Na segunda-feira, 14 de maio, a Organização Mundial de Saúde lançou um plano para ajudar os países a abolirem as gorduras trans da alimentação. A meta proposta é a quantidade zero, até 2023. De acordo com os dados avançados pela OMS, este tipo de alimento é responsável pela morte de mais de 500 mil pessoas anualmente, por potenciarem o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, não vê motivos para Portugal não chegar ao objetivo delineado. O caminho poderá ser semelhante ao que o açúcar está a percorrer e que inclui taxas para regular a quantidade presente nos alimentos. O trabalho está nas mãos do Estado e da indústria, mas os cidadãos não devem ser postos de parte. Devem ser consciencializados para os problemas que estão na origem do consumo de alimentos ricos neste tipo de gordura. Saiba tudo sobre ela.

O que são gorduras trans?

“São um tipo de ácidos gordos presentes em alimentos, essencialmente naqueles que são transformados industrialmente”, diz Alexandra Bento. Formam-se durante o processo de produção dos alimentos, essencialmente através das altas temperaturas que fazem com que haja alteração da estrutura da molécula da gordura.

Em que produtos é que estão as gorduras trans?

Há as trans produzidas industrialmente e as trans de origem natural. As primeiras estão no imenso universo das bolachas, produtos de pastelaria e cereais de caixa. Também estão nas margarinas, vegetais, batatas fritas, comida pré-cozinhada e fast food. As segundas estão naturalmente presentes em alguns alimentos, como na carne e lácteos com origem em animais ruminantes.

Há uma melhor do que outra?

Não. É a mesma coisa. A gordura é igual. Mas as quantidades variam: “Estão presentes em maior quantidade nos produtos que são produzidos industrialmente.”

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Como é que se consegue identificar a presença de uma gordura trans num rótulo?

A legislação não proíbe a presença de gorduras trans, “porém tem de estar indicada a sua presença na lista de ingredientes”.

Repare nas embalagens, até das bolachas do corredor de alimentos dietéticos do supermercado. Se incluirem as expressões gorduras trans, gordura parcialmente hidrogenada ou a palavra shortening, repense a sua escolha.

“Quanto mais cedo aparecer na lista de ingredientes, maior será a quantidade presente naquele produto”, explica. “Se aparecer até ao quarto lugar, significa que a quantidade de gordura trans é muito elevada”. No entanto, é importante não esquecer o efeito cumulativo: as gorduras trans estão em tantos alimentos que é possível consumir vários no mesmo dia, o que aumenta exponencialmente a quantidade no organismo. E quanto mais, pior.

Mas estão só em produtos embalados?

Não estão. Os bolos que vê em vitrines também são ricos nesta gordura. “Um estudo recente feito em Portugal com o apoio da OMS constatou a presença evidente das gorduras trans em alimentos portugueses não embalados como os bolos de pastelaria.”

Podemos gerar gorduras trans em casa?

Sim. Se utilizar, por exemplo, várias vezes o mesmo óleo para fritar, corre o risco de alterar a molécula dos ácidos gordos, que gerará então esta gordura perigosa.

Qual é o pior: o açúcar, o sal ou as gorduras trans?

“Venha o diabo e escolha. Não há um pior do que o outro”, diz. “Tudo depende da quantidade consumida. O açúcar não deverá ser superior a 10% do valor energético total, sendo que a OMS já veio dizer que a dose ideal é de 5%, ou seja, por volta de 25 gramas. No caso das gorduras trans, este valor não deverá ser superior a 1% do valor energético total. É uma quantidade ínfima.”

O que é que a ciência já provou relativamente ao efeito destas gorduras no organismo?

A maior vítima destes ácidos gordos transformados é o coração. “A massificação dos produtos industriais é relativamente recente e portanto sabe-se, e a evidência é forte, que indivíduos que consomem produtos alimentares com gorduras trans acabam por ter problemas de saúde: as gorduras podem ficar depositadas nas artérias, o que leva a problemas cardiovasculares, como paragens cardíacas ou acidentes vasculares cerebrais”, explica.

O consumo excessivo destes produtos está também na origem do excesso de peso e da obesidade, nomeadamente com o aumento da produção de gordura visceral, que “é a que fica acumulada na região abdominal” e que também está associada ao aumento do risco de doença cardiovascular “e, evidentemente, da mortalidade.”

Estudos sugerem também que as gorduras trans contribuem para o efeito inflamatório, aumento do colesterol mau (LDL) e diminuição do bom (HDL), que, novamente, aumentam o risco de doenças de coração.

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É possível chagarmos à meta "zero" recomendada pela Organização Mundial de Saúde?

“É possível, até porque outros países já o fizeram”, diz, numa alusão à Dinamarca, Austria, Hungria, Noruega e Suíça. "Em 2009 a OMS já tinha aconselhado a redução destas gorduras e já tinha dito que o caminho ideal é para a quantidade zero.”

A nutricionista acredita que Portugal também vai ser capaz. “Se formos ler aquilo que está na Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável (EIPAS), vemos uma série de medidas nesse sentido.”

Para a bastonária, está "bem mostrado que o Estado vai monitorizar as gorduras trans em alguns produtos mais complicados, como cereais, bolachas, batatas fritas, margarinas e cremes de chocolate para barrar”, diz, indicando duas formas de diminuir a sua presença na alimentação.

Primeiro, é importante que a gordura utilizada industrialmente não seja trans: “Se se controlar a gordura de origem industrial que é vendida ao fabricante de produtos alimentares [o shortening], passamos a ter o processo muito mais controlado, porque, aquilo que acontece, é que as trans presentes no produto final ficam a dever-se muito à que é utilizada para a produção destas bolachas, produtos de pastelaria, cereais de pequeno-almoço."

Depois, claro, é preciso alterar os processos, de modo a que, no seu decorrer, estas gorduras hidrogenadas não sejam produzidas.

“Até as regras da União Europeia mudarem de modo a que haja níveis máximos, é fundamental que haja um compromisso entre a indústria e o Estado, a quem cabe adotar medidas segundo as recomendações da Organização Mundial de Saúde, que é a autoridade que emana recomendações de acordo com a melhor evidência científica.”

Alexandra Bento adianta que já estão a ser feitos acordos entre o Ministério da Saúde e a indústria alimentar para se fazer a adequação dos perfis nutricionistas em determinadas categorias de alimentos.

Além da indústria, é preciso atuar noutra frente: na dos cidadãos. Para a especialista, é fundamental “consciencializá-los para o problema”, educando-os no sentido de saberem em que alimentos é que estão a consumir esta gordura e como é que o rótulo nos informa para a sua presença.

Desta forma, “o mal não fica sanado, mas fica muito controlado.”

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