Quando Neymar deixou o Barcelona rumo ao PSG, o clube espanhol recebeu mais de 220 milhões de euros e o jogador brasileiro protagonizou a maior transferência de sempre no futebol masculino. Já a maior transferência de sempre no mercado do futebol feminino contou com o valor máximo de 350 mil euros, quando Pernille Harder trocou o Wolfsburgo pelo Chelsea, avança o jornal "Público". A discrepância é clara e a justiça discutível, mas foi precisamente pela vontade de lutar pela igualdade de oportunidades que Raquel Sampaio, antiga jogadora do Estoril, decidiu fundar, em agosto, a Teammate Football Management, a primeira agência desportiva portuguesa exclusivamente dedicada ao futebol feminino.

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À MAGG, Raquel Sampaio explica tudo o que (ainda) falta mudar no universo do futebol feminino português e de que forma a Teammate Football Management pode ser crucial para a evolução e profissionalização da vertente feminina da modalidade. Afinal de contas, uma jogadora consegue (ou não) viver exclusivamente do futebol em Portugal? Já lá vamos.

De jogadora do Estoril para diretora desportiva de futebol feminino no Sporting Clube de Portugal, passando, posteriormente, por uma agência de futebol masculino, Raquel Sampaio diz que criar a Teammate Football Management foi um processo "natural". A ex-jogadora explica que, à data em que saiu do cargo de diretora desportiva, o futebol feminino começava a ganhar outra relevância em Portugal. "Estamos a falar de 2016, portanto, uma realidade bem próxima", conta.

Raquel Sampaio
Raquel Sampaio, fundadora da Teammate Football Management créditos: Teammate Football Management

"Sentiam que estavam a ter as coisas de ‘mão beijada'"

Raquel explica que o crescimento da agência foi tão rápido que as jogadoras estranhavam todos os pequenos serviços que lhes eram fornecidos. "Como assim vou ter alguém para me lavar o equipamento e uma casa paga pelo clube?" diziam.  Segundo a fundadora da Teammate Football Management, "ter tudo isto ‘de mão beijada’ foi, para elas, sinónimo de desconfiança. Portanto, na parte do agenciamento igual. "Ouvir alguém dizer ‘vou cuidar da tua carreira’ era estranho para elas. Quando começámos, desconfiavam de tudo."

"Para uma atleta chegar ao topo, necessita de um conjunto de pessoas à sua volta que a ajude a trabalhar determinados aspetos – sejam físicos, psicológicos ou táticos", remata a ex-diretora desportiva do Sporting, que explica que apenas cinco em cerca de 70 equipas nacionais de futebol feminino são capazes de oferecer acompanhamento completo às jogadoras.

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"Por isso, [na Teammate Football Management] garantimos que as atletas que não têm estes serviços possam usufruir deles a partir da agência e procuramos garantir, para aquelas que já os têm, que os nossos são um complemento extra", completa. Raquel esclarece que, enquanto num clube o objetivo é trabalhar a equipa a nível coletivo, na agência o foco é mais individual. 

Afinal, qual é o papel de uma agência desportiva de futebol feminino?

A Teammate Football Management já conta com uma treinadora e 23 jogadoras agenciadas e, à MAGG, Raquel Sampaio avança que não procura alargar muito mais o número de atletas da agência. "Neste momento, tentamos que esta agência, que nasceu agora, seja mais restrita – para que as nossas atletas se sintam especiais", diz.  Segundo a fundadora, a nova agência procura distinguir-se pelo tipo de acompanhamento que oferece e pela forma personalizada como trabalha, e reforça que cada jogadora tem as suas próprias necessidades, sendo que cada caso é único.

"Representar uma atleta é estar no seu dia a dia. É tratar de tudo o que não tem que ver com o treino em si. Trabalhamos de forma a que as atletas só precisem de se preocupar em jogar e em treinar. Tratamos de toda a parte ‘chata’, seja de negociações com marcas ou com clubes – toda a parte burocrática, digamos", explica Raquel Sampaio.

"A ideia é que se possam focar nos treinos, com a cabeça livre. Sem terem de pensar nos clubes que as estão a contactar, no valor que devem negociar, se é (ou não) uma boa opção, por aí. Neste caso, a agência trata dessa parte, sempre em concordância com as atletas, claro", acrescenta.

Rute Costa
Raquel Sampaio com a jogadora Rute Costa créditos: Teammate Football Management

Em termos práticos, a Teammate Football Management alberga numa única agência todos os serviços de que uma jogadora precisa para "chegar ao topo", com base na premissa de que uma atleta precisa de muito mais do que talento para singrar no universo do futebol feminino.

Há, portanto, necessidade físicas, emocionais e psicológicas a satisfazer e a agência de Raquel Sampaio reúne especialistas que prestam um vasto leque de serviços. Da nutrição à psicologia, da análise de performance individual à preparação física, passando pelo tratamento da imagem das atletas ou, ainda, pelo apoio à gestão das suas redes sociais.

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"Hoje em dia, a imagem é muito importante. E a imagem pública também. Muitas delas não sabem o que postar, quando e como o fazer, por exemplo. Por isso, também estamos nessa fase de (re)educar", esclarece a fundadora da agência.

"As atletas são figuras públicas"

"Neste momento, as jogadoras não são contratadas por aquilo que jogam, mas por aquilo que são. E como é que as marcas e clubes as avaliam? Não é com uma chamada. Primeiro, vão pesquisaR as redes sociais e tentar perceber quem é aquela atleta. Se tem feedback negativo, o que é que posta, como é que se expõe e, portanto, neste momento, as atletas são figuras públicas", explica Raquel Sampaio, esclarecendo que a presença digital se revela crucial.

Segundo a fundadora, há jogadoras que só começaram a utilizar redes sociais depois do crescimento significativo da vertente feminina da modalidade, em 2016, e, por isso, não têm a melhor perceção daquilo que devem (ou não) expor online.

"É muito difícil mudar hábitos e estamos no processo de reeducar as jogadoras mais velhas e incutir certos comportamentos às mais novas" – que, ao contrário do que se pensa, não são as maiores adeptas da exposição. Não ligam muito às redes sociais ou, pelo menos, não gostam da exposição. Optando, até, por perfis privados, conta.

No que à negociação de patrocínios diz respeito, as redes sociais são fundamentais e Raquel Sampaio revela que as jogadoras mais novas, que evitam a exposição, não têm consciência disso. "Elas querem patrocínios, mas sem dar nada em troca. E não pode ser."

"É impossível viver do futebol feminino em Portugal": mito ou realidade?

Raquel Sampaio explica que, de facto, é possível viver do futebol feminino em Portugal, mas não a longo prazo. A fundadora da agência avança que, em clubes profissionais, o salário chega para viver no presente, mas não é suficiente para garantir um futuro.

"A carreira é muita curta. Por isso, também oferecemos um serviço que foca o pós-carreira – que, claro, é um tema sensível. [No caso do futebol feminino], não é como no futebol masculino, em que os jogadores conseguem poupar uma boa quantia de dinheiro e, por exemplo, investir em negócios próprios, depois de deixarem de jogar", conta a ex-jogadora do Estoril, com a ressalva de que quando a carreira futebolística termina, as atletas têm de entrar no mercado de trabalho de outra forma.

A Teammate Football Management trabalha, ainda, com a Sports Embassy – uma empresa, de que Inês Alves Caetano é CEO, que se foca transição da carreira futebolística das atletas "no relvado" para o mercado de trabalho.

"A ideia é perceber o que é que querem seguir. É verdade que muitas jogadoras têm uma licenciatura, mas se calhar tiraram o curso quando tinham 20 anos e agora já não se identificam, por exemplo. Tudo isto é um processo e tem de ser trabalhado, para as preparar para a vida real, pós-futebol", esclarece.

Raquel Sampaio destaca o facto de as jogadoras terem direitos de maternidade salvaguardados na nova regulamentação da FIFA, publicada em 2020 – que defende o período mínimo de 14 semanas de licença de maternidade, remuneradas a dois terços do salário base – como um passo importante no universo do futebol feminino.

No entanto, a fundadora da Teammate Football Management confessa que a profissionalização da Liga BPI seria um passo crucial para tornar o futebol feminino "mais atrativo e competitivo".

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