
Tem-me divertido bastante a forma como vários humoristas, guardiões da bandeira com o lema "o humor não tem limites", têm reagido ao facto de serem, eles próprios, "vítimas" do humor de Joana Marques no seu "Extremamente Desagradável". Há tempos, foi Diogo Faro (que vou respeitosamente acolher na categoria de humorista, embora lhe falte aquele elemento-base, que é o ter algum tipo de piada — que não tem), depois foi David Cristina e, agora, Rui Sinel de Cordes.
Já não há muita paciência para a discussão de quais são, ou devem ser, os limites do humor. Até porque é uma discussão sem fim, já que nunca haverá consensos. E os que hoje pensam de uma maneira, amanhã pensam de outra. E o que é que os faz mudar de opinião? Às vezes basta sentirem na pele o tal humor. Aquilo que "são só piadas" quando ditas sobre outros, viram "amontoado de estrume", "sessões de bullying" guiadas por uma pessoa que já não é uma humorista mas "uma pessoa bastante perigosa para a sociedade", como escreveu Rui Sinel de Cordes na sua recente auto-biografia "Monstro".
Mesmo não querendo discutir a questão dos limites do humor, deixo a minha opinião. Há três limites para o humor: 1) A piada ter graça (que é um limite subjetivo, depende de quem a diz/escreve e de quem a ouve/lê); 2) O bom senso do humorista (outro limite subjetivo, porque o próprio conceito é subjetivo); 3) A lei geral (uma vez mais, subjetividade, porque o que para uns viola a lei, para outros não viola a lei). Ou seja, com três limites subjetivos, claro que não pode ser o Estado nem qualquer entidade a definir o que se pode e não pode dizer. No limite, pode dizer-se tudo sobre toda a gente. Depois, quem sente que foi ultrapassado o limite da legalidade, tem à sua disposição os tribunais para se defender.
Sou, por natureza, contra toda a e qualquer limitação à liberdade de expressão, seja em forma de piada, de crónica, de opinião, escrita ou falada. Da mesma forma que sou totalmente defensor da responsabilidade individual de cada pessoa pelas suas ações. É o humorista, individualmente, que tem de perceber se deve fazer determinada piada, é ao humorista que cabe avaliar o alcance dessa piada, o efeito que essa piada pode ou não ter na vida da pessoa visada, se aquela piada justifica o incómodo, mal-estar ou, no limite, depressão ou sessão de bullying digital que daí virá, nas redes sociais. Lá está: subjetividade. No final, o humorista decide.
Penso que até ao dia de hoje ouvi praticamente todos os episódios disponíveis no Spotify do "Extremamente Desagradável". Acho alguns brilhantes, outros bastante bons, uns fraquinhos, outros desinteressantes e alguns — no meu conceito subjetivo de bom senso — desnecessários. Também sei que é absolutamente impossível fazer diariamente 12 a 15 minutos de humor, num registo do "Extremamente Desagradável", tendo sempre muita graça. Até porque o nosso país não tem assim tantas figuras interessantes, caricatas, cromos, dos quais se consiga extrair 15 minutos de humor. É, por isso, necessário recorrer a outras figuras, mais fora do radar, para alimentar a máquina. É compreensível, está tudo certo. E, uma vez mais, entra o tal conceito do bom senso, da necessária avaliação feita pelo humorista sobre se brincar com aquela pessoa vai cobrir o preço de, por vezes, a destruir nas redes sociais, ridicularizar, perturbar emocionalmente (sobretudo quando só se fala de saúde mental e ciberbullying). Uma vez mais, no final, o humorista decide.
Já fui visado em três ou quatro episódios do "Extremamente Desagradável". Os episódios fizeram de mim o que fazem de muitos dos escolhidos — um tontinho, deslumbrado, sem nada na cabeça. Ri-me muito? Não. Mas acho que a Joana Marques não tem o direito de gozar comigo? Não. Acho que tem. E defenderei sempre que deverá ter esse direito. Acho que a Joana faz um trabalho dificílimo, muitas vezes com brilhantismo, e cumpre, com enorme competência, com a sua função principal: faz rir as pessoas que a ouvem. E isso tem um enorme valor. Uma vez mais: gosto sempre do "Extremamente Desagradável"? Não. Como tenho a certeza que a própria Joana não gostará sempre. Mas o facto de eu não gostar, ou de achar que o bom senso dela não esteve alinhado com o meu bom senso quando ela escolheu brincar com esta ou aquela pessoa, não lhe pode, nunca, retirar a liberdade de fazer o humor que quer fazer. Se alguém sentir que foi ultrapassado um limite legal, lá está, tem os tribunais à disposição (como fizeram os Anjos).
Já escrevi algumas vezes sobre este tema do humor — e até fui visado num "Extremamente Desagradável" a propósito disso. E na altura foram vários os humoristas que me atacaram, erguendo a tal bandeira do humor sem limites (sendo que nunca defendi qualquer proibição, mas apenas o bom senso). Mas nessa altura, ainda não tinha havido nenhum episódio especificamente sobre humoristas (que eu tenha dado conta, pelo menos). Até que a Joana Marques resolveu começar pelo alvo mais fácil, o Diogo Faro.
Em dois episódios, expôs as contradições sociais, ideológicas, a demagogia bacoca, o populismo do "humorista" que na verdade é um ativista do Bloco de Esquerda mal preparado e que acha que é a pintar as unhas de preto que se está do lado das minorias. O Twitter, território principal de Faro, encheu-se de partilhas dos episódios. Indiretamente, parecendo querer ter fair play, mas mostrando o seu ressabiamento, lá vieram as lamúrias do Diogo sobre a "colega" humorista.
Depois, foi o humorista David Cristina, que teve direito a dois episódios inteiros a gozar com os seus podcasts. O grande defensor do humor sem limites escreveu então uma crónica na "Visão" onde lamentava ter sido "vilipendiado publicamente pelas Três da Manhã", recordando que até então "não tinha ponderado muito sobre a rubrica matinal da Joana na Renascença". Não ponderou enquanto a pimenta estava só no rabo dos outros. Depois, quando sentiu o dele a arder, já ponderou. E o que quando era sobre os outros eram só piadas, depois, quando o alvo passou a ser David Cristina, essas piadas já se tornaram "um bom achincalhamento nacional". David Cristina passou a achar que "o Extremamente Desagradável podia alterar o nome para Frequentemente Irresponsável", como escreveu na "Visão". E explicou porquê. "O Extremamente Desagradável é irresponsável porque, frequentemente, é menos um programa de humor e mais uma sessão de bullying". Então não era humor?
A consequência de lhe terem sido dedicados dois episódios do programa foi a de que David Cristina passou a receber "comentários de ódio" nas redes sociais. "A internet brindou-me com mais de uma centena de comentários sinistros sobre o meu carácter e o carácter das pessoas que fazem parte da minha vida", escreveu.
Esta semana, mais um humorista indignado com Joana Marques, agora Rui Sinel de Cordes, o rei do humor negro, que admiro bastante, e que reconheço como o mais brilhante nessa área específica do humor, e dos melhores a fazer stand-up comedy em Portugal. Sinel de Cordes foi já alvo de várias referências de Joana Marques e vingou-se agora na sua autobiografia. Diz ele que no "Extremamente Desagradável" "o caráter de outros é manchado sem que nada aconteça por acaso. A anãzinha da rádio é um particular triste exemplo do que vos falo. Autora de um dos conceitos mais ordinários de sempre, certamente o pior que já saiu com o escudo do humor", escreve Sinel de Cordes. Então não eram só piadas? Agora já é um conceito ordinário?
Sobre a própria Joana Marques, Sinel de Cordes diz ser como "o humpty dumpty" que "está a transitar mas não se percebe bem para quê". No livro, escreve ainda que "na altura da conceção, o pai [de Joana Marques] mandou o quê para a cona da mãe, uma escarreta?". Brinda-a ainda com mais elogios, como "gorda" que "não cabe num canhão", uma "pessoa bastante perigosa para a sociedade" e diz que "não deve ser fácil viver uma adolescência a pensar que a única hipótese que tem de romance é ser violada pelo contínuo da secundária". Classe. Sobre o "Extremamente Desagradável", diz que se "finge haver algum mérito naquele amontoado de estrume".
Durante alguns anos, vivi relativamente perto dos bastidores do humor e, como já escrevi, conheço alguns humoristas, agentes de humoristas e produtores de espetáculos de humor. Sei, por exemplo, que quando se aponta os roasts (conceito em que uma pessoa convidada é enxovalhada por outras pessoas num palco) como o exemplo supremo de fair play dos humoristas, quase sempre omite-se que, nos bastidores, os humoristas entregam uma lista de temas sobre os quais não querem que os outros façam piadas. É só mais um exemplo da hipocrisia deste meio cheio de guerras de egos, invejas, mesquinhez, e de gente que se acha superior, especial, única, só porque faz umas piadas.
Sou fã de todas as formas de humor, nacional e internacional, do stand up à crónica escrita, vou frequentemente a clubes de comédia em Portugal e no estrangeiro, acho que temos talentos enormes no nosso país, como o Ricardo Araújo Pereira, o Bruno Nogueira, a Joana Marques, o Herman José, o Batáguas, o João Pinto, o Sinel, o Hugo Sousa, até o Fernando Rocha (num registo que não é o meu, mas que acho que é feito com grande competência), mas gosto tanto de ver os espetáculos de fora como de ver o circo das vaidades a arder por dentro.