Se o rastreio do cancro da mama é essencial e permite diagnosticar centenas de cancros em fase inicial, porque é que só é feito a pessoas entre os 50 e os 69 anos? Devemos realizar mamografias mais cedo? Em que idade? E com que frequência? Respondemos a tudo neste artigo, mas já lá vamos.

Outubro é o mês de sensibilização para o cancro da mama, uma patologia que afeta muito mais mulheres do que homens e que, apesar de não ser dos mais letais, tem ainda altos níveis de mortalidade. Em Portugal, de acordo com os dados da Liga Portuguesa Contra o Cancro, em 2020 foram diagnosticados cerca de 7 mil novos casos de cancro da mama e 1.800 mulheres morreram com esta doença. Apesar de os números ainda serem alarmantes, é sabido que o exame clínico e a mamografia são meios essenciais para um diagnóstico precoce que permite, na maioria das vezes, um melhor desfecho dos casos.

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Em Portugal, a Liga Portuguesa Contra o Cancro é a organização responsável pela prevenção desta doença através do Rastreio de Cancro da Mama que começou em a ser feito em 1986 na região centro do País e foi posteriormente alargado a todo o território nacional. Este rastreio tem, segundo a Liga, "permitido o diagnóstico de centenas de cancros em fase inicial e, consequentemente, curáveis ou controláveis". Ainda assim, é uma ação que se destina apenas a pessoas entre os 50 e os 69 anos, o que leva muitos a questionar o porquê de não ser alargada também a pessoas com idades mais jovens.

Irina Ramilo, ginecologista e obstetra, explica à MAGG que a idade estipulada para os rastreios que se fazem em massa a nível nacional depende de vários fatores. De acordo com a especialista, "aquilo que é defendido quando se faz um primeiro rastreio aos 50 (e depois de dois em dois anos) é que, vendo por grupo, não é por a mulher fazer rastreio anual a partir dos 40 anos (ou mais cedo) que a sobrevida será maior" porque a maioria dos cancros são detetáveis por palpação a partir de um centímetro.

"Como a sobrevida não é muito diferente, coloca-se em questão os gastos económicos e a radiação a que as mulheres estão sujeitas comparativamente à diferença de sobrevida [antes dessa idade], que não é muita", diz à MAGG. Apesar de admitir que há outros tipos de cancros difíceis de detetar, explica que isso são particularidades que não interferem com uma ação alargada como a que está em causa.

Irina Ramilo
Irina Ramilo é especialista em Ginecologia e Obstetrícia

"O que se defende quanto a esses rastreios mais alargados tem que ver um bocadinho com isso. Claro que quando falamos em questões de grupos temos tendência a querer sempre que este possa ser detetado mais cedo, mas quando se faz um rastreio universal colocam-se uma série de questões em cima da mesa, que vão ao encontro dos estudos, que dizem a que sobrevida não é muito diferente", continua.

Especialista alerta que mulheres devem procurar saber se está tudo bem antes dos 50 anos

Atualmente, o Programa de Rastreio de Cancro da Mama (desenvolvido em colaboração com os Cuidados de Saúde Primários) cobre as regiões centro, Alentejo e norte do País e encontra-se em alargamento à região de Lisboa e Vale do Tejo. Nesta iniciativa, utilizam-se sobretudo unidades móveis que se deslocam de dois em dois anos a cada concelho, e unidades fixas, sendo enviadas cartas-convites às mulheres em idade rastreável, ou seja, dos 50 aos 69 anos.

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Ainda assim, como explica Irina Ramilo, as mulheres não precisam de estar à espera desta idade para ter a iniciativa de averiguar se está tudo bem com a mama. "Essas carrinhas são muito importantes essencialmente porque também alertam as mulheres para a questão. É um serviço de saúde pública importante, que não dispensará outro tipo de vigilância", alerta a ginecologista, referindo que as mulheres devem continuar a ir ao médico e a serem observadas "até porque, independentemente de fazerem um estudo da mama, passados três meses podem ter queixas e haver justificação para voltar a repetir".

Para Irina Ramilo, a idade recomendada para a mamografia vai sempre depender da paciente, mas às suas recomenda que seja feita, de uma forma geral, a partir dos 40 anos e anualmente. Apesar de trabalhar esta área apenas no setor privado, refere que no público faria o mesmo.

"É muito variável [de médico para médico] porque é uma questão pessoal. Na minha prática clínica, não me guio pelas orientações europeias [que recomendam a partir dos 50 anos] porque não estou estrita a uma consulta hospitalar. Mas mesmo a maioria das minhas colegas que fazem senologia [no público] não têm por hábito só fazer a partir dos 50 anos e de dois em dois anos." Neste sentido, a especialista explica que não será necessário recorrer a um médico do setor privado para ter acesso a este tipo de exame mais cedo, pois também os especialistas de medicina geral ou familiar podem recomendar fazer um rastreio não organizado como os da Liga.

"Também não vejo os médicos de medicina geral e familiar a pedir o estudo da mama só aos 50 anos"

"Claro que, por vezes, os médicos de medicina geral e familiar têm algumas regras que têm de seguir, mas também não os vejo a pedir o estudo da mama só aos 50 anos", diz.

De acordo com a especialista, as consultas de ginecologia feitas com regularidade são essenciais para as mulheres estarem atentas a estas e outras questões que possam surgir. "Nós, enquanto mulheres, temos uma certa sorte porque há várias fases da vida que nos levam a ir mais ao médico (como adolescência, gravidez, menopausa...) ao contrário dos homens, que não têm tantas oportunidade de vigilância médica", diz, referindo que é muitas vezes durante estas consultas que são pedidos outros exames complementares.

Quanto aos efeitos negativos que uma mamografia possa trazer à saúde das mulheres, a ginecologista refere que a radiação à qual uma mamografia nos expõe não é, na sua opinião, impedimento de realizar este exame todos os anos, ou com um intervalo mais pequeno, quando assim se justifique.

Mamografia só causa desconforto e não tem grandes implicações para a saúde da mulher

"Hoje em dia, é difícil falarmos de um estudo da mama com efeitos negativos em termos de radiação. Primeiro porque as máquinas tiveram uma grande evolução e depois porque agora, no nosso dia a dia, somos sujeitos a um tipo de radiação muito superior à de um estudo da mama feito uma vez por ano. Na minha opinião, acho que é exagerado achar que fazer um exame destes uma vez por ano traz demasiada radiação para aquela mama que possa ter implicações no futuro em termos de saúde daquela mulher."

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Relativamente ao que implica uma mamografia, a especialista explica que é um exame que pode causar algum desconforto, mas, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não provoca dor insuportável. "A mamografia é feita com umas pás e a mama é colocada dentro dessas pás. Pode ser um pouco desconfortável e há mulheres que têm medo por ter de fazer essa compressão, mas também é variável pois depende da mulher, da mama e do técnico que faz o exame. E também não significa que por ter um peito mais pequeno vá doer mais."

No caso do rastreio nacional, o exame radiológico é estudado por dois médicos radiologistas que, em caso de dúvida, chamam a mulher a uma consulta clínica de aferição. Se subsistirem dúvidas, a mulher é encaminhada para uma instituição hospitalar onde realizará um diagnóstico final e, caso a suspeita se confirme, o tratamento.

De acordo com a Liga, até 2020, a nível nacional, foram já realizadas mais de 4.3 milhões mamografias de rastreio e encaminhadas para diagnóstico e tratamento mais de 20 mil mulheres, o que permitiu um tratamento menos agressivo, mais eficaz e, em muitos casos, a cura total.

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