Lisa Montgomery, a única mulher atualmente no corredor da morte federal nos EUA, tinha como certo que seria a 12 de janeiro que iria morrer. Só que a aplicação da pena foi alterada e só poderá ser remarcada a partir de 1 de janeiro e que, a acontecer, será para depois da tomada de posse de Joe Biden — que se opõe à pena de morte no país.

A mulher está no corredor da morte desde 2004, altura em que foi condenada por assassinar uma mulher grávida de 23 anos no noroeste do Missouri. Antes de consumar o crime, a vida que teve foi repleta de abusos, dor e angústia. O testemunho foi partilhado pela meia-irmã, Diane Mattingly, com quem manteve contacto até aos 8 anos — altura Mattingly foi entregue aos serviço de proteção de menores.

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Contactada pela defesa de Montgomery, que pretendia encontrar provas suficientes para evitar que a pena de morte fosse aplicada, a meia-irmã com quem não tinha contacto há 33 anos revelou o clima de tensão e maus-tratos que ambas sofreram às mãos da madrasta com quem ambas viviam. Num dos relatos, contou como a esta a obrigou a dormir nua na rua ou a comer cebolas cruas como castigo.

Por diversas noites, recordou a meia-irmã à defesa de Montgomery, citada pela revista "Slate", era abusada pelos amantes da madrasta. Quando os agentes dos serviços de proteção de menores souberam dos abusos que esta sofria, levaram-na de casa e durante a viagem de carro vomitou por diversas vezes por saber que, a partir daquele momento, jamais seria capaz de proteger Montgomery, que ficaria sozinha com a madrasta.

Em 2005, a altura do crime, Montgomery atacou uma jovem de 23 anos chamada Bobbie Jo Stinnett e terá, alegadamente, cortado a criança do ventre da mãe e passado a assumi-lo como seu. Durante as investigações, todas as pistas apontavam para a mulher que depressa foi detida pela polícia — a quem cedeu todas as provas do crime.

Nos cinco dias seguintes ao crime macabro que fez manchetes em vários jornais do país, Montgomery perdeu a memória e revelou não se lembrar de nada do que tinha acontecido. No entanto, e segundo os psicólogos que a acompanharam enquanto esteve detida, sempre se declarou culpada. Depois de uma análise minuciosa aos comportamentos da arguida, os especialistas concluíram que Montgomery tinha várias doenças de foro mental e que, por isso, o seu destino deveria ser uma clínica psiquiátrica.

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No entanto, a pena atribuída foi a pena de morte. Em jeito de recurso, uma equipa de especialistas juntou-se para tentar provar como as décadas de abuso tinham estado na origem do crime. Para isso, advogados e psicólogos juntaram-se a investigadores privados para tentar perceber a verdadeira história de Lisa Montgomery.

O que encontraram, chocou-os. David Kidwell, primo de Montgomery, contou aos especialistas que, durante a infância, Lisa revelou ter sido violada por diversas vezes, e durante horas, pelo pai e os amigos que este levava a casa. Durante os abusos, era recorrente a criança ser agredida e humilhada com urina e, sabe-se agora, as agressões aconteciam com o conhecimento da mãe — que prostituía a filha em troco de dinheiro para conseguir comprar álcool.

No mesmo testemunho, Kidwell revelou ainda que a mãe ia mais longe ao causar danos psicológicos irremediáveis na filha, tendo matado o cão de família à frente dele ou agredido por diversas vezes a filha enquanto esta era obrigada a manter-se de pé num canto da sala. Lisa Montgomery foi crescendo no meio do caos e, aos 18 anos, casou com o meio-irmão que a abusava e agredia-a consecutivamente.

Foi com base nesta investigação que toda a defesa desta mulher concluiu, apoiada nas provas cedidas pela equipa de psicólogos com quem trabalhou, que Montgomery sofria de um "dos mais graves casos de dissociação" além de stresse pós-traumático e transtorno de personalidade.

Todos estes elementos, no entanto, não foram suficientes para demover os tribunais que a condenaram à pena de morte que deveria ser aplicada a 12 de janeiro. A data foi adiada pelo juiz Randolph Moss, do Tribunal Distrital dos Estados Unidos, por considerar que o Departamento de Justiça remarcou, de forma ilegal, a data na qual seria aplicada a pena da reclusa. Sabe-se agora que a nova data só poderá ser remarcada a partir de 1 de janeiro e que, a acontecer, será para depois da tomada de posse de Joe Biden — que se opõe à pena de morte.

Ainda que existam várias condenadas à morte nos EUA, Montgomery é a única mulher que, até ao momento, aguarda a execução através de uma ordem do tribunal federal. A alteração da data foi autorizada depois de os advogados da mulher terem sido infetados pelo novo coronavírus e que, devido ao isolamento profilático a que estiveram sujeitos, não puderam proceder ao pedido de clemência.

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Agora, e segundo a nova ordem, sabe-se que uma nova data não poderá ser marcada até ao primeiro dia de janeiro. Além disso, um dos parâmetros legais diz que um condenado à morte deve ser notificado pelo menos vinte dias antes de ver a sua pena aplicada. Isto significa, portanto, que a execução será aplicada para depois da tomada de posse de Biden, a 20 de janeiro.

O agora presidente eleito é um feroz oponente da pena de morte e já fez saber que, enquanto presidente do país, trabalhará nesse sentido. Não se sabe, no entanto, se as execuções agendadas para 2021 — como a de Montgomery — serão ou não interrompidas.

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