No mesmo dia em que Portugal ultrapassou os três mil novos casos diários de infeção por COVID-19, Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e também um dos especialistas ouvidos pelo governo, mostra-se pouco surpreendido. E deixa o aviso de que "deveremos atingir os cinco mil casos lá para o meio de novembro", em entrevista ao jornal "Público". Sobre quando se atingirá o pico de contágios desta segunda vaga, no entanto, as incertezas são muitas.

Atingir o pico significa, em condições normais, assistir a um decréscimo gradual de casos de infeção. Mas esse cenário ainda não está próximo, segundo explica Carmo Gomes. "Estamos com um problema, não conseguimos ver o pico. O pico neste momento é mais infinito, o R não estabiliza", referindo-se ao indicador que tem como objetivo definir o número médio de contágios decorrentes do contacto com uma pessoa infetada.

E só é possível considerar-se que o pico foi atingido quando esse indicador — o R, portanto — se aproximar de 1. "Desde 23 de setembro que o R vem a aumentar devagarinho. De momento, parece ter estabilizado, mas precisamos de mais uns dias, para confirmar se é assim, e para que ele comece a caminhar em direção a 1. Quando isso acontecer, conseguiremos saber qual é o pico e quando é que ele vai acontecer", continua. Neste momento, o R está fixado em 1,24.

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Quanto ao facto de, atualmente, se verificar um maior número de casos na região Norte do País, Manuel Carmo Gomes diz que se trata da evolução "normal" de uma epidemia, mas que, nem por isso, se pode pensar que a existência de mais casos num local desvaloriza um número menor noutra zona do País.

"Se de repente há um surto num local, como o Algarve, por exemplo, começamos a ver os casos a subir ali, enquanto podem estar a descer em Lisboa. São ciclos normais numa epidemia. Não podemos é pensar que na nossa região já está bom, que o problema já passou. Não é nada disso", conclui.

Nas últimas 24 horas, Portugal registou mais 16 mortes e 3.270 novos casos de infeção pelo novo coronavírus segundo os dados divulgados na quinta-feira, 22 de outubro, pela Direção-Geral da Saúde. No total, o País regista agora 2.245 mortes e 109.541 casos de contágio, naquele que foi o pior dia de sempre em número absoluto de casos desde o início da pandemia.

A grande maioria dos novos casos foram registados na região Norte do País (1.954), enquanto Lisboa e Vale do Tejo registou 936 casos.