Atual apresentadora da TVI, teve uma infância bonita na freguesia de Santa Maria de Lamas, onde viveu até aos 18 anos. Foi filha única, mimada pelos pais e pelos avós, e de negativo só recorda uma professora de Matemática que lhe dava reguadas e que fez com que ganhasse medo à disciplina. Saiu de casa dos pais e aventurou-se numa mudança para Lisboa, onde foi viver com uma rapariga que conheceu no dia em que se candidatou à universidade. Estagiou mais de um ano sem receber, viveu três meses em Londres mas não gostou, escreveu textos para apresentadoras de televisão, fez parte da equipa da empresa A Vida É Bela, até que chegou à TVI, para trabalhar na equipa do “Você na TV”.

Hoje, Isabel Silva é uma das maiores figuras da televisão portuguesa, uma das maiores influenciadoras digitais em Portugal e uma mulher que inspira os seus seguidores a levarem “uma vida do bem”, com alimentação saudável e muito exercício. Nesta entrevista de vida à MAGG para a nova rubrica da marca de jóias Magnolia Jewellery, "Mulheres que inspiram", fala da infância, de amor, do desejo de ser mãe, da admiração pelos pais, do que sofreu nos primeiros tempos na TVI, em que saía a chorar, mas também do seu lado mais sensual e feminino (e da sua relação com jóias).

Muitos conhecem a Isabel Silva atleta, enérgica, bem-disposta, que nunca para quieta. A Isabel Silva sempre foi assim, já em pequenina?

Sim. Ainda hoje a minha mãe me diz: “Eras uma criança muito alegre, cheia de energia”.

Que memórias tem de infância?

Fui feita a 14 de agosto, numa noite de verão num colchão de molas (risos). Nessa noite, a minha mãe disse ao meu pai: “Sinto que vai ser hoje” (risos). Os meus pais têm um sentido de humor super apurado. Acho que herdei isso deles.

E onde é que isso foi?

Em Santa Maria de Lamas. Acabei por nascer a 8 de maio, porque a lua mudou. Era para nascer a 13 de maio, mas a lua mudou e a minha avó disse à minha mãe: “Oh, filha, a lua vai mudar e a Belinha vai nascer antes”. E nasci, a 8 de maio, à uma menos um quarto,

E em miúda já era um poço de energia?

Sempre gostei de praticar desporto. Lembro-me de ser pequena e, depois do jantar, os meus amigos, vizinhos, reuniam-se ao pé da minha casa para saltar à corda, andar no parque, andar de bicicleta. Isto foi até à pré-primária, numa altura em que fui educada pelos meus avós.

Maternos?

Paternos. Sempre fui muito ligada aos quatro — e ainda tenho os quatro avós —, mas eu era muito ligada aos meus avós paternos, a minha avó Cecília e o meu avô Ramiro, porque eram meus vizinhos. Recordo-me de que era o meu tio que me ia buscar a casa de manhã e deixava-me na escolinha até à hora de almoço. Depois, o meu avô ia-me buscar, almoçava com eles e depois passava a tarde toda com a minha avó no quintal a colher couves — que já dizia muito daquilo que eu ia ser (risos). A minha avó contava-me histórias, e portanto a minha infância foi toda muito com os meus avós.

Era muito mimada?

Sim, muito. Não me considero uma pessoa mimada, porque embora seja filha única não acho que tenha a síndrome de filha única. Os meus pais sempre me incutiram o espírito da partilha, e eu adoro partilhar, acho que os prazeres da vida estão na partilha. E também sempre me deram máxima liberdade e máxima responsabilidade.

Mas como filha única tinha uma mãe muito galinha?

Super mãe galinha! (risos). A minha mãe nunca quis que eu cozinhasse, sempre quis organizar a minha vida toda. Mas não foi por isso que deixei de ser uma pessoa responsável.

Nunca pediu um irmão?

A minha mãe sempre me quis me dar um irmão, só que ela tinha um sopro no coração. E quando pediu um conselho médico a resposta foi: “Se quiser ter outro, vai correr riscos. Quer correr riscos?”. E ela pensou: “Não. Já tenho a Belinha, portanto não quero arriscar.”

E esse sopro nunca lhe deu problemas?

A minha mãe combate esse sopro no coração com a prática de desporto. Ela faz muito RPM (aula de bicicleta indoor). Faz circuitos intercalados de alta intensidade, e, portanto, isto é a prova de que o facto de ela ter estimulado o músculo do coração fez com que o sopro desaparecesse.

Foi muito difícil para uma miúda de Lamas, filha única, tomar a decisão de sair de casa e ir para Lisboa? Sente muitas vezes saudades de casa, desse mundo em Lamas?

Eu fui para Lisboa estudar Ciência da Comunicação, na Universidade Nova. Tinha 18 anos. Hoje tenho 32… Sinto muita falta da minha mãe, sinto falta do meu pai, e tento arranjar formas de matar essa saudade. Lamas, os meus pais, são os meus portos de abrigo. Eu gosto de sentir que tenho um porto de abrigo, gosto de sentir carinho, gosto de me sentir protegida. Estes carinhos podem ser várias coisas, pode ser o carinho de um namorado, da minha mãe, mas também de alguém que passa por mim na rua e diz que gosta muito do meu trabalho, de alguém que elogia os meus ténis, de alguém que gosta de algum prato que eu cozinhei.

Foi para Lisboa estudar Ciências da Comunicação. Era o curso que queria? Já em pequena sonhava com a televisão?

Em pequena queria professora de ténis. Houve uma altura em que queria ser bailarina — eu amo dançar. Também já quis ser psicóloga. Esses três sonhos dizem muito daquilo que sou hoje. Eu sou uma comunicadora. Quando danço, comunico com o corpo. Quando jogo ténis, ou pratico desporto, comunico energia e saio da minha zona de conforto. A parte da psicologia tem a ver com o facto de, para mim, tudo na vida tem de ter um sentido. Mas também com a minha capacidade de saber escutar. Mas se me perguntarem se ainda quero ser mais alguma coisa na vida, respondo que sim, que ainda estou a descobrir. Devo chegar aos 80 anos e pensar naquilo que ainda quero ser (risos).

Não é fácil entrar em Ciências da Comunicação na Universidade Nova. São precisas boas notas. Era boa aluna?

Era muito focada nos estudos, e queria muito tirar boas notas para entrar na faculdade que eu quisesse, sem qualquer stresse. Mas na altura nem sabia bem se queria Ciências da Comunicação, mas sabia que queria tirar as melhores notas para poder escolher à vontade a universidade para onde queria ir. Durante três anos, do 10.º ao 12.º ano, foquei-me nesse objetivo e consegui uma média brutal. Não sou burra, mas sei que não sou a pessoa mais inteligente do mundo (risos).

Teve algum professor que a tivesse marcado particularmente?

Tive, pela negativa. Era uma professora de Matemática. Tinha de estudar muito para ser uma aluna mediana. Ela sempre me incutiu medo, lembro-me de ter muito medo de ir ao quadro. Sempre que ia ao quadro resolver um problema, ela fazia-me sentir mal. Fazia-me sentir burra, punha-me muita pressão e dava-me reguadas quando errava.

E isso teve um efeito contrário ao que ela pretendia?

Sim, porque eu gostava muito de Matemática. Só que criei um bloqueio tão grande que ganhei aversão à Matemática. E então comecei a copiar nos testes.

Foi apanhada a copiar?

A professora uma vez chamou a minha mãe à escola e disse-lhe: “A sua filha copia muito”. E foi depois disso que contei aos meus pais o que se estava a passar. Disse à minha mãe: “Sabes porque é que eu copio? Porque tenho medo de errar”. Eu copiava as coisas do Jonathan, que era o melhor a Matemática e gostava de mim (risos).

Voltando aos tempos da entrada na universidade, não ponderou ir antes para o Porto, para mais perto de casa?

A minha primeira opção era uma universidade do Porto, que também era boa, e estava mais perto dos meus pais. Mas quando estava a preencher os papéis da candidatura conheci a Diana, que ainda hoje é uma das minhas melhores amigas. Ela estava ao meu lado a preencher a candidatura e viu que eu estava a colocar como primeira opção o Porto, em Ciências da Comunicação. E disse-me: “Coloca antes Lisboa em primeiro lugar, é a melhor faculdade, e em Lisboa tens mais oportunidades”. Eu não a conhecia, mas gostei da energia dela. E ela tinha razão. Deitei os papéis para o lixo, gastei 20 euros a comprar novos documentos para a candidatura e pus Lisboa em primeiro lugar.

E qual foi a reação dos seus pais?

Expliquei à minha mãe o que se tinha passado e o que é que ela me disse? “Filha, não é isso que queres? É o melhor para ti, não é? Então, pronto, vai”.

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A Diana, uma desconhecida, mudou o rumo da sua vida?

Mudou. E na altura eu disse-lhe: “Se entrar em Lisboa vou ligar-te para irmos viver juntas”. E assim foi. Entrámos as duas e fomos viver juntas. Sigo muito as emoções, e nunca me engano quando eu sigo meu coração.

Um miúda de 18 anos, de Lamas, filha única, chega a Lisboa para viver sozinha pela primeira vez na vida. Sentiu o peso da cidade? Como foram esses primeiros tempos?

Foram fáceis. As pessoas de Lisboa são incríveis, a cidade é linda, tem um clima fantástico. Ao contrário do que muita gente pensa, as pessoas de Lisboa são simpáticas e têm uma profunda admiração pelas gentes do Norte. Nunca gostei daquilo que alguma malta do Norte diz sobre a malta de Lisboa. As pessoas de Lisboa adoram a nossa energia, a nossa hospitalidade, a nossa genuinidade. Sempre fui muito bem recebida, mas há o que? Há boas e más pessoas em todo o mundo, em Lisboa, no Porto, em todo o lado.

Mas continua a ser a mesma Isabel Silva que vivia em Lamas ou estes mais de 10 anos de Lisboa mudaram-na?

Vivo em Lisboa há 12 anos, mas ainda tenho o espírito de Isabel Silva que nasceu em Santa Maria de Lamas. Já ganhei muita cultura de Lisboa, isso claro que ganhei. Ainda tenho muito sotaque, mas a minha pronuncia mudou. Se me ouvissem há 12 anos… (risos). Mas acho mesmo que temos de manter as nossas raízes.

Não se sentiu sozinha nos primeiros tempos em Lisboa?

Nunca, sabem porque? Porque nunca fui sozinha pra Lisboa — fui com a Diana. Criámos uma relação de irmãs, os meus pais conheceram os pais da Diana e criou-se ali uma família. Podíamos ser só amigas mais ou menos, mas não, ainda hoje, a Diana e a família dela são pessoas com quem eu tenho uma ligação muito forte. E depois fizemos outras amigas, que ainda hoje fazem parte do meu núcleo mais próximo, a Vanessa, a Inês, a Ana Filipa, a Marlene.

Mas nunca sentiu qualquer medo?

Tenho alguns medos, alguns são coisas ridículas. Mas depois há coisas de que muita gente tem medo, e eu não tenho. Um exemplo: quando foi a estreia do “Dança Com as Estrelas”, fui a primeira a atuar. Começava sozinha em palco, com as câmaras e sabia que estava a ser vista por milhões de pessoas. Muita gente me disse que teria pânico de ser a primeira, mas para mim foi tranquilo. Sentia o peso da responsabilidade, mas estava super entusiasmada e nada nervosa. Agora, coisas de que tenho medo… de andar de avião sozinha. Nunca andei de avião sozinha. Eu sei, é ridículo (risos).

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Mas não tem aqueles medos mais estruturais, como o medo de falhar, ou de desiludir alguém?

Não. Já fiz muitas coisas que falharam, ou que não ocorreram da melhor forma. Mas as falhas para mim são aprendizagens, e isso faz com que não tenha medo de enfrentar as coisas.

E lida bem com o insucesso?

Eu tenho é de sentir que dei sempre o meu melhor. Vou dar um exemplo: quando corro uma maratona, eu sei que um dia posso não cruzar a meta. Mas também sei que se desistir é porque tive motivos muito graves que me impediram de terminar a prova. Sei que não vai ser porque a minha cabeça fraquejou.

Quando veio para Lisboa deixou algum namorado em Lamas?

Não. Já estava em Lisboa quando conheci o Miguel, através da Diana, passado um ano e tal. Só que era um namoro à distancia. Eu ia ao norte aos fins de semana, e a coisa era assim, mas fui perdendo o entusiasmo porque não praticava o apego (risos). Ainda durou dois anos e tal.

Acabou a paixão?

Eu sou uma mulher de paixões, tenho de sentir verdadeiramente as pessoas, senão prefiro estar sozinha. Mas eu adoro apaixonar-me, é tão fixe. Mas tenho de que sentir aquela borboleta no estômago, a pessoa tem de nos deixar nervosas só de olhar para nós. Só quando sinto isso é que me entrego. Sou muito emotiva nessas coisas.

E quando é que voltou a apaixonar-se?

Foi pelo Tiago, na altura da faculdade. Foi amor à primeira vista. Eu olhei pra ele e disse-lhe: “Tu és ótimo”. Mas disse-lhe mesmo. E ele sentiu o mesmo por mim. Ao final de três dias disse-lhe: “Acho que estou completamente apaixonada por ti”. E estava, começamos logo a namorar, e depois fomos viver juntos. Namorámos cinco anos e meio.

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Porque é que acabou?

Ai ao fim de três anos, a relação já não estava a correr muito bem. As coisas andavam, mas a vida é bonita demais para se permitir só a “andar”. Acho que parei de sentir estímulo. Não foi por culpa dele, mas por culpa minha, dele, da vida. Quando comecei a perder o entusiasmo e ele também acabámos por nos separar.

Mas já não o amava?

Quando namoras há muitos anos, muitas vezes confunde-se o amor, a paixão, a rotina, o hábito. Achamos que gostamos e eu perguntavam-me muitas vezes se ainda gostaria dele, se estava apaixonada por ele. E a resposta era não, não estava. E queria voltar a sentir isso, porque a vida é isso. Sentia que estava um bocadinho adormecida.

Ao fim de cinco anos de namoro, a viverem juntos, nunca sentiu o peso para se casarem, terem filhos?

Sim. Na verdade, eu queria muito casar e ter filhos, aliás, cheguei a estar noiva. Mas eu tenho uma coisa que aprendi sobretudo depois de me separar, que é a minha condição de ser livre. Eu sou um ser livre, eu tenho de ter liberdade, e tenho de ter essa liberdade estando solteira ou casada, ou com namorado. Portanto, quem está comigo sabe que poderá contar com isso, eu serei a promover que essa pessoa tenha liberdade. Se ela quer viajar, fazer os projetos dela sozinha, eu tenho que promover a aceitar isso. Quando isso é comigo, eu quero que façam o mesmo. Há o espaço comum e há o espaço de cada um.

Mas já queria casar e ter filhos? Era um objetivo?

Essa é uma ideia muito instituída na sociedade. Tens de ir para a faculdade estudar, arranjar emprego, casar, ter filhos. Mas porque é que eu tenho de casar e ter filhos? Não tenho. Eu quero muito ser mãe, até porque acho que eu vou ser uma boa mãe, mas sei lá se vou ser mãe. Posso nunca me apaixonar, ou pode não acontecer. A vida pode não me proporcionar isso. Não vou estar a ter essa pressão em cima de mim, quando isso pode não acontecer.

Às vezes é a própria idade da mulher que funciona como pressão.

Tenho 32 anos e claro que esta é uma boa altura para ser mãe, até pelo momento da mulher, pela idade. Mas pronto, não tenho ninguém na minha vida, não estou apaixonada por ninguém, não vai dar. Mas eu não vivo com essa pressão. E se não for mãe, aplicarei o meu amor de outra maneira, por isso é que eu sou muito  de ligar aos meus amigos, à minha família, ao meu Cajú (o cão), aos meus seguidores.

Mas essa alegria toda que demonstra, esse apego às pessoas, não tem também um outro lado mais secreto. Nunca se sente triste ou em baixo?

Claro que sim. E nesses momentos procuro os meus portos de abrigo, a minha família, a minha casa, a corrida. Adoro, por exemplo, ir correr de manhã e tirar a tarde toda para ficar em casa, a pensar. Faço muito isso. Acho até que é isso que faz com que esta minha loucura desenfreada exista. Eu sou muito caseira e o lar tem muita importância para mim.

Já passou por alguma depressão ou situação de tristeza mais profunda?

Há pouco tempo sentia-me profundamente deprimida, porque sentia que não tinha a minha vida organizada. E para eu andar bem, tenho de ter as coisas organizadas: a minha equipa, a minha casa, tudo tem de estar muito alinhado, para eu continuar com a minha loucura. E eu tinha tudo desorganizado.

A corrida funcionou com um escape dessa desorganização?

Sem dúvida. As maratonas dão-me um foco. O meu foco agora está na Maratona de Berlim e é a partir daí que vou organizar a minha vida toda. A maratona será o centro e à volta terá de girar tudo, a família, os amigos, o blogue, as redes sociais. E isso ajuda-me até no meu trabalho, porque as maratonas obrigam-me a ser disciplinada e ajudam-me a perceber que eu só não consigo chegar aonde não quero. E lembram-me sempre que eu sou uma grande mulher.

Voltando ao seu percurso. Terminou a faculdade e depois?

Depois fiz uma pós graduação em cinema e vídeo na Católica, mas não gostei, porque era super teórica. Mas nessa altura comecei a estagiar na Panavídeo.

Como é que conseguiu o estágio?

Mandei currículos para todas as produtoras. Primeiro fiz um estágio no departamento de comunicação da Ciência Viva. Foi giro, mas queria coisas mais com a minha cara.

E depois foi para a Panavídeo?

Não. Eu queria ter uma experiência lá fora e eu pedi à minha mãe para ir estudar para Londres. Queria ter essa experiência, melhorar o meu inglês, aprender coisas novas. Graças a Deus que financeiramente os meus pais puderam proporcionar-me, e eu fui. Fiquei lá três meses.

Depois voltou para Lisboa.

Sim. Foi quando disparei os currículos para todas as produtoras.

Como é que foram os primeiros tempos na Panavídeo? O que é que fazia?

Quando a gente tem vontade de fazer tudo, a gente tem de fazer tudo. Na Panavídeo comecei a servir cafés, mas sempre muito atenta ao que a malta da pós-produção, os realizadores e os editores estavam a fazer. Também adorava falar com os jornalistas para saber como é que eles faziam as coisas no terreno.

Mas o seu trabalho era de produção?

Fazia um bocado de tudo, desde transcrições de documentários até acompanhar jornalistas. Eu não sabia bem o que queria fazer, mas era muito curiosa. E há um dia que eles dizem: “Olha, vais fazer uma reportagem para a EDP” e eu fui. E então comecei a trabalhar no canal interno da EDP, foi onde comecei a fazer reportagens. Depois fiz o Portugal Fashion para a SIC — era eu que escrevia o guião das apresentadoras, ia com a equipa de reportagem, editava o programa todo. Eu adorava aquilo. Trabalhava imenso, mas adorava aquilo.

Quanto é que ganhava?

Não ganhava nada. Estive um ano e tal a estagiar à borla, sem receber nada, mas não me queixo. Na altura, pensava que estava a tirar um curso e não estava a pagar nada por ele. Era assim que eu via o estágio.

Mas isso porque também não tinha muitas despesas.

Financeiramente, os meus pais puderam proporcionar-me isso. Felizmente, nunca passei dificuldades, sempre vivi acima da média e os meus pais sempre me deram tudo. Mas sei que isso poderia ter-me tornado numa mimada, numa dondoca, mas não. Aproveitei a almofada financeira que os meus pais me proporcionaram e investi em mim, na minha formação, trabalhei, estudei, e não andei aí na boa vida.

De que vivem os seus pais?

Os meus pais também podiam ter vivido sempre tranquilamente, mas quiseram montar um negócio deles. E conseguiram. Criaram o seu próprio império, e também por isso dou-lhes muito valor. Sempre me passaram estes valores. Nunca mais me esqueço de quando era pequena o meu pai dava-me uma semanada de 50€, todas as sextas-feiras. Na sexta-feira seguinte, tinha de ter mais ou menos 15 ou 20€, e tinha. Ele sempre me ensinou a não gastar o dinheiro todo, a ter um fundo.

Mas que império é esse criado pelos seus pais? Como é que o conseguiram?

Os meus pais estão ligados a área da cortiça. Santa Maria de Lamas é a terra da cortiça e, portanto, meu pai cresceu nessa cultura, porque o meu avô tem uma empresa de máquinas de cortiça. O meu outro avô paterno comprava máquinas ao meu avô materno. A minha mãe tem um curso de línguas, fala fluentemente inglês, e espanhol. Depois de o meu pai ter terminado o 12.º ano foi trabalhar com o pai dele. Portanto, o meu pai tomou conta do império do meu avô. A empresa do meu avô cresceu muito, a exportar rolhas para empresas diversas. Os meus pais viajavam muito para os Estados Unidos. Mas o meu pai queria ter o seu próprio negócio e saiu da empresa do meu avô, que o apoiou. Ele precisava de pessoas em quem confiava para trabalhar com ele, e foi buscar a minha mãe, que trabalhava na empresa do meu outro avô, o pai dela. E foi assim que começaram o seu próprio negócio.

Também de rolhas?

Sim, uma fábrica de produção de rolhas naturais. Exportam, maioritariamente. A empresa dos meus pais é muito linda.

Costuma andar pela fábrica? Como é que é quando vai lá?

Adoro. Eu conheço toda a gente, aquilo é uma família. Eu percebo que eles adoram meu pai e minha mãe. E dizem que meu pai é o melhor patrão. Tenho a certeza que o é porque para aprender a mandar, ele teve de aprender a fazer, começou de baixo e subiu até ao topo por ele. Ele elogia muito as pessoas, é solidário, mas também é um bom patrão. Acho que ele me transmitiu sempre isso.

E a sua mãe, o que faz na fábrica?

A minha mãe é a mulher das contas (risos). Ele não sabe quando dinheiro tem, ela é que trata disso. Eles trabalham juntos mas fazem uma coisa ótima: praticam a individualidade. Às sextas-feiras, ela sai com as amigas e ele com os amigos.

Sente muitas saudades deles?

Sim. Queria estar mais com eles, mas são as dores do crescimento. Não dá para se ter tudo.

Voltando ao estágio. Esteve um ano e tal sem receber nada. Não se sentia explorada?

Nada. E estou muito grata por todos os projetos que eles me deram, projetos de responsabilidade. Mas ao final de um ano e tal senti que se calhar estava na hora de começar a receber. Passei a trabalhar com eles como freelancer e recebia, pronto.

Fazia trabalho de que género? Reportagens?

Trabalhava para um programa da RTP2, um programa cultural. E foi aí que conheci uma jornalista, a Maria João, que veio a ser muito importante na minha carreira. Ela adorava o meu trabalho e dizia-me que era uma pena eu não estar a fazer televisão e que se um dia soubesse de alguma oportunidade me diria.

E disse?

Sim. Mas entretanto deixei a Panavídeo e fui fazer uma coisa totalmente diferente, fui trabalhar para o projeto A Vida É Bela, uma empresa de experiências que na altura estava a nascer. Fazia toda a parte de negociação com os restaurantes, os alojamentos. Era incrível, porque tinha de adaptar a minha linguagem de negociação a uma pessoa de um turismo rural ou a uma diretora comercial, e isso foi ótimo para mim. Desenvolvi o meu improviso, fiz viagens. Mas depois comecei a gerir equipas e percebi que isso já não é para mim. Deixou de ser tão fixe. Até que o telefone tocou, quando não estava nada à espera.

Era a tal amiga Maria João.

Sim. Ela não falava comigo há quase dois anos. Ligou-me a dizer que a Júlia Pinheiro tinha ido para a SIC e tinha levado alguns jornalistas para lá. A Paula Ramos, que é editora do “Você na TV”, da TVI, era uma das melhores amigas da Maria João, convidou-a para ir para lá e perguntou-lhe se ela conhecia mais alguém. E ela disse que tinha a pessoa indicada, que era eu.

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Trocou um emprego seguro, onde já tinha um cargo de coordenação, por uma experiência.

Sim, porque era mesmo aquilo que eu queria. Fui para a TVI com o mesmo ordenado que tinha n’ A Vida É Bela, que era à volta de 1100€.

E o que foi fazer para o “Você Na TV”?

Comecei a ler cartas dos telespetadores, a fazer o trabalho de estagiária outra vez. Foi complicado. Saí muitas vezes do trabalho a chorar, deprimida. Foi uma mudança muito brusca, mas pensava: “Embora, que estás na TVI”.

Mas chorava porquê?

Já não fazia reportagens há algum tempo, e sentia que ninguém confiava em mim. Eu tinha 23 anos, era mais frágil, tinha de provar muita coisa. Fora do trabalho as coisas também não estavam muito bem, isso tudo influencia.

Como é que superou isso?

Tentei adaptar-me. Comecei a ir com a equipa de reportagem ver como eles faziam e um dia sugeri que me deixassem fazer uma reportagem. E a Paula disse-me, “OK, vais amanhã”. E fui, e comecei a adorar.

Na altura, o “Você na TV” já tinha duas estrelas da televisão, a Cristina Ferreira e o Manuel Luís Goucha. Como foi para uma miúda, de repente, estar a trabalhar para eles?

Eles eram muito exigentes, e isso obrigava-me a ser exigente comigo mesma. Tanto a Cristina como o Manel faziam críticas construtivas mas pareciam-me satisfeitos. Na altura, eu era muito caladinha, e lembro-me perfeitamente de, depois de ter aparecido pela primeira vez numa reportagem, a Cristina ter olhado para mim e ter dito: “Olha esta rapariga está sempre tão caladinha e em reportagem é um poço de alegria e boa disposição. Na altura, eu nunca falava nas reuniões, cumpria o meu trabalho apenas e ia-me embora.

O facto de começar a aparecer muito na televisão, até se tornar numa das figuras da TVI, trouxe-lhe um lado mais mediático. Isso mudou-a?

Nunca quis ser figura pública. Mas isso é uma consequência da minha profissão e eu sempre levei isso de uma forma muito saudável. Não tenho propriamente segredos. Quem vê o meu trabalho na televisão e vê nas redes sociais, vê claramente que é a mesma pessoa que está ali. Sempre lidei muito bem com o mediatismo pela questão da honestidade. As pessoas já sabem como é que eu sou.

Já teve alguma situação complicada de stakling, alguém que a perseguisse, um fã mais perturbado?

Nunca. Também não sou uma pessoa muito apetecível para as revistas cor de rosa, e ainda bem. Para as revistas, a minha vida é desinteressante, porque não estou envolvida em polémicas, porque não vou a festas. Se calhar, a fase mais crítica foi quando eu participei do “Dança Com As Estrelas”. Aí sim, foi chato porque a imprensa tentou partir de uma coisa profissional e torná-la pessoal.

Se pudesse escolher, que tipo de programa faria em televisão?

Programas inspiracionais, aqueles que mudam a vida das pessoas, que façam acontecer algo.

Ao estilo do “Biggest Loser”?

O “Biggest Loser” é o maior exemplo que eu posso dar. É um programa que pode mudar a vida das pessoas a todos os níveis. Gostava de me envolver com as pessoas para as ajudar a mudar a sua vida. Também gosto muito de programas day time, porque são programas que estimulam o meu crescimento e minha aprendizagem. Eu sou claramente muito mais do dia do que da noite.

É muito feminina? Não é um lado que mostre muito.

Sou. Eu gosto de me sentir bonita, e gosto também de me sentir sensual. A minha sensualidade é muito cheia de poder. Por exemplo, gosto de mostrar a minha sensualidade quando estou a dançar. Mas é essa sensualidade e esse poder que eu gosto de mostrar que eu tenho, mas que não mostro muito.

Mas não é aquela mulher que valorize coisas como malas ou sapatos? Quantos pares de sapatos tem?

Não tenho muitos. Mas uma pessoa pode estar sensual quando está descalça. Depende muito de como nos sentimos por dentro. Mas às vezes coloco um saltinho alto (risos).

Não gasta muito dinheiro nessas coisas?

Não. Há alturas em que me apetece, eu vou e compro, depois nem lembro de comprar durante muito tempo. Eu gosto de me sentir bonita, mas gosto de me sentir confortável. Isso é uma coisa que eu privilegio. Sou muito prática. Sou capaz de gastar dinheiro numas incríveis botas, nuns incríveis ténis, mas depois não gasto mais.

Nem em maquilhagem?

Onde eu gasto geralmente dinheiro é em bons produtos, num bom desmaquilhante de olhos, num bom desmaquilhante de rosto, num bom creme hidratante. Sempre tive essa disciplina. Tenho de ter sempre isso em casa, também uma boa base, tem que ser a melhor. Um bom iluminador, uma boa máscara de pestanas, e um bom blush. O resto…

E jóias?

Eu gosto muito de coisas pequenas. Houve uma fase que eu usava muitos relógios, mas todos finos. Agora há muitos anos que não uso. Uso também jóias da minha avó, uns fios que ela tem. Gosto de anéis simples, e só. Como eu sou muito básica, gosto de uns brincos mais chamativos, pronto, mas não tenho muita coisa.

Mas usa as da sua avó pelo valor sentimental, também?

Sim, e por serem fiozinhos, simples. Eu gosto de coisas muito simples. Tudo o que seja miudezas, porque eu sou pequenina. Gosto de jóias subtis e que quase não se veem. Menos é mais, e o que interessa é o teu ar. A roupas, jóias, isso é tudo incrível, mas isso só pode existir se cá dentro estivermos bem. Tem muito a ver com confiança. Às vezes desmarco produções porque não estou bem interiormente, e não vão correr bem.

Isabel Silva usa as jóias da Coleção de Verão da Magnolia Jewellery.

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