"I lived through the '70s by the skin of my nuts when the Colombos were goin' at it.", é a citação mais conhecida de Paulie (Tony Sirico) em "Os Sopranos" (que, em português, significa qualquer coisa como "sobrevivi por pouco aos anos 70 quando os Colombo estavam em guerra entre si"). Mas é também uma referência clara ao passado do ator. Antes de enveredar pela representação, Tony chegou a ser preso 28 vezes enquanto associado da "família" Colombo — uma das cinco organizações criminosas mais perigosas em Nova Iorque que ainda hoje continua em funções. A história de John Jairo Velásquez, ou Popeye, como é vulgarmente conhecido, é semelhante. Não é ator, mas a sua vida serviu de inspiração para um livro e uma série e é agora uma estrela no YouTube.

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Popeye é o único sicário sobrevivente da organização de Pablo Escobar. Em 1992 entregou-se às autoridades colombianas e confessou ter sido responsável pela morte de mais de 3000 pessoas, dos quais mais de 500 eram agentes da autoridade, num conflito sem precedentes que opôs Escobar a organizações rivais e ao estado colombiano. Acusado pelos crimes de assassinato, terrorismo e tráfico de drogas, Velásquez foi condenado a 30 anos de prisão.

Em agosto de 2014, porém, foi libertado por bom comportamento e em 2015 fundou o seu canal de YouTube com o nome Popeye Arrepentido. Com mais de 200 vídeos publicados e um número de subscritores acima de 640 mil, os vídeos mostram a vida de Popeye e o seu processo de reintegração na sociedade após 23 anos de prisão.

Velásquez, que durante anos manteve um pacto de silêncio por respeito à organização a que pertencia, assume agora "contar tudo" e diz não ter dúvidas que é a "memória histórica do cartel de Medellín". Assim, revela algumas das situações que protagonizou enquanto mão direita de Escobar, mas lança também duras críticas ao governo.

Em especial ao acordo de paz firmado em 2016 entre o estado e a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

Popeye, que se identifica como um ativista político na esfera digital, não nega uma possível candidatura ao senado. Em entrevista à estação de rádio "La W", diz que "se o ex-comandante da guerrilha, Timoleón Jiménez, pôde tornar-se congressista", também ele poderá.

O antigo assassino, contratado por Escobar, utiliza ainda a plataforma de streaming para comentar questões políticas e sociais de toda a América Latina e argumenta, naquele que é um dos seus vídeos mais populares — com mais de 1,9 milhões de visualizações —, que personalidades como Disdado Cabello, Hugo Chávez e Nicolás Maduro terão causado a morte de mais cidadãos através da Revolução Bolivariana do que ele próprio enquanto matador a soldo do grande senhor do narcotráfico colombiano.

"Eu respondi pelos meus crimes enquanto soldado leal de Pablo Escobar, mas você não respondeu pelos mortos decorrentes da revolução levada a cabo pela Esquerda política do seu país", disse, dirigindo-se a Cabello, ex-presidente da Assembleia Nacional da Venezuela.

O sucesso de John Velásquez é tal que o ex-criminoso conta já com um livro publicado que, em fevereiro de 2017, foi adaptado para uma série televisiva de 69 episódios produzida pela estação colombiana "Caracol". "Surviving Escobar — Alias JJ" está disponível na Netflix desde maio de 2017 e conta a história de Popeye e a forma como este sobreviveu à organização de Pablo e ao tempo de prisão.

Face ao mediatismo que tem recebido, são vários os cidadãos que olham com desconfiança para a honestidade de Popeye. Especialmente aqueles que perderam familiares nos vários atentados levados a cabo pelo Cartel de Medellín na década de 90.

O salto para a ribalta veio cativar um nicho que mantém um fascínio mórbido por todo o legado deixado por Pablo Escobar e os seus soldados. Mas diz Popeye que apesar de todos os seus vídeos começarem com a imagem do disparo de um bala, este não pretende glorificar a vida do crime, mas sim "cativar os mais jovens a seguir o canal."

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