Durante anos, a Anomaly foi um segredo bem guardado para quem procurava peças vintage e de designer com caráter, qualidade irrepreensível e um sentido de estilo que foge à facilidade das tendências, que são cada vez mais efémeras. Agora, o projeto criado por Joana Matos entra numa nova fase, totalmente digital, e fá-lo com uma proposta clara, consciente e, acima de tudo, muito pensada.

"Ao contrário" do habitual, a fundadora explica à MAGG que começou por uma loja física, situada no 8 Marvila, em Lisboa, projeto que entretanto fechou portas. Apesar de ter criado uma comunidade fiel, o espaço revelou-se limitado, mas desengane-se quem acha que o encerramento foi um fim, porque este assumiu-se como um ponto de viragem que culminou na criação do site, através do qual a Anomaly opera a partir de agora.

“O online surge quase como uma resposta”, admite, dizendo que isto se aplica, por um lado, à dificuldade em encontrar uma renda sustentável em Lisboa e, por outro, ao facto de o mercado português ainda carregar um forte estigma em relação ao mercado da compra em segunda mão. "Apesar de já haver cada vez mais lojas [vintage], quem compra mais e valoriza a qualidade acaba por ser, muitas vezes, estrangeiro", frisa Joana Matos.

Joana Matos
Joana Matos Joana Matos, criadora da Anomaly créditos: Instagram

Isso não significa que, por cá, não haja quem tenha interesse neste mundo. Foi assim, aliás, que nasceu a Anomaly numa primeira instância, sendo que a criadora admite que, no seu círculo íntimo, tem "muitas amigas, entre os 30 e os 50 anos, que querem comprar de forma mais responsável", devido ao facto de estarem "cansadas da fast fashion, da má qualidade e de andar vestidas igual a toda a gente".

Cada vez mais certo é que mulheres ativas, com carreiras exigentes, muitas vezes mães, não tenham tempo (e muito menos paciência) para andar à caça em lojas vintage tradicionais, que estão carregadas de peças. É aqui que entra a curadoria como um verdadeiro serviço, segundo Joana Matos. “Eu sou essa facilitadora”, afiança, prometendo que a Anomaly, mais do que vender peças soltas, oferece contexto, styling e visão.

"As pessoas têm muita dificuldade em olhar para uma peça e perceber como a vão conjugar. Eu tento sempre que as peças façam sentido entre si, que exista um fio condutor", explica, ao afirmar que esta era uma conversa que tinha muito com os clientes na altura em que a loja física ainda se encontrava de pé. Assim, esta lógica aproximou-a mais do universo das marcas contemporâneas do que da ideia clássica de loja vintage.

No novo site da Anomaly, isso não é exceção, já que está assente em drops semanais de 30 peças, lançados todas as terças-feiras e disponíveis durante sete dias (e a escolha deste modelo não acontece por acaso). "As pessoas não têm noção da complexidade deste negócio. Cada peça tem de ser lavada, restaurada, fotografada – e só existe uma de cada", desabafa.

Espreite algumas peças

Assim, trinta peças é, para Joana Matos, o número certo para manter a qualidade visual, a coerência da curadoria e uma lógica de "menos é mais", como a própria define. No primeiro drop, batizado Blue Monday Dressed in Red, por exemplo, convivem peças vintage e de designer, que vão de um casaco Emporio Armani a uma saia Karl Lagerfeld, unidos por uma paleta emocional.

Apesar de descrever as coleções quase como capítulos, Joana Matos evita romantizar excessivamente a ideia de "histórias", algo muitas vezes associado ao mercado em segunda mão. O conceito serve sobretudo como ferramenta criativa e usar as coleções quase "como um posicionamento editorial". Inspira-se mais em paletas de cor e estados de espírito do que em narrativas fechadas, portanto.

A curadoria é quase um manifesto

O processo de seleção é exigente e técnico, sendo que a maioria das peças vem de fornecedores italianos, mas há também consignações, achados em plataformas digitais e histórias que atravessam gerações, não tivesse Joana Matos muita experiência no mercado, devido ao facto de ter trabalhado para uma empresa alemã neste segmento.

Ainda assim, a criadora da Anomaly é clara e frisa que não segue tendências. “O meu estilo vem muito do meu humor”, diz, reiterando que este também pesa nas escolhas que faz para o seu projeto, que se reflete na escolha (e na organização, consequentemente) de peças por cores ou padrões, por exemplo.

Há, no entanto, constantes evidentes no repertório da loja, como casacos, sobretudos, camisas de seda, camisolas de lã, mohair ou caxemira. “Toda a gente gosta de casacos. Nem toda a gente gosta de vestidos, mas casacos funcionam sempre", admite, dizendo que são peças transversais, fáceis de adaptar, com maior longevidade e que ajudam a construir um guarda-roupa sólido.

Os materiais são outro critério essencial. “Faço sempre questão de verificar a composição e procuro materiais naturais, idealmente a 100%, porque são mais duráveis e mais facilmente recicláveis", relata, deixando claro que esta é uma ideia que vai ao encontro da atenção minuciosa que tem para com as futuras regras europeias sobre rastreabilidade e impacto ambiental da indústria têxtil.

Joana Matos quer, "mais do que educar, inspirar"

No centro de todo este projeto está a noção de que, hoje em dia, as pessoas estão demasiado ocupadas para conseguirem construir uma relação mais consciente com a roupa. Compram porque viram noutra pessoa, presencialmente ou nas redes sociais, simplesmente porque estava ali ou porque parecia fazer sentido naquele momento e acabam com armários cheios, mas com a sensação de que não têm nada para vestir. A Anomaly quer, por isso, remar contra a maré e ajudar a encontrar um ponto de equilíbrio.

Para Joana Matos, há perguntas que se devem fazer no momento da compra, que são exigentes no que à reflexão diz respeito. "Em que circunstância é que se vê a usar isto? Quantas vezes? Com o quê?", elucida-nos, deixando implícito que pensar no verdadeiro potencial de uma peça, assim como na sua vida fora do cabide, é um exercício cada vez menos comum num contexto dominado pelo consumo rápido, mas cada vez mais necessário.

"Eu acho que o ser humano, em geral, está constantemente a criar ilusões, seja sobre relacionamentos, seja sobre pessoas, seja sobre a roupa", atira, fazendo um paralelismo que também se aplica à moda. "Quantos de nós vão a uma loja e dizem 'ai, adoro este casaco', compram o casaco e nunca o usam? Porquê? Porque aquilo foi uma ilusão que criámos, mas, depois, não tem nada que ver connosco", continua, admitindo que é por isso que, muitas vezes, temos roupas prontas a estrear, que nunca saíram do cabide.

A par disto, a criadora da Anomaly deixa um alerta. "Não precisamos de comprar roupa todos os dias. Nem nova, nem vintage", sublinha. Isto é, o ponto não é trocar um excesso por outro, mas ter capacidade de pôr um travão, pensar criteriosamente e alinhar as escolhas com quem somos. “Eu quero, mais do que educar, inspirar e mostrar que é possível ter estilo e vestir roupa em segunda mão", refere.

Acessórios de luxo a preços amigos da carteira. Nova loja do aeroporto de Lisboa é o paraíso da moda em segunda mão
Acessórios de luxo a preços amigos da carteira. Nova loja do aeroporto de Lisboa é o paraíso da moda em segunda mão
Ver artigo

No fundo, o que a Anomaly propõe é um regresso à autoridade pessoal, assente em pensar, escolher e sentir, de forma a que o ato de vestir não seja a resposta a uma tendência ou a um algoritmo, mas uma forma de expressão. Porque as pessoas que têm mais estilo são as que não seguem tendências, mas as que constroem um guarda-roupa com tempo, intenção e emoção.