Testei positivo à COVID-19 a 4 de fevereiro. Cá em casa estamos todos em isolamento há mais de uma semana. 3 pessoas positivas e uma que já ultrapassou a doença. Temos a sorte de ter sintomas leves, ainda que os sintomas leves se assemelhem pouco - apesar do que querem fazer crer - a uma gripe.

A tosse é mais persistente do que a de uma gripe. Os arrepios de frio são mais agressivos do que numa gripe. As dores musculares são violentas, dolorosas, em espasmos que vão e vêm, como se de choques elétricos se tratassem. O olfato e o paladar, sumidos, fazem com que toda a comida e bebida saibam a água e com que toda a alimentação seja um acto mecânico e desprovido de prazer. E o cansaço permanente, que obriga a pausas até em simples tarefas como colocar a loiça na máquina ou tomar banho.

Apesar de tudo (e a expressão chave aqui é esta) estes são sintomas leves. Apesar de tudo, estamos bem e temos uma rede de apoio que nos permite não termos de nos preocupar demasiado com compras, comida e tudo aquilo que implicaria sair à rua.

Uma familiar próxima, que também ficou infetada, relata-me casos de pessoas que, mesmo infetadas, foram trabalhar. Pessoas que escondem a doença, que não se submetem a testes ou que os adiam até os sintomas serem insuportáveis, seja por incúria ou por medo de represálias da entidade patronal, do julgamento familiar ou mesmo das críticas. Com cerca de 1% da população portuguesa já infetada, isto escapa à minha compreensão mas, aparentemente, é comum.

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O que também parece ser comum é algumas pessoas acharem que têm o direito de perguntar a quem não conhecem nem do elétrico como é que ficaram infetados. Como se perguntar isso fosse tão comum como saber se amanhã chove. Como se não fosse uma intrusão enorme na vida privada da pessoa.

Isso aconteceu-me e fiquei perplexa com a quantidade de pessoas que acham que têm o direito de fazer essa questão (não sendo familiares, nem médicos nem delegados de saúde pública nem pessoas com quem tivemos contacto). Num gesto um pouco ingénuo (admito agora), publiquei na minha página de Facebook, onde tenho alguns milhares de seguidores, que estava infetada. Logo uma senhora, que não conheço de lado nenhum, afoitamente me perguntou como é que eu me tinha infetado. Com que intuito, nunca cheguei a perceber, visto que não nos conhecíamos. A minha resposta foi irónica e remeteu para um cenário de contágio que envolvia saunas, sexo ilegal e corrimãos. A senhora, claro, não achou graça a chamou-me "mal educada".

Logo depois se gerou ali uma discussão, com muita gente a advogar que eu, enquanto "figura pública" (título com o qual, de resto, não me identifico, porque, curto e grosso, ninguém me conhece) tinha o "dever" de revelar como é que me tinha infetado. E porque eu, como tinha a capacidade de influenciar os outros, podia ajudar a que as pessoas que me seguem pudessem evitar o contágio. E ainda houve quem dissesse que "pessoas como eu" deviam informar os seguidores porque, e cito, "o governo não diz nada e as televisões só passam desgraças e as pessoas não sabem como é que acontece o contágio".

Isto fez parar o meu cérebro covidado.

Ora então quer-se dizer que, ao fim de quase um ano de a Direção Geral da Saúde, os meios de comunicação social, as autoridades competentes, todos os canais de televisão (da informação ao entretenimento), mais as campanhas nas redes sociais, divulgarem as formas de contágio até agora conhecidas e também as medidas para evitar esse mesmo contágio (a tríade "lavar as mãozinhas - uso de máscara - distanciamento social"), as pessoas ainda precisam que lhes expliquem como é que se apanha covid? Ou será que só querem mesmo bisbilhotar a vida alheia, para depois dizerem aquela coisa muito tuga "ai se fosse comigo, não era assim!".

Não consigo não deixar de ver maldade na pergunta, um fedor pidesco a vigilância da vida alheia, para depois comentar com a vizinha na janela do whatsapp ("olha, já viste que a coisa apanhou covid? Deve ter andado por aí na boa vai ela e depois, já se sabe...").

Ao fim de quase um ano, já sabemos que isto não nos vai tornar pessoas melhores. Mas tinha esperança que não nos tornássemos uns Guarda Serôdio. A minha esperança, infelizmente, está a esvair-se.

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