Depois de a justiça brasileira ter autorizado a interrupção da gravidez da criança de dez anos que era violada pelo tio desde os seis, Sara Winter, uma militante da extrema-direita, revelou o nome da criança e a morada do hospital onde o aborto seria feito. A divulgação, que constitui crime, levou à mobilização de um grupo fundamentalista religioso ao local.

Foi através da sua página de Twitter que este domingo, 16 de agosto, Sara Winter divulgou os dados da criança referindo-se ao médico responsável pela interrupção da gravidez como "aborteiro".

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A publicação tornou-se viral, fazendo da militante da extrema-direita um dos assuntos mais comentados da rede social. Ainda que a publicação tenha sido apagada pouco tempo depois, serviu para que um grupo de fundamentalistas religiosos se deslocasse até ao hospital formando um cordão humano e, mais tarde, tentando invadir as instalações.

Durante os protestos por parte de quem defendia que a criança não deveria abortar, o grupo religioso acusou de homicídio o médico que aceitou interromper a gravidez.

Face às acusações que se ouviam de fora das instalações, o médico dirigiu-se até aos manifestantes e defendeu o direito da criança a realizar o procedimento — em primeiro lugar porque a esta resultava de uma violação, mas também porque a criança estava identificada como "grávida de alto risco".

"Fez vídeo de horror sobre a menina de dez anos"

Desde então que Sara Winter tem sido alvo de várias críticas pela divulgação do nome e localização da menina. A ação constituiu uma violação do Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil, que assegura a preservação da identidade da criança.

"Nenhuma criança ou adolescente será objeto de forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais", indica a lei em vigor.

Stephanie Ribeiro, ativista brasileira, criticou a divulgação dos dados e comentou o status quo vigente que culpabiliza as vítimas de violação. "Percebam que, no Brasil, uma criança estuprada que faz um aborto para seu bem-estar físico e psicológico é chamada assassina. Mas alguns homens acusados de estupros ou mesmo presos por feminicídio, para muitos são meninos mal compreendidos", escreveu.
Também Debora Diniz, professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, criticou a militante Sara Winter: "A moça fanática bolsonarista das tochas saiu da cadeia para cometer crime ainda mais terrível. Fez vídeo de horror sobre a menina de dez anos, alegando saber o nome dela. Por favor, não divulguem o vídeo. É uma menina, não uma disputa ideológica."
Sara Winter não explicou como teve acesso aos dados da criança. O caso ganhou atenção mediática no sábado passado, 8 de agosto, quando uma criança de dez anos dirigiu-se ao Hospital Roberto Silvares, na região de São Mateus, suspeitando estar grávida. Os profissionais de saúde que tiveram o primeiro contacto com a criança denotaram algum volume na barriga e procederam à realização de um exame de sangue. O resultado não deixava margem para dúvidas: a criança estava grávida de três meses.

Justiça demorou uma semana a autorizar o aborto

Depois de ser questionada pelos médicos que acompanharam o caso, a criança revelou que era abusada sexualmente pelo tio desde os seus seis anos de idade e que mantinha o silêncio porque era, de forma regular e constante, ameaçada de morte, conta o jornal "A Gazeta".

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Desde então, a criança esteve durante a semana passada a ser acompanhada por médicos e psicólogos enquanto advogados discutiam a interrupção da gravidez.

O advogado Raphael Bolt argumentou que a Constituição Federal "preserva, primeiramente, a vida humana", mas que em situações como a desta criança, a envolver uma menor vítima de abusos sexuais, há possibilidade para que a realização de um aborto seja aprovada, explica o próprio ao mesmo jornal.

Depois de uma semana de debate, a Justiça brasileira autorizou esta sexta-feira, 14 de agosto, que a criança pudesse interromper a gravidez — através do aborto ou do parto imediato do feto. O magistrado considerou legítima a decisão de abortar numa situação em que a gravidez decorre de abusos sexuais e que, neste caso, põe também em risco a vida da menor de idade.

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