"All Together Now", o novo talent show da TVI, faz-me lembrar um formato semelhante, emitido no mesmo canal, mas em 2014: "Rising Star — A Próxima Estrela". O talent show, que prometia ser o maior, mais interativo e mais tudo, teve apenas uma edição e não foi propriamente um sucesso de audiências.

Feito num estúdio megalómano, conduzido por Leonor Poeiras e por um, à época, muito inexperiente Pedro Teixeira, ficou aquém das expectativas a todos os níveis. Depois do desaire, a estação de Queluz de Baixo deixou de arriscar em grandes formatos não testados, apostando (e bem) as fichas em produtos de sucesso garantido como "A Tua Cara Não Me é Estranha" ou "Dança com as Estrelas".

Até 2020, quando, após a chegada de Cristina Ferreira à TVI, é anunciada a adaptação deste talent show. Muito se escreveu sobre "All Together Now", mesmo antes da sua estreia. E o tom menos positivo em torno do programa, apresentado como "o maior programa de talentos do mundo", está relacionado com a dimensão (100 jurados, um megaestúdio) chocar de frente com os tempos de pandemia que estamos a viver e — há que reconhecê-lo — injustamente inflamado por uma certa imprensa que adotou um tom excessivamente crítico e, por vezes, persecutório, em relação a Cristina Ferreira.

Padres, concertinas e até o Michael Jackson. O “All Together Now” é o “The Voice” em ácidos
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O que é certo é que "All Together Now" está aí, recém-estreado, e a não corresponder às expectativas criadas em torno daquele que era suposto ser o evento televisivo do ano. No que toca a audiências, não se pode dizer que foi um fracasso (muito longe disso).  Numa noite forte, em que a SIC  emitiu os finais de "Terra Brava" e "A Máscara", Cristina Ferreira agarrou 1,4 milhões de telespectadores. A segunda prova de fogo acontece já no próximo domingo, no confronto com a estreia de "Hell's Kitchen" de Ljubomir Stanisic.

Tenho sérias dúvidas que "All Together Now", assim como está formatado, resista ao desgaste das semanas. Tenho sérias dúvidas que, no confronto direto com a superestrela da SIC, Cristina Ferreira consiga garantir a liderança de domingo, conquistada com esforço pelo regresso do "Big Brother".

Tal como já escrevemos, o talent show parece uma versão hiperativa de "The Voice Portugal". A premissa é a mesma, dar a conhecer ao País novos talentos musicais, mas depois a concretização não podia ser mais diferente: é ruidosa, atabalhoada, pouco elegante e confusa. Mas há espaço para melhorar (embora as alterações sejam complicadas de se fazer num formato que já está parcialmente gravado).

1. Mais Cristina Ferreira

Sim, "All Together Now", precisa de mais Cristina. E não é Cristina a promover "All Together Now" noutros espaços da antena da TVI (como a tentativa, no "Jornal das 8" de imitar o "Carpool Karaoke" de James Corden, com um visivelmente pouco à vontade Joaquim Sousa Martins e perguntas rabiscadas num papelucho).

É Cristina a conversar com os concorrentes, a mexer-se no cenário, a dançar, a emocionar-se. A apresentadora parece estar perdida naquele caos de luzes, pessoas que choram, cantam, dançam e gritam. Há aqui uma oportunidade de ouro para elevar a fasquia enquanto mestre de cerimónias do pequeno ecrã mas, a avaliar, pela estreia, não foi aproveitada.

cristina ferreira

2. Menos Gisela João. Por favor

Um piropo ao padre Ricardo Esteves tem graça. Dois piropos, vá, entende-se. Passar uma emissão inteira a falar da "peitaça" do sacerdote, dos atributos físicos do sacerdote, de que, se fosse na "América", ele podia casar-se, é francamente brejeiro e até desrespeitoso. Gisela João é presidente do júri de "All Together Now" e, como se diz em estrangeiro, é uma big hot mess. Ela chora, ela dança, ela grita, ela canta em plenos pulmões. O que estaria tudo muito certo e encaixaria num formato e entretenimento não fosse o facto de ser, em muitos momentos, despropositado e exagerado.

3. Mais música e mais silêncio

O que torna "The Voice Portugal" tão apelativo é, justamente, o silêncio visual e auditivo. O visual quando vemos os mentores, cerimoniosos, escutarem cada concorrente. Concentrados, por vezes de olhos fechados, convidam o telespectador a também estar atento. E, depois, aquelas frações de segundo que sucedem a atuação, os silêncios antes das decisões, das escolhas.

Há espaço para o programa respirar e, assim, o telespectador poder também desfrutar do que acabou de ver. Nada disso existe em "All Together Now", com a agravante de as interpretações serem tão curtas que nem chegam para avaliar corretamente cada um dos concorrentes. Porque, ao fim do dia, quem está em casa quer sentir-se o 101º jurado.

E, como está, este programa não cria espaço para tal.

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