Atravessar ilegalmente a fronteira entre o México e EUA, ser torturado física e psicologicamente durante horas ou visitar um museu que foi criado com o intuito de chocar — tanto que na sala nazi há um abajur feito de pele humana. Numa altura em que cada vez mais viajantes procuram experiências diferentes, surgem propostas turísticas que têm tanto de insólito como de aterrador. David Farrier propôs-se a descobrir isso mesmo em "Turismo Macabro", a nova série da Netflix.

Ao longo de oito episódios, cada um com cerca de 40 minutos, o jornalista neozelandês de 35 anos viaja pelo Japão, EUA, Europa, Ásia Central, África e Sudeste Asiático com o intuito de participar em experiências turísticas que prometem ferir suscetibilidades. São os chamados locais macabros, onde não há limites para o perigo (David Farrier pôs a sua vida em risco várias vezes), nem tão pouco para o horror.

"Pessoalmente estava muito intrigado", explicou o jornalista à revista britânica "Radio Times", quando questionado sobre a perspetiva de viajar para lugares macabros. "Sou aquele tipo de pessoa que nunca percebeu o objetivo de passar férias em bons resorts ou junto à praia, porque fico facilmente aborrecido."

Em Fukushima e num local de testes no Cazaquistão, David Farrier e a sua equipa de produção enfrentaram elevados níveis de radiação — que excedem em muito a dose recomendada. O jornalista admite que ainda não teve coragem de ir ao médico avaliar a radiação no seu corpo. "[Eu e a equipa de "Turismo Macabro"] brincamos sobre ter uma reunião daqui a 20 anos, quando estivermos todos com cancro", conta com uma gargalhada. "Espero que não seja o caso."

Além das situações de perigo, há experiências que roçam o moralmente questionável. É o caso da tour realizada em Medellín, na Colômbia, por um dos assassinos de Pablo Escobar, Popeye. Ou o de um campo de tiro militar no Camboja onde é possível, pelo preço certo, disparar contra uma vaca com uma RPG — David Farrier recusou-se a fazê-lo.

"Descobrimos que é possível disparar sobre o que quer que seja desde que se pague, essencialmente."

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Mas "Turismo Macabro" procura afastar-se de tomar posições éticas. O objetivo é mostrar a realidade destas experiências tal como elas são, sempre com respeito e sensibilidade cultural. Um dos locais visitados pela série é Aokigahara, um bosque muito procurado por pessoas que se querem suicidar. No início deste ano, o youtuber Logan Paul publicou um vídeo no local onde apareciam imagens de um corpo. O jovem de 23 anos foi arrasado nas redes sociais e impedido de publicar vídeos durante um mês.

David Farrier assistiu a esta polémica à medida que se desenrolava, tendo já naquela altura filmado e editado no local. Diferenças? A abordagem, garante o jornalista.

"Logan Paul é provavelmente um dos seres humanos mais desprezíveis que alguma vez vi em vídeos. Acho que lhe falta sensibilidade cultural — ele simplesmente carece de respeito humano básico na sua abordagem, e penso que toda a nossa equipa adotou uma linha muito diferente."

Lugares associados à morte, desastres, tragédias ou grande sofrimento. A MAGG escolheu as 7 visitas e tours mais chocantes de "Turismo Macabro", e mostra-lhe como é que pode fazer cada uma delas.

Visitar a prisão de Pablo Escobar com Popeye

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No primeiro episódio de "Turismo Macabro", David Farrier visita a La Catedral, em Medellín (Colômbia), onde Pablo Escobar esteve preso entre junho de 1991 a julho de 1992. O passeio turístico é liderado por Popeye, um dos principais assassinos do narcotraficante. Responsável por mais de 300 homicídios, incluindo o da sua própria namorada (Escobar acusou-a de ser uma traidora, Popeye matou-a), Jhon Jairo Velásquez, assim é o seu verdadeiro nome, era uma verdadeira máquina mortífera. E David Farrier fez este passeio com ele, juntamente com outros curiosos.

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Em maio deste ano, Popeye foi preso em Medellín sob a acusação de extorsão e conspiração criminosa. Portanto, até ser libertado vai ser difícil tê-lo como líder da excursão. Ainda assim, não faltam propostas na cidade para participar em tours relacionadas com Pablo Escobar. A Transporter Medellin, por exemplo, tem nove propostas diferentes, incluindo uma para conhecer a prisão La Catedral. Os preços das excursões começam nos 104€ por pessoa.

Atravessar ilegalmente a fronteira México-EUA

Ser perseguido, ameaçado com armas e verbalmente abusado enquanto simula que está a tentar atravessar a fronteira do México para os EUA ilegalmente. David Farrier participa nesta experiência no primeiro episódio da série, que começa às sete da manhã com o jornalista e outros participantes da tour deitados no chão. Um homem mascarado grita-lhes, exige-lhes que o tratem por comandante e recusa-se a sair da personagem.

Para o responsável por esta tour, um ex-contrabandista de pessoas, o objetivo é mostrar que a travessia da fronteira não é segura, bem como desencorajar os moradores e aumentar a consciencialização. De facto, e como podemos ver pelas imagens de "Turismo Macabro", não é: a travessia é perigosa, há tiros e até um suposto assalto por criminosos — algo que ao que parece acontece com frequência. Pessoas morrem frequentemente a tentar fazer esta travessia, e é isto que esta tour pretende mostrar.

Então e como é que pode participar nesta experiência? O Parque EcoAlberto organiza esta tour desde 2004, na sua extensa área com mais de mil hectares. A atividade dura três horas e inclui um percurso de 12 quilómetros, onde não falta a perseguição pela polícia de fronteira. Há um mínimo de 25 pessoas, a experiência só acontece aos sábados e custa 299€ por pessoa.

Passear pela floresta dos suicídios

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No segundo episódio da série, David Farrier visita Aokigahara, a floresta perto do Monte Fuji, no Japão, procurada por muitas pessoas para cometer suicídio. É o segundo local do mundo onde mais pessoas escolhem pôr termo à vida, a seguir à ponte Golden Gate, nos Estados Unidos da América. Nas entradas há várias placas a pedir às pessoas que não cometam esse ato, mas infelizmente a polícia encontra todos os anos mais de 100 corpos neste local.

De acordo com "Turismo Macabro", um número crescente de turistas está a visitar a floresta atraída pelas pessoas que ali escolhem morrer. O guia que acompanha David Farrier explica que o local se tornou conhecido devido à popularidade de um livro dos anos 60, "Mar Negro das Árvores". Duas das suas personagens cometem suicídio nesta floresta. Existem várias empresas turísticas que organizam tours pela floresta que, apesar da sua história negra, é de uma beleza impressionante. A Go Voyagin, por exemplo, tem programas a partir dos 35,92€ por pessoa.

Visitar uma cidade abandonada (e radioativa)

Turismo nuclear. Já existe este termo e, depois do sucesso de muitas empresas turísticas a organizar tours em Chernobyl, a ideia espalhou-se a outras partes do mundo. É o caso de Tomioka, uma cidade situada a dez quilómetros da central nuclear de Fukushima. A 11 de março de 2011, um terramoto seguido de um tsunami levou à destruição de três dos seis reatores nucleares da central. Foi o maior desastre nuclear desde o acidente nuclear de Chernobyl.

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Tomioka não foi afetada pelo tsunami, mas o terramoto e a nuvem nuclear transformaram-na numa cidade fantasma. Apesar dos esforços do governo em afirmar que é seguro para os moradores voltarem, ninguém parece estar recetivo à ideia. E talvez tenham razão, considerando que os contadores Geiger, utilizados para contabilizar a radioatividade, apitam ferozmente na tour realizada por David Farrier.

Existem vários operadores turísticos que organizam visitas a Tomioka. A Real Fukushima, por exemplo, organiza visitas também a Haranomachi, Odaka e Namie.

O museu mais perturbador, horrível e ofensivo do mundo

A Cadeia de Crime de Littledean fica em Littledean, no condado de Gloucestershire, no Reino Unido. A uma hora de carro de Bristol, o museu fica numa prisão com 200 anos e reúne uma coleção descrita como perturbadora, horrível e profundamente ofensiva. Há escravos com cordas ao pescoço, Ku Klux Klan (movimentos dos EUA que defendem, entre outras ideias, a supremacia branca) com bonecos Action Man negros nas mãos e até um abajur feito de pele humana.

A entrada custa 11,20€.

Assistir ao enterro de uma pessoa que já morreu há meses — ou anos

A aldeia Toraja, na Indonésia, é o auge para um turista macabro. Pelo menos é o que garante David Farrier no sexto episódio da série "Turismo Macabro", que logo a seguir acrescenta que é aqui que se realizam alguns dos mais elaborados e incomuns rituais funerários no mundo. Esta tradição secular consiste em aguardar meses, às vezes até anos, até enterrar os membros da família que morreram. As famílias guardam os corpos em casa e cuidam deles como se estivessem apenas doentes — aliás, referem-se a eles precisamente como "pessoas doentes". Até têm um bacio para as necessidades no quarto.

Os Torajans acreditam que a morte não é um evento súbito e abrupto, mas um processo gradual em direção à vida após a morte, conhecida como Puya, a terra das almas. As poupanças de uma vida são gastas nas cerimónias fúnebres, altura em que os cadáveres deixam finalmente as casas e são enterrados. O ritual fúnebre inclui uma grande festa e o sacrifício de animais.

Não é fácil conseguir organizar uma excursão para assistir a este ritual, mas a Toraja Tours and Funeral Ceremony é uma das opções que aparece listada nos resultados do Google. O email do guia turístico, Arru, é arruantangdilintin@yahoo.co.id.

Ser torturado física e psicologicamente numa casa assombrada

Os fantasmas são o menor dos seus problemas na McKamey Manor, uma experiência criada por Russ McKamey em Summertown, Tennessee, e Huntsville, Alabama. David Farrier passou por este filme de terror idealizado pelo ex-militar da Marinha, mas acabou por desistir a meio. Não aguentou mais.

Faz sentido. Com a ajuda de atores, cenários, adereços elaborados e uma equipa de vídeo que regista todos os momentos, os participantes são torturados física e psicologicamente. Amarrados, amordaçados, enfiados em baldes de água e cobertos de uma substância que parece sangue, quem se sujeita a esta experiência termina devastado emocionalmente e com alguns ferimentos.

Para participar nesta experiência, basta aceder ao site da McKamey Manor. Os preços não estão disponíveis, mas pode preencher o formulário de contacto e falar diretamente com Russ McKamey.

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