado. Tenho a minha  miúda ao meu lado, temos uma data para o nosso casamento, e eu  devia sentir-me fantástico, mas estou sob o efeito dos restos da tirada  zangada do meu pai sobre Elena e sobre o acordo pré-nupcial. Por outro  lado, acho que ele sabe que fez asneira. Tentou compensar-me quando  partimos esta manhã, mas a sua tentativa desastrada e inconveniente  para fazer as pazes ainda magoa. 

Christian, eu sempre fiz tudo o que podia para te proteger. E falhei.  Devia ter estado lá para ti.

Não o quis ouvir. Ele devia tê-lo dito ontem à noite. E não o fez. Abano a cabeça. Quero sair desta depressão. 

– Ei, tenho uma ideia. – Inclino-me e aperto o joelho de Ana. 

Talvez a minha sorte esteja a mudar: há um lugar de estacionamento  no exterior da catedral de St. James. Ana espreita por entre as árvores  para o majestoso edifício que domina todo o quarteirão na Quinta  Avenida, depois vira-se para mim com um ar de interrogação. 

– Igreja – atiro-lhe, em jeito de explicação. 

– É grande para uma igreja, Christian. 

– É verdade. 

Ela sorri. 

– É perfeita. 

De mãos dadas, entramos por uma das portas principais para a  antecâmara e continuamos até à nave da igreja. Por instinto, aproximo- -me da pia de água benta para me abençoar, mas paro a tempo, sabendo  que se um raio me atingisse, seria agora. Apanho Ana boquiaberta  de surpresa, mas desvio o olhar para admirar o impressionante teto  enquanto espero pelo julgamento de Deus. 

Não. Nada de raios hoje. 

– Velhos hábitos – murmuro, um pouco embaraçado, mas aliviado  por não ter sido transformado num monte de cinzas ao entrar. Ana vira  a atenção para o magnífico interior: os tetos grandiosamente ornados,  as colunas de mármore com tons ferrugem, o elaborado vitral, os raios  de sol que entram, num feixe constante, através do óculo na cúpula do  transepto, como se Deus estivesse a sorrir para este local. Ouve-se um  silêncio murmurado que enche a nave, envolvendo-nos numa calma  espiritual que apenas é perturbada pela tosse ocasional de um dos  poucos visitantes. É tranquila, um refúgio do burburinho de Seattle. Já  me tinha esquecido de como é serena e bela, mas também já aqui não  entro há anos. Sempre adorei a pompa e cerimónia da missa católica. O ritual. As respostas. O cheiro do incenso. Grace certificou-se que os  seus três filhos eram versados em todas as coisas relacionadas com o  catolicismo, e houve uma época em que fazia qualquer coisa para agradar à minha nova mãe.

Mas a puberdade chegou e tudo isso se perdeu. A minha relação com Deus nunca recuperou, e mudou a relação com a minha  família, especialmente com o meu pai. Andávamos sempre às turras um com o outro quando fiz treze anos. Sacudo a memória. É dolorosa. 

Agora, no esplendor da nave, fico assoberbado por uma familiar sensação de paz. 

– Vem. Quero mostrar-te uma coisa. – Caminhamos pela coxia  do lado direito. O som dos saltos de Ana soa por cima das lajes, até  chegarmos a uma pequena capela. As paredes douradas e o chão  escuro constituem o cenário perfeito para a requintada estátua de  Nossa Senhora, rodeada de velas acesas. 

Ana arqueja quando a vê. 

Sem dúvida que este ainda é um dos mais belos santuários que já  vi. A Virgem, de olhos baixos para o chão, demonstrando modéstia,  segura o filho no alto. A sua roupa dourada e azul brilha à luz das  velas a arder. 

É espantosa. 

– A minha mãe costumava trazer-nos aqui às vezes para a missa.  Este era o meu lugar preferido. O Santuário da Abençoada Virgem  Maria – murmuro. 

Ana absorve a cena, a estátua, as paredes, o teto escuro coberto  de estrelas douradas. 

– Foi isto que inspirou a tua coleção? As tuas Madonas? – pergunta ela com admiração na voz. 

– Sim. 

– Maternidade – murmura ela e olha para mim. 

Encolho os ombros. 

– Já vi fazerem-no bem e fazerem-no mal. 

– A tua mãe biológica? – pergunta ela. 

Aceno com a cabeça, e os olhos dela abrem-se muito, revelando  alguma emoção profunda que não quero reconhecer. Desvio o olhar. É demasiado. 

Coloco uma nota de cinquenta dólares na caixa de ofertório e  entrego-lhe uma vela. Ana agarra as minhas mãos, com gratidão, e depois acende a vela numa das outras. Coloca-a num aplique de ferro na  parede e a vela fica a brilhar entre as suas companheiras. – Obrigada – diz ela baixinho a Maria, e abraça-me pela cintura,  pousando a cabeça no meu ombro. Juntos permanecemos em calma  contemplação num dos santuários mais impressionantes do coração  da cidade. 

A paz, a beleza e estar com Ana restaura o meu bom humor. Para  o inferno com o trabalho esta tarde. É domingo. Quero divertir-me  com a minha miúda. 

– Vamos ao jogo? – pergunto. 

– Jogo? 

– Os Phillies jogam contra os M’s no Safeco Field. A GEH tem  um camarote lá. 

– Claro. Parece divertido. Vamos. – Ana brilha de entusiasmo. De mãos dadas voltamos ao R8."

"Mais Livre" (PVP 20,90€) chega às livrarias portuguesas a 8 de junho. É editado em Portugal pela LeYa / Lua de Papel e é traduzido do inglês por Paula Oliveira Antunes

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