Nenhuma semana na História de Portugal foi tão rica em polémicas em torno de bebidas. Temos, por exemplo, a tirada de Graça Fonseca que, assim na maior das descontrações, convida a malta a ir beber um "drink". Se em causa não estivessem pessoas a passar fome, eu ria-me. Criei duas narrativas para justificar o momento infeliz: ou a ministra mandou uma calinada infeliz (o que pode acontecer com qualquer pessoa) ou, a minha preferida, a doutora Graça é aquele amigo que bebeu para lá do que devia, passou a noite a fazer disparates para acordar, envergonhadíssimo, e perguntar: "O que é que se passou?".

A gente ajuda-te, Graça. Passou-se que, de repente, começaste a falar em português do Brasil, o que não tem mal nenhum, mas era uma conferência de imprensa e tu és ministra. Os únicos portugueses que podem fazer isso são os Panda Pompoir, uma banda "underground" portuguesa, que não te deve interessar muito. Ou o David Carreira. Além disso, e tenho de ser sincera, ninguém diz "drink". Não foi cool, não mandaste swag.

Mas, pronto, isto nem foi o mais grave. O pior foi o samba muita mal amanhado que mandaste na cara das pessoas que trabalham para o setor de que estás encarregada. Essas pessoas são atores, são músicos, são pintores e tantos outros que trabalham nos bastidores deste universo. Não te posso mentir: deste um esbadalhanço monumental e agora, como diria o Manuel Serrão, caíste em desgraça. É que a Cultura é super importante para o desenvolvimento intelectual do País, que, na realidade, precisa bastante. Basta ouvires a malta a dizer "não há racismo sistémico em Portugal" ou "essa gaja pôs-se a jeito" para perceberes isso. Isto está tudo ligado, não te enganes. Vá, não desesperes, agora já está. Vai lá tomar um gurosan e pensar um bocadinho no facto de que estas pessoas são mais importantes do que as damas gordas dos quadros renascentistas do Museu de Arte Antiga, porque, sei lá, estão vivas.

Pronto, recado dado, passemos à segunda e mais recente polémica: ir aos bares e discotecas passou a ser exatamente igual a ir ali ao Arco de Paris, a minha tasca preferida de Lisboa. A diferença é que o Arco de Paris fecha às 23 horas, contrariamente a estes espaços, que têm de encerrar às 20 horas. Além disso, o Arco de Paris tem uns 20 metros quadrados e só emprega o Carlinhos, o Fernando (os proprietários) e a Dona Lurdes, responsável pelo menu hambúrguer a menos de 4€, que tantas vezes nos forra o estômago para as minis a 90 cêntimos (sim, 90 cêntimos) que ali se vendem.

No universo das discotecas e bares, é um bocadinho diferente: a partir de agora, temos de faltar ao trabalho para ir desbundar do terraço do Lux, porque de outra forma é impossível. É o lusco-fusco que está a dar, já vaticinava o Gato Fedorento.  Além disso, nestes sítios, normalmente trabalham mais pessoas: há porteiros, barmen, artistas, técnicos de som, técnicos de luz, pessoas que gerem a programação, trabalham em comunicação e gerem redes sociais, algumas das quais, muito bem geridas. Somam-se a isto, as rendas, essas malvadas com tantos dígitos.

Fora de brincadeiras, é preciso admitir. A solução para o problema dos bares e das discotecas não é fácil, porque num mundo pandémico, os moldes em que se convive nestes espaços envolve proximidade e uma dose simpática de descontrolo, o que, toda a gente sabe, tem um potencial de contágio soberbo. Eu, pessoalmente, não me arriscaria. Ainda assim, as condições que foram apresentadas pelo Governo parecem a Cristina Ferreira nos Globos de Ouro vestida de meme. São uma piada. E não consigo deixar de perguntar: quantas festas de Lagos se seguirão?

É uma situação ingrata. O setor dos bares e das discotecas parecem o primo pobre do País. Parecem o desgraçado, o malvado, o delinquente que só gosta da má vida, que só quer beber e meter-se nas drogas. É o diabo, é o símbolo da blasfémia. Mas a realidade é que as discotecas têm concertos, e empregam muitos dos artistas de bastidores que neste momento não têm nada. Este setor também dava dinheiro ao País, que assiste ao seu colapso e não quer saber. 

Odeio este vírus, tenho saudades de dançar. E, não, dar um pezinho em casa não é a mesma coisa, não me venham com essa história. Já tentei com Taylor Swift, já tentei com Lena d'Água e até já tentei com Rolling Stones. Música eletrónica nem vale a pena, porque a potência das minhas colunas não é suficiente para a do badass bass que se quer.

Enfim, lembram-se dos tempos em dávamos a semana por terminada, ligávamos à nossa amiga e perguntávamos: "Como é que é?". Lembram-se de quando se elaboravam outfits que só ficavam bem na nossa cabeça, para acabarmos com o top e calças pretas de sempre. Lembram-se de quando quase ficávamos cegas com uma inflamação nos olhos a tentar desenhar um bonito cat eye? Provavelmente não, que isso era só comigo. Mas digo-vos que é doloroso.

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