Já passava das 23 horas quando entrei na primeira porta aberta da Herdade da Matinha. Depois de uma sexta-feira dramática, estava exausta. Os problemas tinham começado com o falecimento da Internet na redação, continuaram quando alguém me fez atravessar a cidade porque se esqueceu das chaves de casa — não quero atribuir culpas, o responsável saberá quem é.

Morada: Herdade da Matinha, Cercal do Alentejo
Telefone: 933 739 245

E eram apenas 16 horas. Às 19 horas estava em pânico a tentar sair do trabalho para ir buscar alguém a casa que ainda estava a fazer a mala — mais uma vez não quero atribuir culpas, o responsável sabe quem é. Às 22h30 estava no carro rodeada por vacas quando me lembrei que alguém me tinha enviado um email naquele dia a avisar-me de que as indicações do GPS não funcionavam corretamente. Pronto, aqui a responsável fui eu.

Tudo isso desapareceu assim que abri a porta de casa. E realço a palavra casa porque, de facto, foi aí que me senti assim que entrei na Herdade da Matinha. O crepitar das lareiras, as telas garridas, os jogos de tabuleiro em cima da mesa. Até a chuva lá fora se tinha transformado numa maravilhosa melodia. Chegara a casa.

Na cozinha há sempre bolo caseiro para os hóspedes

Enquanto passeava pelas salas vazias, cruzei-me no corredor com um velhote e o neto. “Desculpe, sabe dizer-me onde é a receção?”, perguntei. Ele disse-me para seguir em frente, mas avisou-me que as “meninas” estavam na cozinha. Houve uma simpatia tão pura naquele diálogo que o sentimento de lar continuou preso a mim.

É engraçado como me sinto sempre constrangida antes de chegar a um turismo rural. Os hotéis dão-me segurança — posso entrar e sair do quarto vezes sem conta sem que ninguém saiba quem é que eu sou. Ninguém vai parar para fazer conversa de circunstância, eu pelo menos não tenho de o fazer. Nos turismos rurais não é bem assim.

E é engraçado também como, tantos anos depois, continuo sem aprender a lição. Sim, os hotéis dão-me a segurança da individualidade, mas os turismos rurais — os bons, verdadeiros e genuínos —, fazem-me sentir parte da família. E isso nenhum hotel do mundo foi, até hoje, capaz de me fazer sentir.

Na Herdade da Matinha esse sentimento de pertença foi quase imediato. Quando encontrei as “meninas” sentadas na sala de refeições, os seus sorrisos fizeram-me sentir como se fosse o filho pródigo acabado de regressar. E, naquele momento, naquele preciso momento, achei que a Herdade da Matinha devia mesmo era chamar-se Herdade da Martinha. Porquê? Porque eu tinha acabado de chegar e já sabia que a última coisa que queria fazer era ir-me embora. Se me dessem permissão para tal, era pouco provável que voltasse a Lisboa nos próximos meses.

Há sempre bolo na cozinha. Os hóspedes podem vir e servir-se sempre que quiserem, é uma oferta"

Em plena Costa Alentejana, mais precisamente na aldeia do Cercal, a Herdade da Matinha diz que é tão simples como a vida. E é assim, de facto — durante dois dias, descobri a felicidade em coisas tão simples como sentar-me num sofá ao lado da lareira, beber um copo de vinho a olhar para as estrelas ou comer uma fatia de bolo caseiro. "Há sempre bolo na cozinha. Os hóspedes podem vir e servir-se sempre que quiserem, é uma oferta", disseram-me. Se estas não são as palavras mais bonitas do mundo, não sei quais serão.

A Herdade da Matinha fica numa propriedade com 110 hectares, que tem mais de 14 mil pinheiros. No total há 22 quartos, que se dividem por blocos pelo terreno. Por outras palavras, é impossível andar aos encontrões com os hóspedes. No que diz respeito às refeições, o turismo rural serve, além do pequeno-almoço, snacks ligeiros ao longo do dia e tem menus ao jantar.

Há ainda workshops e tertúlias culinárias, aulas de ioga e Pilates, massagens de relaxamento e dez cavalos que, no domingo, apareceram a pastar enquanto eu barrava Nutella no meu crepe. Que saudades. A sério que não podemos mudar o nome para Herdade da Martinha?

É tudo simplesmente perfeito — do enquadramento da paisagem à decoração. Paremos aqui por um bocadinho. Foi em 1996 que começou a aventura de Alfredo Moreira da Silva e a mulher, Mónica Belleza. Quando descobriram esta propriedade perdida no meio do Alentejo, apaixonaram-se de tal forma que perceberam que era ali que queriam viver. Voltamos a repetir o nome do proprietário, Alfredo Moreira da Silva, porque é ele um dos nomes mais importantes desta história — além da sua dedicação a esta casa, é ele o contínuo responsável pela decoração da herdade.

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E talvez seja um dos aspetos mais interessantes da Herdade da Matinha. Em todas as salas há telas pintadas com cores garridas, todas da autoria de Alfredo Moreira da Silva. Turismos rurais espalhados pelo mundo há muitos, é verdade. Mas iguais a este é impossível.

Só tenho duas coisas menos boas a apontar à minha estadia. E digo menos boas porque foram apenas isso, não lhes posso chamar sequer críticas. Primeira: o chuveiro podia ter mais pressão. Talvez não seja sempre assim — a minha visita ocorreu num pós-temporal, por isso houve alguns problemas, nomeadamente um período de dez minutos em que ficámos sem água. São coisas que acontecem, sobretudo quando estamos no meio do campo. Mas a pressão da água nunca melhorou. Volto a dizer: não sei se isso se deveu às condições meteorológicas excepcionais ou se foi sempre assim. Se for a segunda, acho que seria um aspeto a ter em consideração.

A segunda coisa menos boa diz respeito aos caminhos. No verão isto nunca seria um problema mas, no inverno, e sobretudo como tem chovido nas últimas semanas, havia lama por todo o lado. Ora para percorrer a propriedade, e sair do edifício principal para visitar, por exemplo, a piscina exterior ou a ala onde se realizam as aulas de ioga, às vezes era preciso andar pela lama. Se houvesse um caminho em pedra, isto deixaria de ser necessário.

E já que estamos a falar de caminhos, é preciso deixar a nota de que também não é fácil percorrer a estrada de acesso à herdade. Os últimos três quilómetros são feitos em terra batida. Aqui pode não ser de todo uma responsabilidade do turismo rural, mas de facto não é muito fácil chegar lá.

As novidades da Herdade da Matinha

22 anos depois, a Herdade da Martinha (peço desculpa, Matinha, Matinha) continua a inovar. No verão passado aumentaram a sala de refeições porque, explicaram-me, sentiram a necessidade de oferecer mais privacidade aos casais. Na sala principal continuam a predominar as mesas compridas, na nova sala — que é também onde se servem os jantares — há sobretudo mesas para duas pessoas. Fez todo o sentido: num espaço tão familiar é normal haver muitas famílias, mas também casais que procuram um fim de semana romântico. E apesar de gostarmos todos muito uns dos outros, nem sempre precisamos de nos misturar. Sobretudo às refeições.

Mais uma nota ainda sobre esta sala: com amplas janelas com vista desimpedida para o campo, é aqui que acontece a magia. As refeições rapidamente se transformam num piquenique. Quando aparecem os cavalos então, o cenário torna-se simplesmente perfeito.

A novidade mais recente é o novo chef — e foi isso que nos levou a visitar a Herdade da Matinha. David Proença assumiu o controlo da cozinha em fevereiro deste ano e apostou numa cozinha mais sustentável, com base numa ementa que muda todos os dias consoante os produtos frescos disponíveis. Os jantares custam 28€ por pessoa e incluem as entradas, pratos de peixe e de carne e sobremesa.

Marcámos o jantar para as 19h30. O ambiente ficou completamente diferente — apesar de estar na mesma sala onde tomei o pequeno-almoço e onde tinha lanchado também uma tosta, a atmosfera tinha mudado e estava muito mais intimista.

A minha refeição começou com uma salada de polvo e o maravilhoso pão alentejano — ganhei dez quilos nesse fim de semana só a comer torradas ao pequeno-almoço. Seguiu-se uma massada de peixe, rosbife com puré de batata e, para sobremesa, crumble de maçã com iogurte grego.

Não fiquei surpreendida com o jantar. Não é que não estivesse saboroso (só me posso queixar nesse sentido do rosbife), simplesmente não era o que esperava comer na Herdade da Matinha. Estamos na casa do bolo caseiro sempre disponível no balcão da cozinha, não dos menus que custam 28€ por pessoa. Colocar este preço numa refeição eleva a fasquia para uma refeição gourmet. E não foi isso que me foi servido.

Nem era o que eu queria, atenção. Eu não queria comer massa al dente numa massada de peixe. Preferia que me tivessem posto um tacho na mesa em vez de uma dose mais pequena, e que eu sentisse o poder da comfort food no seu melhor. Também trocava de bom grado o rosbife e o puré de batata por um prato mais tradicional. Não estou a dizer que a inovação não possa existir — crumble de maçã com iogurte grego foi uma novidade para mim e, de facto, funcionou. Mas funcionou na sobremesa, não nos restantes pratos.

Não é uma crítica destrutiva. De todo. A Herdade da Matinha é um local maravilhoso, tão maravilhoso que faria ali a minha casa. O chef tem talento, a conjugação de sabores está lá e em momento algum posso dizer que comi mal. Mas faria mais sentido cobrar-se um bocadinho menos pelo jantar e optar-se pela verdadeira cozinha alentejana. Caso contrário, a ementa deve ser mais inovadora.

A Herdade da Matinha já atingiu aquilo que é mais difícil de alcançar: o sentimento de pertença que induz em todos os hóspedes. E é por isso que, na minha mente, ficará para sempre conhecida como a Herdade da Martinha — como talvez tantos outros antes de mim lhe chamaram Herdade da Teresa, da Ana ou do António. Durante o fim de semana, aquele espaço também foi um bocadinho meu. E faço planos para voltar a casa um dia.

Consoante a tipologia e a época do ano, os preços por noite variam entre 85€ e 450€.

A MAGG ficou alojada a convite da Herdade da Matinha.

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