"Bom dia, bom dia para o sol da manhã. Bom dia quem quer alegria, bom dia irmão e irmã. Bom dia para quem faz magia". Esta é uma versão adaptada da canção "Bom Dia" do Xou da Xuxa, usada por Manuela Gomes para acordar o filho de 9 anos. Já Inês Oliveira começa por abrir os estores, falar baixo e dar beijinhos. Mas como nada disto surte efeito, o método para acordar exige uma alteração: "'Ainda estão na cama? Toca a Levantar. Rápido!'".

"É milagroso. Lavantam-se nesse mesmo instante". O mesmo acontece com Ana Rute, que partilha que vai "aumentando os decibéis" até que o "toca a acordar" tenha realmente efeito: "Acho que se me ouvissem, punham-me a fazer as manhãs da SIC. A Cristina Ferreira ao pé de mim é ligeirinha", diz em tom de brincadeira.

Lançámos a pergunta no grupo de Facebook "Mulheres à Obra": como é que acordam os miúdos logo pela manhã? Manuela tem uma canção, Inês e Ana preferem ir aumentando o volume da voz até estar tudo fora da cama. Mas há também quem não se identifique com nenhum destes cenários: "Não acordo, são eles que me acordam. Às 7h30 ouço uma vozinha: 'Mãe Mimi' (é o de 2 anos que dorme na cama ao lado da minha). Passado dez a 20 minutos aparece o mais velho, de 6 anos, a perguntar se já se pode levantar", conta Daniela Delgado.

Muitas mães parecem estar de acordo neste ponto: há miúdos que não precisam de ser tirados da cama, bem pelo contrário — são eles que arrastam os pais de um sono profundo, indiferentes à ideia de que existem melhores formas de acordar do que outras. Mas porque é aos adultos que acabe a responsabilidade de perceber se existem formas mais adequadas de acordar, falámos com um especialista sobre o assunto.

Antes de chegarmos à resposta, fica um pequeno retrato da sociedade portuguesa: das mais de 300 respostas deixadas na nossa publicação, a grande maioria disse optar por beijinhos, festas no cabelo e chamar o nome do filho com uma voz suave. Será esta a fórmula certa?

Antes do acordar, como deve ser o adormecer?

Para falarmos num bom acordar é inevitável falar sobre o momento de ir dormir. Cada caso é um caso, e é por isso que Andreia Neves, cardiopneumologista especialista em sono no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, revela à MAGG que a hora de deitar depende da rotina da criança e do perfil circadiano, isto é, se é mais nótivaga ou matutina. O fundamental é mesmo cumprir com as horas recomendadas de sono.

E não é a voz de embalar que conta as aventuras de príncipes e princesas, ou que o lobo mau é na verdade a avó da capuchinho vermelho, que faz o sono chegar. Contudo, Andreia garante que não é uma má prática: "Contar uma história não significa que a criança não adormeça de forma autónoma. Mas posso estar presente, oferecer companhia e não intervir no processo de adormecer. E isso não é um hábito negativo".

É, aliás, uma forma de se sentirem mais seguras e adormecerem tranquilamente. "Sabemos que a ansiedade é um dos principais fatores inibitórios do processo de indução do sono", revela a especialista.

No caso de Verónica, de 9 anos, filha de Soraia Pires, psicóloga e formadora de competências pessoais e sociais a crianças dos 2 aos 5/6 anos, é caso para dizer que mesmo com histórias, o momento de adormecer é "tiro e queda": "Ela faz patinagem três dias por semana e nos outros dois é quando a professora manda trabalhos de casa. Por isso, quando chega dos treinos, toma banho, escolhemos a roupa para o dia seguinte e jantamos. Vemos um bocadinho de televisão no sofá e depois vai para a cama onde lê todos os dias. Quando chega a hora de dormir, por vezes lembra-se de contar algumas coisas do seu dia menos boas. Tranquilizo o melhor que consigo, aconchego as roupas, dou beijinhos e pronto. Em minutos está a dormir", conta Soraia à MAGG.

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No dia seguinte, o acordar, que antes era feito pela mãe, tornou-se diferente desde que entrou para o 1º ano do primeiro ciclo e pediu um relógio despertador. "No dia antes de as aulas começarem, pediu para pôr o despertador para a hora a que devia de acordar. Assim fiz", conta Soraia. Desde esse dia que acorda sempre desta forma. "Sente-se crescida", revela a mãe. E nunca se deixou adormecer, algo que para uma criança de 9 anos faz inveja a muitos adultos.

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Da audição ao olfato, duas formas diferentes de acordar

Inês, 6 anos, gosta de acordar com música, que a mãe, Lúcia Coimbra, 39 anos, passou a colocar a seu pedido. É Inês quem escolhe o tema com que quer começar o dia às 7h50. Por volta desta hora, Lúcia acende meia luz no quarto, coloca a canção que Inês sugeriu e dá-lhe um beijinho de bom dia.

Normalmente a técnica é eficaz, mas Lúcia conta que "no inverno é mais resistente em acordar. Mas se dormir às horas necessárias, regra geral é fácil de levantar".

O método parece resultar para Verónica e para outras crianças, já que Patrícia Domingues, mãe de três crianças, conta no grupo "Mulheres à Obra" que coloca as canções que estão na berra — ou o "Shake It Off" de Taylor Swift: "Funciona sempre".

Contudo, de acordo com Verina Fernandes, consultora de sono infantil ("Sono de Sonho"), certificada pelo International Maternity and Parenting Institute, a música pode não ser a melhor opção em alguns casos: "Para bebés e crianças muito pequenas poderá não ser a melhor forma de as acordar, pela possibilidade de a criança sentir como um estímulo muito intenso, independentemente do estilo e do volume utilizados".

Da música que desperta a audição, passamos para outro sentido: o olfato."Há um ano, numa feira de óleos essenciais da marca dōTERRA, convidaram-me para um workshop sobre o tema. Fui e fiquei tão encantada que comecei a procurar um pouco mais e a usar com maior consistência lá em casa", refere à MAGG a bancária Helena Leitão, mãe de Tiago, 15 anos, e de Gonçalo, 12.

Foi então que descobriu que há óleos que dão mais energia, outros que acalmam e pensou aplicar a descoberta no filho mais velho, Tiago, que nunca teve um bom acordar: "É daqueles que nunca quer sair da cama e vira-se sempre para o outro lado".

A técnica é simples: Helena abre a garrafa, coloca-a perto do filho e pede que este inspire calmamente o aroma, começando assim a despertar. "E o que é certo é que ele próprio dizia que acordava de forma diferente. Dava-lhe mais energia e ficava mais desperto para o dia", revela.

É com óleo essencial de hortelã-pimenta que Tiago acorda, mas antes de dormir Helena revela que por vezes usam um aroma de lavanda para uma noite mais tranquila. Mas estas não são as únicas finalidades dos óleos: "Eu uso para tudo. Para as dores de cabeça, de garganta, para as tosses, para o nariz entupido, etc.".

Apesar de resultarem com Tiago ao acordar, a especialista Andreia Neves revela que não há qualquer evidência científica sobre os seus benefícios.

Qual é afinal a melhor forma de acordar?

"A criança deve acordar da forma mais natural possível, sem qualquer tipo de artifício desnecessário. O corpo humano está programado para despertar com a luz do dia e nada mais. Funciona dessa forma, simples. Daí que basta deixar entrar a luz solar por uma pequena fresta da janela do quarto, para sinalizar ao organismo que é hora de abrir o olhos e começar o dia", explica a consultora de sono infantil Verina Fernandes.

Contudo, este é um cenário ideal. Isto porque os horários da rotina semanal exigem que muitas vezes as crianças tenham de acordar antes sequer de haver luz natural do dia. Nesse caso, a alternativa passa por simulá-la, bastando para isso acender uma luz suave, como a de um candeeiro, e esperar alguns minutos para que a criança acorde.

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"Se isto não for suficiente, então devemos fazer movimentos circulares suaves com os nossos dedos ao redor dos olhos e da boca da criança, que são zonas sensíveis e que permitem facilmente agilizar o despertar, de forma muito instintiva", sugere a especialista.

Mesmo sem luz natural, há uma outra forma natural de acordar e que retoma o ponto inicial: o adormecer. "Um bom despertar é sempre o resultado de uma noite bem dormida e descansada. Daí que tenhamos de garantir que a criança se deita à hora apropriada, para que faça umas boas horas de sono", continua a consultora de sono infantil Verina Fernandes, acrescentando que quando isso não acontece, leva à má disposição e irritabilidade (que também os adultos sentem), que se prolonga durante o dia.

Quem segue o instinto é Pedro, de 3 anos, que adormece entre as 20 e as 21 horas, altura em que o banho e o jantar já foram tomados e leu um livro juntamente com a mãe, Cátia Faria, de 32 anos. "Depois disto preparo tudo para o dia seguinte. As roupas, malas, organizo os brinquedos e tudo que for necessário. Adianto o jantar quando sei que não o poderei fazer no dia seguinte ao almoço", adianta Cátia.

Pedro dorme uma média de 11 a 12 horas por noite e neste caso não é a luz natural do dia que o acorda, mas o simples facto de ter dormido o número de horas suficiente. Cátia refere que há apenas algumas exceções em que isso não acontece, e nesses dias abre um pouco os estores e começa a chamá-lo com calma.

Contudo, a consultora de sono infantil Verina Fernandes indica que os estores podem não ser a melhor opção: "Demasiada luz será sempre muito agressiva para quem está a dormir serenamente. Uma pequena fresta de luz é suficiente".

Qual é então a melhor forma de acordar as crianças? Depende. Primeiro, é preciso primeiro conhecer o temperamento da criança e se ela tem um despertar lento ou se acorda rapidamente. "No caso de crianças de despertar lento, já sabemos que temos de chamá-las 15 minutos antes da hora definida para levantar e não usar estímulos fortes (muita luz, barulhos ríspidos e tom de voz agressivo). As crianças mais rápidas também não precisam de muitos artifícios e, com facilidade e um pouco de luz natural, estão em pé no espaço de cinco minutos", conclui a especialista.

Não há por isso uma fórmula, mas a cardiopneumologista especialista em sono Andreia Neves deixa quatro dicas que pode seguir.

1.º Ir para a cama em horas adequadas e adormecer de forma tranquila;
2.º Ter um sono reparador, dormindo sem ruídos e sem nenhum tipo de luz;
3.º Dormir o número de horas necessárias para a faixa etária;
4.º Acordar com luz natural e em horário regular (sem grandes variações entre dias de semana e fim de semana).

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