Sofia Borges descobriu que tinha cancro da mama aos 35 anos. Na altura, corria o ano de 2019 e estávamos prestes a entrar numa pandemia que viria a mudar tudo à nossa volta.

Agora, aos 37 anos, e depois de muito sofrimento, Sofia quer acreditar que o cancro foi algo pelo qual já passou e não irá voltar a passar. Atualmente, dedica-se a ajudar outras pessoas, que estejam também a passar pela doença oncológica, através da página que criou, "Cancro Humanizado".

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Em 2019, foi durante uma brincadeira de cócegas com o filho, de 8 anos, que se apercebeu de que algo não estava bem. "Quem descobriu um dos caroços que eu tinha foi o meu filho. Ele tocou no ponto exato onde eu tinha o cancro", conta à MAGG. Esse alerta fez com que aproveitasse uma consulta de ginecologia que já tinha marcada para averiguar a situação. "Ele [o médico] fez a palpação e disse logo que podia não ser nada como podia também ser. Pediu-me para fazer logo mais exames por descargo de consciência, mas foi aí que vi que era cancro."

Outubro é o mês de sensibilização para o cancro da mama, uma patologia que afeta muito mais mulheres do que homens e que, apesar de não ser dos mais letais, tem ainda altos níveis de mortalidade. Em Portugal, de acordo com os dados da Liga Portuguesa Contra o Cancro, em 2020 foram diagnosticados cerca de 7 mil novos casos de cancro da mama e 1.800 mulheres morreram com esta doença.

Neste mês, Sofia explica à MAGG que se tem contido no número de partilhas que faz sobre este tipo de cancro por considerar que há muitos mais que precisam de igual atenção (e ainda porque o cancro da mama não pode só ser falado no mês de outubro).

"Como todos os meses, infelizmente, há um tipo de cancro que chama à atenção. Este mês de outubro é o rosa, dedicado ao cancro da mama. Eu não estou a fazer divulgações como forma de protesto. Infelizmente, acho que as grandes marcas se aproveitam um pouco do mês para vender e eu acho que esta divulgação deverá ser o ano todo", afirma Sofia. "Não nos podemos debruçar sobre o cancro da mama só num mês", continua.

Sofia fez uma mastectomia e uma reconstrução mamária numa só cirurgia

Por acreditar que "o cancro tem de ser tratado por tu", Sofia dedica muito do seu tempo a ajudar outras mulheres com cancro, bem como as suas famílias.

Em 2019, após ter o diagnóstico, passou por um processo de quimioterapia antes de partir para a cirurgia onde foi realizada uma mastectomia. "Eu tinha três tumores e um deles, o que foi detetado, era demasiado grande para se fazer cirurgia. É aí que começo pela quimioterapia, faço 16 ciclos e depois disso, isto em plena pandemia já, vou para cirurgia."

Inicialmente, estava previsto ser feita uma mastectomia sem reconstrução porque as indicações que o IPO tinha era para estar o mínimo tempo possível na sala cirúrgica. Mas, após o médico verificar a idade, decidiu fazer logo a reconstrução, conta Sofia à MAGG. "Se eu soubesse o que sei hoje, não tinha feito porque foi muito doloroso. Fiquei menos tempo do que aquele que devia ter ficado no IPO de Lisboa, derivado à pandemia, e acabei por vir para casa com seis drenos."

Com um filho a seu cargo, que se encontrava em telescola, a situação revelou-se complicada uma vez que o marido também estava em teletrabalho. "O pós operatório foi muito duro porque aquilo que normalmente se faz em duas cirurgias, fiz numa. Foi uma violência psicológica atroz derivado a tudo o que estava à volta."

Página do cancro Humanizado surge depois do sucesso do projeto Sophie Box

Durante este período, Sofia Borges confessa ter tido muitas vezes medo do futuro, e diz ter sido a necessidade de procurar respostas, por parte de alguém que já tivesse passado pela doença, que a fez criar uma página onde se pode falar de tudo. Mas antes, criou a "primeira caixa portuguesa com amor, carinho e autoestima para mulheres com cancro" — a Sophie Box.

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"Depois de criar as boxes, começo a verificar que há mulheres que me fazem diversas perguntas que, para mim, eram coisas normais e que toda a gente [que está a passar pela doença] deveria saber, mas não era o caso". Perguntas como: o que é uma PET (exame de imagem muito utilizado para diagnosticar precocemente o cancro, verificar o desenvolvimento do tumor e se há metástase) e qual o tipo de champô que se pode usar quando se está careca, são alguns dos exemplos dados por Sofia sobre aquilo de que se fala na página. "Um projeto que mantenho mesmo depois do cancro, ajustado às necessidades que senti na altura". A par da página e das diversas publicações que faz, mantém em andamento o projeto Sophie Box.

A caixa destina-se a mulheres com cancro e não tem qualquer custo. De acordo com Sofia, pode ser encomendada pela própria mulher, ou por algum familiar ou amigo que queira fazer essa surpresa. Lá dentro vêm produtos cosméticos para mulheres — "100% aptos a doentes oncológicos e 100% seguros" — um gorro, turbante ou peruca, consoante aquilo que a mulher pede, a revista "Cuidar" (a única revista dirigida a doentes oncológicos), um batom hidratante e, por vezes, alguns artigos de bijuteria oferecidos por pequenas marcas.

Os custos das primeiras caixas de oferta começaram por ser suportados por Sofia, mas, mais tarde, teve o apoio da marca Uriage, que, atualmente, oferece todos os artigos de cosmética. Também os portes de envio são suportados por uma marca que à causa se quis juntar.

"A página do cancro humanizado não é um espaço onde só falo de tristeza e dor"

Após uma fase de muita dor, Sofia quer acreditar que "depois das três confirmações negativas" o cancro não irá voltar. Ainda assim, como diz à MAGG, sente que não faz qualquer sentido deixar a página porque agora o objetivo é ajudar outras pessoas a olhar para o futuro e a saberem aquilo que podem fazer.

"Há pessoas que passam bem pelo cancro e, graças a Deus, não ficam com nenhum tipo de efeito secundário. Mas, infelizmente, também há muitas que sofrem muito", diz, realçando a necessidade de se falar do tema sem "grandes floreados" e com a "verdade nua e crua". "A minha página do cancro humanizado não é um espaço onde só falo de tristeza e dor, mas onde faço aquilo que sinto necessidade. Se há um défice de alguma coisa na minha sociedade e se eu conseguir fazer alguma coisa para colmatar esse défice, vou fazer", remata.

Atualmente, a página de Sofia conta já com quase 5.000 seguidores e são centenas as mulheres a quem já chegou a Sophie Box. Como diz, o objetivo não é ficar famosa, mas, se tiver de o fazer para levar o projeto a mais pessoas, continuará a dar sempre a cara pela causa.

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