O feriado do Dia de Ação de Graças, ou Thanksgiving, é uma das datas mais populares nos Estados Unidos e, este ano, celebra-se a 25 de novembro — embora a tradição dite que a efeméride aconteça sempre na quarta quinta-feira de novembro, desde que o presidente Abraham Lincoln assim o declarou em 1863.

Mas apesar da importância nos Estados Unidos, a data não tem praticamente qualquer expressão em Portugal. Exceto, claro, para os norte-americanos que residem no nosso País, É o caso de Merritt Murray, 26 anos, atualmente a fazer voluntariado em Portugal, que celebra assim a sua primeira Ação de Graças fora dos Estados Unidos.

Já Bethany Sharp, 38, emigrou para Portugal há oito anos e foi aqui que construiu família, sendo que as suas filhas já são portuguesas e apenas comemoraram o Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos uma vez.

A MAGG falou com as duas mulheres norte-americanas para perceber como é que continuam a celebrar o dia vivendo em Portugal e quais as tradições que mantiveram ou adaptaram.

Do Mississipi para a Ramada

Merritt Murray é natural do Mississipi e veio para Portugal sozinha, em julho deste ano. O pretexto foi o programa de voluntariado que realiza na Greater Lisbon Christian Academy, uma escola americana cristã onde dá aulas de primeiro e segundo ciclo a crianças de diferentes nacionalidades. Este é o primeiro Thanksgiving que passa em Portugal.

Nos Estados Unidos, Merritt licenciou-se em Hospitality Management e trabalhava em hotelaria de luxo. Não tem formação oficial em educação para ser professora, mas tal não é necessário no projeto que integra. "Depois da pandemia, foi complicado estar nesse ambiente", conta, referindo-se ao setor da hotelaria, que acabou por abandonar. "É uma boa pausa na minha realidade", confessa sobre a mudança para Portugal.

Apaixonada por Portugal, veio para o País pela primeira vez no verão de 2016, num programa de intercâmbio, para aprender mais sobre a cultura portuguesa, os costumes, a língua e a religião. Participou num acampamento de basquetebol, no qual fez amizades com vários portugueses, e desde então tem regressado para visitar amigos. "Às vezes é difícil manter amizades com um oceano a separar-nos", desabafa, "mas não é impossível". Neste momento, está a aprender português com a ajuda de um tutor, mas revelou à MAGG que ainda não consegue ter uma conversa com este idioma.

Merritt explica que cada família americana tem as suas próprias tradições de Thanksgiving — por vezes seguem à risca o que é convencional, outras vezes adaptam-nas e criam novas formas de celebrar o dia. Algumas jogam jogos de tabuleiro, outras futebol americano. Neste dia, são emitidos vários jogos de futebol (da NFL, a Liga de Futebol Nacional, por exemplo) para os fãs do desporto.

A mãe de Merritt adora criar memórias de forma divertida, pelo que, há uns anos, comprou umas t-shirts curiosas da Amazon: cada uma tem um prato diferente de Thanksgiving. De lá para cá, a tradição manteve-se, e agora cada um dos membros da família de Merritt usa, com orgulho, no Dia de Ação de Graças, a t-shirt que reflete o seu prato favorito deste feriado. No caso de Merritt, é o Mac 'n Cheese. Quando veio para Portugal, enfiou a vida em quatro malas e, mesmo assim, trouxe a t-shirt consigo.

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Da esquerda para a direita: o pai, a cunhada, o irmão, o filho adotivo, a mãe de Merritt e Merritt. créditos: Fotografia cedida por Merritt Murray

Num feriado habitual, a família junta-se, incluindo os quatro avós de Merritt e, pela manhã, acompanham o desfile de Thanksgiving da Macy's (a loja americana que realiza um desfile anual para comemorar este dia desde 1924 e é transmitido na televisão). Uma vez terminado o desfile, começavam a preparar o almoço que, em dias normais, ocorre por volta das 11h, mas neste dia de gratidão é às 14h.

“É uma refeição enorme”, diz Merritt. Na sua família, misturam tradições e inovações. À mesa não faltam pratos típicos como puré e molho da carne, peru, feijões verdes, caçarola de milho, macarrão com queijo, muffins de mirtilo e doce de oxicoco (uma espécie de calda com arandos), que "ninguém come, mas tem de estar na mesa todos os anos", brinca Merritt. Para a sobremesa, trocam as convencionais tartes de noz-pecã e de abóbora pela sobremesa de Oreo da avó.

No entanto, a viver em Portugal, Merritt não consegue estar presente nestas celebrações. Ainda assim, dada a importância do dia, não vai deixar de o assinalar — sendo que este é o seu primeiro Dia de Ação de Graças em Portugal. Está cá sozinha, pelo que se apoia nas iniciativas de outras pessoas para esta ocasião.

No passado domingo (21), esteve num almoço entre portugueses e americanos em Alvalade, como que um Thanksgiving antecipado. A celebração envolveu cerca de 20 pessoas e, durante a mesma, os envolvidos comeram pratos tradicionais e jogaram jogos de trivia sobre o Thanksgiving norte-americano. "Tão americano quanto conseguimos", disse Merritt.

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Organizaram um almoço de Thanksgiving no domingo, dia 21 de novembro, que reuniu portugueses e americanos. créditos: Fotografia cedida por Merritt Murray

Mas esta quinta-feira, Merritt foi com a escola para Albufeira, pois, até ao final da semana, está a decorrer uma conferência. E visto que há um grande núcleo americano presente devido ao evento, o Hotel Alfagar, onde estão hospedados, organizou uma refeição de Dia de Ação de Graças para assinalar a data.

À noite, Merritt vai falar com a família por videochamada, quando estiverem todos juntos. "Se pudesse agarrar na minha família e trazê-los para aqui, seria a melhor vida de sempre". A mãe vem visitá-la a Portugal em janeiro. “As pessoas subestimam Portugal. É um País muito calmo. As pessoas são tão simpáticas e amigáveis. Receberam-me tão bem enquanto alguém que, obviamente, não é portuguesa.”

Bethany está em Portugal há 8 anos. Mas a Ação de Graças é sagrada

Bethany Sharp e o marido emigraram para Portugal em 2013. De Nova Orleães para o Parque das Nações (com uma passagem pelo Lumiar), onde vivem há cinco anos, foi uma oportunidade de emprego que os trouxe para cá. Oito anos se passaram e, atualmente, Bethany e Jonathan são professores no Seminário Teológico Baptista, em Queluz. Bethany, 38, também dá aulas de inglês de 1º ciclo na escola das filhas.

As filhas do casal já nasceram em Portugal. “São alfacinhas”, brinca a mãe. “E muitas vezes esqueço-me de que são mais portuguesas do que americanas”. Hoje as meninas têm 8 e 5 anos e apenas passaram o Thanksgiving nos Estados Unidos uma vez, quando uma tinha 3 anos e a outra apenas meses. Foi nesta ida à terra dos pais que conheceram toda a sua família, desde tios aos primos mais afastados.

A família junta-se toda — não apenas cada núcleo familiar, e sim à volta de 50 pessoas — para celebrar o dia. Naquele ano, os quatro emigrantes puderam participar na festa. Fizeram os cozinhados típicos e, à noite, comeram as sobras. Têm sempre uma oração e um momento para todos expressarem a sua gratidão.

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Bethany e Jonathan estão há oito anos em Portugal. Celebram o Dia de Ação de Graças com amigos americanos e portugueses. créditos: Fotografia cedida por Bethany Shart

Embora tenham sempre pretendido aprender a cultura portuguesa, nunca consideraram abdicar de certas tradições americanas — e o Thanksgiving é uma delas. "Queremos criar uma ligação das nossas filhas com a cultura americana", garante Bethany, salientando que tentam fazer o mesmo com a cultura portuguesa. "No Dia de São Martinho, por exemplo, comemos castanhas", diz.

Em Portugal, na casa desta família, o Dia de Ação de Graças não é apenas um dia. Celebram-no durante o mês inteiro de novembro, a partir de dia 1, uma tradição que Bethany cumpre desde criança. Agora, com as filhas e o marido, todos os dias escrevem numa folha vários motivos de gratidão, que penduram numa árvore. Tiram alguns minutos para agradecer e esta quinta-feira, no Dia de Ação de Graças, vão ler todos os motivos que têm na árvore. “Estamos gratos por este País. É sempre uma das primeiras folhas da nossa árvore."

Nesta data, as filhas do casal saíram mais cedo da escola para poderem almoçar em casa e comemorar a data com os pais e com amigos da família. Viram o desfile da Macy's em Nova Iorque e também o filme "Charlie Brown e o Dia de Ação de Graças". Desfrutaram de uma tarde de abóbora e, mais logo, vão fazer uma video-chamada com o resto da família, que está toda junta nos Estados Unidos para celebrar o dia.

No fim de semana passado (20 e 21), também celebraram o dia com portugueses. Cozinharam a comida tradicional para mais de 20 pessoas, e as sobremesas foram populares entre as crianças. O famoso "dressing" foi comparado a açorda e não faltou puré, batata doce ou feijão verde. 

Embora possam ser estabelecidas comparações com o Natal, Bethany esclarece que o Dia de Ação de Graças é diferente para melhor. Enquanto no Natal reúnem apenas o núcleo familiar, o Thanksgiving junta toda a família. E, para Bethany, o Natal acaba por girar muito à volta do consumismo das prendas, e "há muita pressa". "O Thanksgiving é um dos únicos feriados onde não existe a urgência de comprar. Apenas a comida."

Neste momento, Bethany e Jonathan encontram-se a pedir cidadania portuguesa. “Para nós, este é o nosso lar. Não temos planos de voltar”, exclama Bethany. A família só visitou os Estados Unidos duas vezes desde que as meninas nasceram (uma delas para comemorar o Thanksgiving) e, quando estão fora, " têm saudades de Portugal”, diz Bethany, acerca de como as filhas se sentem quando visitam a família. Ainda assim, participam com grande entusiasmo nesta celebração do Dia de Ação de Graças.

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