Se os turistas ingleses ficaram incrédulos pelo facto de o governo britânico ter excluído Portugal da lista de países que fazem parte do corredor aéreo — corredor esse que não obriga um período de quarentena de 14 dias no regresso ao Reino Unido — mais ainda ficou o setor do turismo em Portugal, especialmente no Algarve, onde os turistas britânicos representaram 9.4 milhões de dormidas e 3.286 milhões de euros em receitas no ano passado, segundo os dados do Turismo de Portugal.

A dependência do turismo britânico, é reconhecida pelo ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, Pedro Siza Vieira que afirmou que "é necessário dirigir uma atenção muito especial à região do Algarve", de acordo com a RTP, situação que já levou à disponibilização de um crédito às micro empresas que pode ser convertido em fundo perdido, se forem atingidos critérios em termos de manutenção do emprego.

O emprego é também outra das áreas sensíveis nesta altura no Algarve. Só no mês de maio a COVID-19 deixou quase 28 mil pessoas sem emprego na região, sobretudo no setor da hotelaria, número que pode aumentar com a decisão britânica conhecida esta sexta-feira à tarde, 3 de julho. A medida implica que os britânicos que viajem para Portugal Continental, Madeira — dois dos principais destinos dos ingleses em Portugal — ou Açores têm de cumprir quarentena obrigatória de 14 dias à chegada ao Reino Unido, o que faz com que os turistas se afastem do território nacional.

"O impacto é enorme não só para o turismo, como para a riqueza da região e do próprio país", reagiu no mesmo dia da decisão britânica o presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Elidérico Viegas, segundo o "Diário de Notícias", que cita a agência Lusa.

Passaram cinco dias desde que a decisão foi anunciada, e a MAGG foi perceber qual o impacto da medida até ao momento em várias unidades hoteleiras da região do Algarve.

Tivoli Hotels & Resorts

No Tivoli Hotels & Resorts, um grupo português com vários hotéis espalhados em Portugal e no Brasil, os turistas britânicos nos hotéis do Algarve representaram no ano passado 45% dos hóspedes, quase metade da ocupação. Este ano a percentagem será certamente diferente, situação que "terá um enorme impacto não só na atividade dos seis hotéis do grupo no Algarve, mas também na economia da região", refere Jorge Beldade, diretor regional de operações para o Algarve, à MAGG.

Já antes da medida anunciada pelo Reino Unido na sexta-feira, 3, o grupo viu o número de reservas de britânicos decrescer, "prevendo-se agora uma queda maior", avança o responsável. No entanto, Jorge Beldade revela que nenhuma unidade está em risco, dada a dimensão da Minor Hotels, e revela perspetivas animadoras.

"O turismo de proximidade é estratégico para o grupo que aposta fortemente no mercado nacional, que representa a maior fatia do total de dormidas nas nossas unidades, e no mercado espanhol que significa uma enorme oportunidade agora que as fronteiras já estão abertas”, conclui o diretor regional de operações para o Algarve.

A fronteira luso-espanhola esteve encerrada três meses devido à COVID-19, mas foi reaberta a 1 de julho e marcada pela presença do Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, do rei de Espanha, Felipe VI, do primeiro-ministro português, António Costa, e do chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, em Badajoz e Elvas.

NAU Hotels & Resorts

O panorama é animador: "Nenhum hotel do Grupo NAU Hotels & Resorts se encontra em risco de fechar", revela o CEO do NAU Hotels & Resorts, Mário Azevedo Ferreira. Este grupo, com oito unidades no Algarve, tem tido várias reservas de turistas portugueses e de "mercados sem restrições", indica o responsável.

"Reservas provenientes do Reino Unido estão estagnadas, pois mantém-se indefinição sobre decisão do governo do Reino Unido para Agosto e meses seguintes", diz o CEO Mário Azevedo Ferreira, acrescentando que o NAU Hotels & Resorts já tinha tido cancelamentos para as datas até 15 de julho e que depois da decisão do governo britânico tiveram cancelamentos para a segunda quinzena de Julho.

Apesar de a exclusão de Portugal do corredor aéreo não ter consequências avultadas no NAU Hotels & Resorts, o CEO reconhece que é devastador para vários setores adjacentes: "O impacto na hotelaria do Algarve é devastador, mas terá ainda maior impacto nas atividades conexas à hotelaria — transporte aéreo, transferes, excursões, restaurantes e bares, animação de praia, entretenimento diurno e noturno, e muitas outras. O desemprego continuará a aumentar e provocará muitas insolvências empresariais e pessoais", aponta.

Ponto de situação no Alentejo

Tal como em outras unidades hoteleiras, no Craveiral Farmhouse, em São Teotónio, a poucos quilómetros da Zambujeira do Mar, o mercado nacional tem tido uma grande expressão no número de reservas. Neste alojamento de turismo rural "a decisão do Reino Unido não originou muitos cancelamentos", revela Pedro Franca Pinto, responsável pelo Craveiral Farmhouse, à MAGG.

O mesmo indica que não estão a disponibilizar a capacidade máxima do alojamento devido às medidas relacionadas com a COVID-19, o que faz com que as reservas estejam praticamente completas: "Há dias em que já não temos", refere o responsável.

Para já o Craveiral Farmhouse não está em risco, mas tudo vai depender do evoluir da pandemia e dos apoios que venham a ser dados ao setor do turismo, reflete Pedro Franca Pinto.

Casa Modesta

Localizado no concelho de Olhão, este alojamento de turismo rural não está a sentir o efeito da exclusão de Portugal do corredor aéreo. Quem o diz é um dos proprietários da Casa Modesta, Carlos Fernandes, que revela à MAGG: "Até ao momento, não surgiu nenhum cancelamento de reservas com esta origem". Até agora são os portugueses que ocupam grande parte das reservas.

"Temos sido destacados e acarinhados pelos portugueses e temos também reservas de outras nacionalidades europeias. Também tomamos todas as medidas necessárias para garantir a segurança dos nossos hóspedes e equipa", diz Carlos Fernandes, acrescentando que essas medidas estão em linha com o selo Clean & Safe.

No caso da Casa Modesta o mercado inglês nunca ocupou um lugar de destaque nas reservas, razão pela qual esta unidade de turismo rural não se encontra em perigo de fecho. "Consideramos que deve haver um maior investimento do sector na promoção do País e especialmente do Algarve a novos mercados", conclui o proprietário.

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Apesar do panorama não ser desanimador para estas unidades hoteleiras, para outras, que dependem maioritariamente dos turistas britânicos, ainda há esperança. Isto porque está prevista uma revisão da lista de países considerados destinos seguros no dia 27 de julho.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, mostrou-se confiante quanto à sobrevivência do turismo do Algarve depois reunir com representantes do sector e com autarcas em Monte Gordo, no concelho de Vila Real de Santo António, Algarve, avança a RTP, e apesar de reconhecer prejuízos, salienta que é preciso arregaçar as mangas e encontrar alternativas.

TEIMA Alentejo SW

No caso do alojamento de turismo rural TEIMA Alentejo SW, no Vale Juncal, no Alentejo, o cenário não é tão preocupante. "Surgiram uns cinco ou seis cancelamentos, mas não temos muitos clientes ingleses. Os nossos clientes são holandeses, belgas, suíços, austríacos, alemães", refere à MAGG Luísa Botelho, proprietária, acrescentando que os turistas ingleses têm um impacto muito reduzido neste caso.

Apesar de muitos dos estrangeiros terem cancelado a reserva ou adiado para outubro, Luísa revela que atualmente a taxa de ocupação é elevada: "Entretanto, o tempo foi passando e os portugueses foram ocupando as reservas e agora já não tenho", diz.

A proprietária lembra que estiveram fechados dois meses e meio, "o que foi um grande rombo", diz, mas neste momento a TEIMA Alentejo SW não está em risco de fechar.

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