Joana Sousa pediu-nos um bocadinho para recuperar. "Precisava de estar sozinha e deitar tudo cá para fora". É que tinha acabado de sair do seu primeiro turno a cuidar dos doentes mais graves com COVID-19 no Hospital de Braga, cidade que viu os números crescer de forma abrupta: em 24 horas passaram de 25 para 98.

Para estar na frente da batalha, Joana precisou de se equipar, passar três horas dentro de um fato sufocante, sair e desinfetar-se. O pior mesmo é saber que dali a uns minutos tudo se volta a repetir.

Escolheu ser enfermeira depois de ver o que os enfermeiros fizeram para tentar salvar a vida da mãe, que acabou por morrer com cancro. "Eu queria ser tão especial para alguém como eles foram para ela", conta à MAGG.

Tirou o curso, estagiou, conheceu diferentes especialidades, mas não há livro, faculdade ou experiência anterior que prepare alguém para uma pandemia. "Eu adoro o que faço, mas admito que agora é difícil acordar com vontade de vir para o hospital".

São muitas horas de trabalho e muitas delas passadas dentro de um fato que provoca calor e dificulta movimentos e respiração. É viver com medo de contagiar colegas, doentes e de levar o vírus para casa. É saber que não tarda não vai haver espaço para todos os doentes nem luvas para que possam cuidar deles em segurança.

Mas Joana não desiste porque, tal como conta à MAGG, nunca viu a equipa tão unida como agora. E a força que vem das ruas? "Este mimo é temporário e só existe porque a sociedade precisa de nós neste momento".

1. Qual é o cenário que encontra ao chegar ao hospital?
O cenário é de medo geral, porque estou na ala que recebe os doentes em estado mais grave. Mas, ao mesmo tempo, noto uma grande entreajuda entre colegas. Todos estamos a fazer um esforço enorme e a dar tudo o que temos para que o número de vítimas seja o menor possível e, ao mesmo tempo, que nenhum de nós fique infetado.

2. De que forma combate esse medo?
É mesmo impossível não ter medo numa altura destas. Mas tenho colegas completamente apavorados, principalmente os que têm filhos pequenos. A minha forma de encarar isto é continuar com a minha visão otimista das coisas.

Confesso que hoje, quando entrei na ala dos doentes graves, foi difícil manter-me positiva. Depois de ter que ficar três horas fechada, com aquele fato que quase não te deixa respirar, em que a viseira fica embaciada e quase não consegues ver, quando saí tive que ter um momento meu, um momento para descarregar tudo cá para fora. Não é fácil estares três horas fechada num sítio rodeada de pessoas infetadas e que te podem infetar também. É que mesmo que eu tenha todos os cuidados, pode sempre haver um erro. Somos humanos e o risco de erro está lá.

Para mim  essencial é mantermo-nos unidos e, acima de tudo, com foco. E o meu foco é: eu tenho que me proteger a mim primeiro, porque se eu estiver bem, eu consigo ajudar os outros.

3. Alguma vez, durante a formação, foram preparados para um cenário como este?
Não. Somos preparados para tratar doentes com várias patologias, como uma tuberculose, por exemplo. Mas nunca para uma pandemia. Claro que já tive que tratar de um doente com tuberculose, mas era um, não eram centenas. Fora todos os outros que nem sabemos que estão infetados. A partir do momento que um doente internado começa a ter febre ou a tossir, todo o serviço ficava em estado de alerta. O problema é que às vezes eram doentes internados há dois meses. Nesse caso, começas a pensar em quem é que o terá contaminado. É que até pode ser um de nós que está infetado e pode andar a contaminar os outros.

O cenário é de insegurança e muito medo. Ainda que na teoria estejamos preparados para isto, nunca estás.

4. De que é que tem mais medo neste momento?
Eu não tenho tanto medo por mim, tenho medo sim de infetar os outros. O meu medo é levar o vírus para casa e pôr em risco a vida dos que amo.

O meu outro grande medo é ficar psicologicamente afetada por isto. Já chegámos à fase em que se escolhe quem é que é para ventilar ou não e isso é muito difícil. A decisão final é médica, mas nesta fase trabalhamos todos em conjunto. É muito frustrante pensar que já não vale a pena investires num doente, porque se investires nele, aquele ventilador vai fazer falta a um doente que tem uma esperança de vida maior.

E se psicologicamente é desgastante, fisicamente também é. Nós transpiramos imenso dentro daqueles fatos, respirar é difícil e só te apetece tirar aquilo. Mas não podes, porque é exatamente no momento de tirar o material que pode haver maior risco de contágio.

5. Quantas horas trabalha por dia atualmente?
Os nossos turnos são de 12 horas, mas estamos em fase de adaptação. É que passar 12 horas dentro daqueles fatos é impensável. A proposta é que seja três horas a trabalhar, meia hora de descanso, três a trabalhar, meia hora de descanso e por aí fora. Mas meia hora é muito pouco para o teu corpo recuperar do desgaste que acontece lá dentro.

6. Sentem falta de equipamento?
Tenho que ser honesta. Hoje, que foi o primeiro dia neste serviço especial, não nos faltou nada. Mas sei que falta noutros serviços. Vi colegas a colar as luvas com adesivo e sacos de plástico nos pés. Por isso, senhora ministra, não nos diga que não há falta de material, porque há.

7. Sente-se apoiada pela sociedade?
Estes mimos que temos recebido sabem sempre bem, claro. Principalmente porque sempre fomos uma classe posta de parte, à qual nunca foi dado o devido valor. Durante anos, éramos vistos como os assistentes dos médicos e não como uma profissão independente. Nós somos gente que cuida desde sempre.

Mas temos que ser realistas: este mimo é temporário e só existe porque a sociedade precisa de nós neste momento. Quando isto passar, já vamos deixar de ser tão importantes e toda esta valorização vai passar. Nós somos dos poucos profissionais de saúde que, durante anos, não recebia como licenciado. Não temos um subsídio de risco, trabalhamos dia e noite e a diferença do que ganhamos a mais por fazer noite é mínima.

Já no hospital, sinto-me bastante apoiada pela equipa e pela nossa chefe. Já me disse várias vezes que é normal ter medo e que é sempre possível sair para respirar, ainda que isso signifique o gasto de material.

8. O que é que lhe vai fazer mais falta nos próximos tempos?
Espero que o material não falte, nem o apoio que temos tido. Mas aquilo que me faz falta, enquanto profissionais de saúde, é força. Mas isso tem que ser transmitido entre nós. Temos que ser corajosos, porque é muito difícil lutar contra um inimigo que não vemos. Não sabes onde anda, como é que ele é, como o podes combater.

9. É possível separar a vida profissional da pessoal?
Impossível, e eu tinha uma grande capacidade de sair do hospital e deixar tudo aqui, mas agora não. Claro que há exceções e, por exemplo, quando tinha um doente com o qual me ligava emocionalmente, era impossível desligar-me de um momento para o outro. Neste caso, isso é impossível.

Eu quis ser enfermeira depois de ver o que os enfermeiros fizeram pela minha mãe. Acabou por morrer de cancro, mas eu quis ser tão especial para alguém como eles foram para ela. Eu adoro o que faço e faço-o com todo o gosto, mas admito que agora é difícil acordar com vontade de vir para o hospital.

10. Como é a vida fora do hospital?
Eu vivo com o meu namorado e, por isso, tenho que ter muito cuidado com a contaminação. Ao contrário do que fazia habitualmente, agora tomo banho ainda no hospital, deixo tudo no cacifo e ao chegar a casa tiro sapatos e deito toda a roupa para lavar. Às vezes ainda tomo um segundo banho.

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