Foi há menos de um mês que o mundo se levantou e ergueu cartazes a relembrar o que não deveria ser preciso relembrar: “Black Lives Matter”. Vivemos tempos em que continuamos a ter de reforçar uma mensagem tão simples como é a de devermos tratar todas as pessoas da mesma forma, independentemente da cor, do sexo, da religião, da orientação sexual ou do estrato social, por mais ancestral que isso possa parecer.

Para muitos de nós, é mesmo difícil de compreender como é que continua a haver tanta gente que não aceita a diferença, que não aceita que alguém não seja como nós, não pense como nós, não reaja como nós. Mas um exercício tão simples como sentar o rabo no sofá e assistir ao “Big Brother 2020” ajuda-nos a entender que o trabalho não só continua quase todo por fazer, como precisamos de dar ainda dois passos atrás, e corrigir aspetos mais simples na forma como muitas pessoas vêem o mundo. Como é que alguém não vai discriminar outra pessoa por ela ter um tom de pele diferente, ou por ter uma orientação sexual que não é a nossa, se não aceitamos coisas tão mais básicas como uma pessoa ter um feitio diferente do nosso?

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Concorrentes como a Sónia, o Pedro Soá, o Pedro Alves ou o Daniel Monteiro são o exemplo disso. Quem vê o programa desde o início sabe do quase ódio que estes concorrentes têm, sobretudo, a três outros, Diogo, Ana Catharina e Noélia. Mas também a Daniel Guerreiro. Agora, um exercício simples: voltemos atrás no tempo e procuremos as razões essenciais que estão na base desse ódio. O que é que sustenta este sentimento? De onde é que ele vem? O que é que Diogo, Ana Catharina e Noélia fizeram ou disseram que levou a este bully continuado de que são alvos? A resposta é simples: não fizeram nada, limitaram-se a ser como são, diferentes dos outros concorrentes.

Há aqui um twist: ao contrário do que Sónia ou Pedro Alves dizem, Diogo e Noélia não são “diferentes”, “estranhos”. Não, mesmo nada. Diria até que eles são absolutamente normais, porque à minha volta há muito mais gente com o perfil de Diogo, Ana Catharina ou Noélia do que de gente como Pedro Alves ou Sónia. Seguindo o mesmo raciocínio deles, então, para mim, eles seriam “diferentes” ou “estranhos”. E até poderia achar isso, mas sei que não são, porque tenho consciência de que em Portugal há milhares de Sónias e Pedros Alves, da mesma forma que eles deveriam pensar um bocadinho e perceber que há milhares de Diogos, Anas Catharinas ou Noélias. A única forma de lidar com isso é aceitar a diferença e conviver, da melhor forma, com ela.

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É por isso chocante ver a forma agressiva, muitas vezes violenta, quase sempre crítica e corrosiva, como os concorrentes associados à fação kamikaze reagem e lidam com pessoas diferentes deles próprios. Não aceitam, criticam, insultam, gozam, atacam. Juntam-se em grupo à procura de uma validação conjunta para terem mais força e sentirem-se mais apoiados nas suas ideias. O problema é que os portugueses veem isso tudo, as conversas, as críticas, as más-línguas, as posturas agressivas, a gritaria de dedo em riste, as tentativas de intimidação pela violência verbal. E por isso não gostam deles.

É divertido ver a forma totalmente errada como dentro da casa os concorrentes olham para o jogo, sobretudo os que referi, os tais do grupo Kamikaze. Acham eles que são “genuínos”, como se ser genuíno fosse sinónimo de berrar com quem é diferente, como se ser genuíno fosse sinónimo de ser agressivo, bully ou mal educado. Na cabeça deles, eles são genuínos e um concorrente como o Diogo é falso, porque é impossível algo ser-se assim. Não têm, sequer, a capacidade intelectual de perceber que há pessoas como o Diogo e não são assim tão poucas, pessoas educadas, sensatas, que conversam sobre os problemas, que não dizem mal dos outros, que conseguem ser indiferentes quando na presença de gente com a qual não têm qualquer sintonia ou química. É possível ser educado, cordial, civilizado quando se convive com alguém que nos diz zero, e Diogo tem sido a prova disso mesmo.

Estes jogadores continuam a achar que os portugueses gostam é de concorrentes divertidos (como se eles o fossem), genuínos (como se eles fossem mais do que os outros), frontais (que não é a mesma coisa que ser mal educado). Não. Os portugueses, como qualquer pessoa de bem, gostam de pessoas boas. Só isso. E as pessoas boas não são as que dançam mais, berram mais, choram mais, criticam mais. São as que respeitam toda a gente, independentemente das diferenças que possam ter, são as que conversam sobre os problemas, são as que aceitam as diferenças. É por isso que os kamikaze têm, semanalmente, saído da casa, e os concorrentes que manifestam serem boas pessoas continuam a ser os preferidos dos portugueses.

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