Albano Jerónimo chega e repara imediatamente na frase que levo ao ombro, estampada no tote bag. "Recycle or Die", lê em voz alta, "é que tem que ser mesmo assim".

E ficámos ali a saber que o ator de 40 anos não é só um dos mais requisitados para teatro, cinema e televisão em Portugal, não só tem 1,91 metros e olhos verdes, como também é um embaixador da sustentabilidade. Este homem terá defeitos, devem estar é escondidos debaixo do cabelo que deixou agora ganhar uns tons de louro.

Cortou com a carne há um ano e meio e prefere os transportes públicos ao carro, que fica muitas vezes em casa. Fica doido sempre que vê alguém a deitar lixo para o chão e vai lá avisar: "Olhe, deixou cair isto".

Mas a conversa com a MAGG não foi só em tons de verde. Também houve espaço para o negro que é trabalhar um texto denso e físico como o de "A Morte de Danton", em palco no D. Maria II. Não teve que engordar como aconteceu na última novela, nem teve que emagrecer como vai acontecer brevemente para o filme que vai rodar em março. Mas, durante 2h30, dá voz e corpo a Georges Jacques Danton, que tanto liderou as massas durante a Revolução Francesa, como caiu em desgraça por ser considerado um dos responsáveis pelo chamado massacre de setembro, no qual morreram milhares de pessoas.

Albano reconhece essa facilidade em passar de bestial a besta, mas também já viu acontecer o contrário. Em castings, chegaram a dizer-lhe que era "demasiado girinho", que "era demasiado alto para fazer cinema" ou que não seria ator de novelas. Já fez isso tudo mas, se o teatro pagasse contas, era a ele que se dedicava por completo.

Casou no verão de 2019 com a enóloga Francisca Van Zeller, mas não deixa que a conversa fuja para o tom cor de rosa. Quando o pomos em posição de rei com possibilidade de mandar até nas vinhas do Douro, responde com sustentabilidade. Albano Jerónimo é verde, ponto.

Vim assistir à peça no domingo e, não sei se foi pontual ou se é comum, mas senti que, com 33 anos, estava a estragar a média de idades da plateia. O que pode ser feito para chamar mais jovens ao teatro?
Ao domingo, tendencialmente, vem um público com mais idade, porque a peça é às quatro da tarde. Paralelamente, é mesmo uma questão de fundo. Uma das coisas que pode ser feita e que nunca foi feito neste País é articular de forma séria a educação com a cultura, nomeadamente fazer com que os jovens públicos criem hábitos e os instituam como normais. Isso nunca foi feito e eu não percebo porquê. Temos tudo para que isso aconteça, temos um sistema educativo nos teatros nacionais, temos estruturas que dinamizam e fomentam novos públicos, mas a lacuna mantém-se.

No fundo, acho que teve um bocado de azar no dia, porque com alegria lhe digo que não é usual. Nos outros dias, temos tido sala cheia e a média de idades estará nos 20 e tal. O teatro está de boa saúde nesse aspeto.

E enquanto público, acabei exausta só de vos ver em palco. É uma peça muito física. Como se prepara para este tipo de trabalhos?
Ser ator passa por preparares o teu corpo para qualquer trabalho. Fiz recentemente uma novela para a qual tive que engordar, agora em março vou ter um trabalho para o qual tenho que fazer exatamente o oposto. Toda essa agilidade física tem que ver com o estar preparado para receber um texto mais clássico como o da Morte de Danton, ou um filme ou uma novela. É uma matéria-prima, é a minha voz, é o meu corpo e é isto que eu uso para encaixar estas palavras todas que vamos decorando.

Já que fala nas palavras, o texto desta peça é denso. Como é que se trabalha um texto assim?
Não foi fácil. Este texto é difícil, é provavelmente um dos textos mais complicados que apanhei ao longo de 21 anos de trabalho. É um texto muito denso, como disse, complicado, começa sem ter um início, acaba sem ter uma conclusão. É um texto por jorros, por fragmentos, é intercortado, não é linear. Foi preciso encaixar tudo isto num corpo, com a direção do Nuno Cardoso que faz sempre espetáculos muito físicos e que nos obriga a ter uma dinâmica física na qual temos que encaixar textos clássicos. O Nuno é um diretor, diria, anguloso, que nos desafia sempre para coisas muito intensas.

Foi fácil perceber o Danton?
Tentei fazer isso ao máximo, mas é um projeto que nunca acaba, não tem um fim. Todos os dias percebo-o um bocadinho melhor, ou pelo menos encontro-me com ele em mais sítios do texto. O conceito da beleza dispersa-se pela natureza e também por corpos de pessoas e este Danton tenta contrapor a uma ideia de morte, uma busca eterna da beleza nos vários corpos que encontra. Daí ele representar um vício, o deleite pelos pequenos prazeres da vida. E desses corpos, tenta criar um novo corpo da revolução. Obviamente há aqui um peso terrível de Setembro, quando ele foi o responsável pelo banho de sangue. Tudo isto é um misto de vulnerabilidade e incoerência.

É fácil passar de bestial a besta.
É. É o saber como te encontras neste delírio do ser humano. É um texto extremamente humano. Não tem um chavão, não tem uma conclusão clara. É um texto feito para ser discutido, para ser falado. A nossa função enquanto atores é dar uma leitura clara do que estamos a fazer. E este Danton para mim está sempre em construção.

O não tem uma força incrível quando dizes que sim, porque quando dizes que sim queres mesmo fazer uma coisa. Vais aprendendo a dizer que não, ainda que seja difícil fazê-lo"

O que é o faz dizer que sim a um projeto?
Primeiramente as pessoas. Depois, as palavras que estão associadas a esse projeto. E, sobretudo, se faz sentido para mim dizer aquelas palavras, se faz sentido meter aquelas palavras no meu corpo e tentar estilhaçá-las com o público.

Diz muitas vezes que não?
Digo muitas vezes que não. O não tem uma força incrível quando dizes que sim, porque quando dizes que sim queres mesmo fazer uma coisa. Vais aprendendo a dizer que não, ainda que seja difícil fazê-lo. Isto é feito por pessoas e essas pessoas ficam sentidas ou sensibilizadas com um não. Contudo, é de uma grande honestidade dizer que não. Paralelamente, quando dizes que sim também é de uma grande honestidade e abraças esse projeto até à medula. Mas tenho a sorte de poder dizer não.

Prefere o papel de ator ou encenador?
São paisagens diferentes. O papel de ator permite-me rasgar o corpo de outra forma. O papel de diretor permite-me perspetivar um trabalho no seu todo, poder ir longe com o corpo de outra forma. Mas ambas refletem um desejo imenso e uma paixão tremenda de andar espantado e, ao mesmo tempo, de querer baralhar os espíritos, que é isso que me faz andar nesta profissão.

Albano Jerónimo está em cena com 'A Morte de Danton'  no D. Maria II até dia 19 de janeiro

Uma das coisas mais incríveis desta peça é o facto de o texto ter sido escrito por alguém com 21 anos. Quem era o Albano com 21 anos?
Tinha acabado de deixar a Fisioterapia para trás e já estava no Conservatório. Fazia teatro desde os 15 e profissionalizei-me precisamente aos 21 com uma peça na Casa Conveniente com a Mónica Calle. Estava numa franca expansão do espírito, numa tremenda estupidez e numa infantilidade e imaturidade que me perspetivaram um caminho imenso pela frente.

Mas essa imaturidade também pode ser boa para quem quer descobrir mais.
É, mas posso dizer que se tivesse tido mais maturidade nessa altura, não havia mal nenhum.

A vontade de ser ator chegou cedo?
Eu não tenho referências na família ligadas às artes e, de repente, vi-me a ir para Biologia, Ciências, um caminho sólido e seguro. Mas comecei a fazer teatro amador aos 15 anos num grupo de teatro amador que se chama Esteiros, em Alhandra. E tudo isso foi consolidado quando encontrei aquele que considero ser o meu primeiro mestre, o Mário Rui, que era o diretor e encenador desse grupo e que me chamou a atenção para o poder da palavra. A palavra é imensa na sua expressão e nos ecos que encontra no teu corpo. Isto ainda hoje me apaixona e é uma relação que vou manter até ao final da minha vida. Vou estar sempre apaixonado pela palavra.

E num texto com tantas palavras e todas elas tão intensas, consegue sempre deixá-las no teatro sem as levar para casa?
Com a idade aprendes a separar as coisas. Gravas 30 cenas de uma novela num dia, vais para casa e fechas a loja sem fazer com que a tua família leve com essas tuas coisinhas. E, ao mesmo tempo, é uma forma de me proteger de algo que acho que é essencial e precioso que é o meu trabalho. Eu não posso contagiar-me com ruído, sou muito zeloso do meu trabalho.

Em cinema fazes uma ou duas cenas por dia, em novela fazes mais do que um episódio por dia. É muita fruta. É altamente desgastante e pode ser ingrato. Ingrato para ti, para os colegas e até artisticamente falando"

No entanto, quando fiz a "Herdade" fui, pela primeira vez, protagonista. Não digo isso na sede mais fácil ou num lugar comum, é mesmo na perspetiva de gerir um trabalho durante oito semanas. E aí sim, a contaminação é mais problemática, porque filmas todos os dias e não largas. Mas mesmo em teatro, é impossível não pensar neste texto quando vejo notícias, quando leio o jornal, quando leio um livro. Volta e meia sou assombrado por estes fantasmas, mas que me fazem pensar, e que me fazem enquadrar o que dizemos em palco de outra forma. Mas tento, sobretudo, não deixar nada no palco, tento sempre deixar tudo com o público. Posso acabar todo roto, mas desde que tenha passado alguma coisa, pronto, 'tá feito, missão cumprida.

É daqueles atores que faz novelas com gosto, ou para si as novelas são um frete?
Faço com gosto, apesar de ser extremamente exigente. Em cinema fazes uma ou duas cenas por dia, em novela fazes mais do que um episódio por dia. É muita fruta. É altamente desgastante e pode ser ingrato. Ingrato para ti, para os colegas e até artisticamente falando. Mas faço com todo o gosto. Tenho essa sorte, quando aceito fazer uma coisa é mesmo para fazê-la. Nunca fico naquela do "Aceitei e agora, grande porcaria, vou ter que fazer". Não, se aceito, aceito.

Como todos sabemos, a novela dá-nos um income muito mais sólido do que o teatro ou mesmo o cinema. Muitas vezes faço novela para fazer teatro e essa é uma realidade dos atores portugueses.

É uma necessidade.
É totalmente uma necessidade. Para fazer teatro eu tenho que fazer teatro. Infelizmente, não consigo fazer só teatro, porque o vencimento é redutor, para não dizer vergonhoso para a classe, para todos nós. Quando comparado com a Schaubühne Berlin, a companhia que trouxe a peça Ricardo III, eles ganham em média cinco mil euros por mês. Aqui em Portugal é o quê? Mil euros? 1.200€? E falo aqui das coisas mais mundanas, como pagar a escola dos miúdos, a alimentação, as contas de casa. Não é possível. Eu, pelo menos, não consigo fazer a minha vida só a fazer teatro. Com muita pena. Adoraria, se pudesse, fazer só teatro.

Não alimento uma persona ou uma marca nas redes, tento que seja uma extensão natural daquilo que eu vejo e do que faço"

Se não tivesse qualquer tipo de limite ou constrangimento, era ao teatro que se dedicava por inteiro?
Teatro sim, é onde me sinto mais pleno. E cinema também, ainda que não descarte a possibilidade de um trabalho em televisão. Mas tendencialmente faria coisas que respeitassem mais o meu trabalho, ou seja, onde o tempo de criação fosse mais justo.

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Sendo um fã da palavra, usa frases de grandes autores como legendas de fotografias no Instagram. Conhece mesmo aquelas frases, aqueles autores, ou é coisa de intagramer?
Eu tenho uma relação económica com as redes sociais, no sentido em que só ponho aquilo que de facto quero. Coisas que vi, coisas que leio e que decido publicar para comunicar outra coisa. Tento usar as redes sociais como um complemento. Não alimento uma persona ou uma marca nas redes, tento que seja uma extensão natural daquilo que eu vejo e do que faço.

Ou seja, lê realmente muito na vida real.
Ah, adoro. São bilhetes de viagens incríveis. Adoro exercitar o hábito de leitura, porque acho que é fundamental para o que faço, para a minha vida, para me expressar, para alimentar o meu alfabeto e para conhecer.

O que está a ler agora?
Estou a reler "O Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa, porque tem que ver com o filme que vou fazer em março com o Edgar Pera. É um filme sobre a obra de Fernando Pessoa, no qual irei fazer o papel de Álvaro Campos. E este livro, se lês de ano ano, ganha sempre outra forma. É daqueles livros intermináveis, incompletos, imperfeitos, que te encontram sempre numa página qualquer.

Voltando ao tema da exposição, como lida com aquela a que é sujeito fora dos palcos?
Eu não me posso queixar, porque sempre que sou abordado é de uma forma simpática. Essas abordagens acontecem mais quando faço novela, claro. A televisão é massiva nisso e tem um poder enorme na propagação da tua imagem. Quando faço teatro ou cinema é tudo muito mais pacífico.

Mas eu lido bem com essa exposição. O gesto de alguém que te aborda é imenso. Se alguém tem a coragem de vir ter contigo só para dizer "Olhe, gosto muito do seu trabalho", isso tem um eco. Tem que ser justo e tem que ser friendly. Tenho que aceitar isso e agradecer.

E é também por isso que uso as redes sociais, para esse contacto. Não é tanto para me associar a marcas, ainda que recentemente me tenha associado à Volvo, mas porque a campanha tinha um lado sustentável e abordava novas formas de diminuir o impacto ambiental do transporte automóvel.

Tem essas preocupações?
Totalmente, como não? Há três anos que diminui o consumo de carne e há um ano e meio que deixei de a comer de todo. Tem que ver com uma consciência global e de espécie. [Abre os braços em sinal de contemplação] Temos que cuidar disto, que é maravilhoso. É que estamos a viver um pequeno Apocalipse, acredito que ainda vá piorar. Mas tento associar-me a causas, a movimentos e cuidar ao máximo do meu meio ambiente.

É por isso que anda bastante de transportes? Cheguei a apanhá-lo algumas vezes em Santa Apolónia, a vir ou a chegar do norte.
Houve uma altura em que evitava, talvez porque ainda era imaturo e tentava resguardar-me da exposição pública. Mas hoje em dia preciso de fazer coisas normais. Adoro andar de transportes públicos: é mais económico, é mais ecológico, a tua pegada ambiental é muito menor. Tem tudo que ver com uma perspetiva de vida.

Além disso, faço isto para as pessoas, eu tenho que conhecer as pessoas. Senão estou a fazer isto para quem? Para mim? Para os meus amigos? Eu adoro andar na rua, adoro andar na rua a absorver o que vejo. Sou até um bocado obsessivo com as pequenas coisas. É isso que me faz angariar património que vou diluindo no que faço. Aliás, eu venho de um bairro extremamente pobre, de um meio extremamente escasso, onde a realidade era outra. Tudo isso obrigou-me a usar as minhas valências para trabalhar e desenvolver aquilo de que gosto. Hoje em dia, vejo o meu percurso, a minha origem, como preciosa. É, aliás, aquilo que me pode distinguir.

Ainda dá para ir beber a ginjinha aqui ao lado, como gosta de fazer antes do espetáculo?
Então não dá? Ainda no sábado fizemos isso. São essas pequenas coisas que fazem com que isto tenha outro sabor e que não te feches numa imagem tua que possas criar. Acho que das coisas mais horríveis que pode acontecer é ficares refém da tua própria imagem ou de uma espécie de marca. Eu sou só um ator.

Disseram-lhe uma vez que era demasiado alto para fazer cinema. Existem mesmo esses estereótipos nesta área?
Sim. Eu ouvi coisas absolutamente dantescas, horríveis, formatadas. Diria até um bocado bullys. Fiz castings onde me disseram coisas como "Não és ator de novelas", "És demasiado girinho", "És demasiado alto para fazer cinema". É importante que quem esteja a começar saiba que vai ouvir muitas coisas deste género, e que de certa forma nos coloca num sítio de fragilidade. Mas torna-nos mais fortes. Quando eles acontecem não, ficas um bocado destruído, mas depois dás a volta. E quem dá a volta são muito poucos, mas quando dás a volta, voltas mais forte. Todas estas minhas limitações, seja de corpo, seja do sítio de onde venho...

De onde é que vem?
Eu sou de uma pequena vila de pescadores que se chama Alhandra. Eu fui criado entre peixeiros, cagareus e má caras — este último fruto do casamento entre peixeiros e ciganos. Há todo esse lado mais primário, mais escasso, onde não havia dinheiro no final do mês, onde não trocavas de roupa todos os dias... Essas realidades não são limitações, são bónus, é isso que te distingue. Que os erros sejam as mais valias. O problema é que vivemos numa sociedade que nos obriga a olhar para coisas perfeitas.

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E, aparentemente, ser giro e alto nem sempre é uma mais valia.
Não, para mim foi contraproducente no início. Aliás, só tive o sabor verdadeiro do que pode ser potenciado de ser alto e ter olhos verdes lá fora. Lá fora ninguém te conhece de parte nenhuma e isso é uma vantagem tremenda. Aqui em Portugal já tive algumas barreiras por acharem muitas coisas sobre mim. E isso limita imenso.

Albano Jerónimo casou no verão de 2019 com a enóloga Francisca Van Zeller

Que ideias erradas acha que as pessoas têm sobre si?
Que estou sempre a trabalhar. É verdade que trabalho muito, mas se têm dúvidas liguem-me, ou liguem à minha agente. Se calhar até nem estou a trabalhar.

Como é que vai ser 2020?
Vou rodar o filme com o Edgar Pera, como disse. Mas há mais. Vai estrear-se uma série internacional que estou a fazer em setembro. Tenho perspetivas internacionais. Tenho vontade de investir nesta possibilidade de rasgar outros mercados. Tenho também um convite para fazer teatro para a peça "A Festa de 15 anos" do encenador Mickael Oliveira. Tive também um convite para uma série de televisão que ainda não sei se vai para a frente e ainda a digressão das peças da minha companhia, a Teatro Nacional 21. São elas "O Amante" e o "Veneno". Com essas peças, posso garantir que as salas estão cheias de gente nova.

Nunca teve vontade de ir viver e trabalhar para fora?
As minhas idas têm sempre um regresso. Nunca tive o sonho americano de ir para Los Angeles. Respeito imenso quem o faz e quem tem dinheiro para o fazer. Mas sempre quis fazer algo cá que tivesse um eco lá fora. "A Herdade" foi esse momento. Mas não gostava de viver lá fora, até porque não consigo ficar longe das pessoas que amo. Mesmo que algumas dessas pessoas possam vir comigo, tenho sempre que voltar. Agora, temporadas de meses lá fora sim, é inevitável. Vou ter que fazer muitas piscinas.

Agora gostava de fazer um exercício, no qual o ponho a mandar em certas coisas. Alinha?
Ok.

Os políticos foram inventados para servir uma comunidade e isso não existe. É quase ridículo falar de política hoje em dia. Ou mesmo de partidos. Estamos na mesma turma divididos por T-shirts com cores diferentes."

O que fazia se mandasse no Instagram?
Mandava abaixo.

E se mandasse no dinheiro público?
Hum, isso é uma boa pergunta, mas densa. Pensaria numa distribuição mais acertada, mais virada para as pessoas. Percebo o apoio à banca, mas isso não se pode sobrepor a um Serviço Nacional de Saúde, à educação ou à cultura. Por mais que desenvolvas a economia, não vale muito se não tiveres matéria prima para a solidificares a longo prazo, se não tiveres cabeças que pensem. É preciso educar os jovens, pô-los a pensar.

Os políticos foram inventados para servir uma comunidade e isso não existe. É quase ridículo falar de política hoje em dia. Ou mesmo de partidos. Estamos na mesma turma divididos por T-shirts com cores diferentes. Por outro lado, vivemos numa demagogia de café, em que deixamos a política para os outros. É burrice pura. O Instagram e as redes sociais vieram desenvolver vícios e ideais de vida longe da realidade. São armas incríveis.

Algumas pessoas deviam usar redes sociais semana sim, semana não. Ou mesmo sem telemóvel. Eu acho que ainda conseguia. Só para ainda nos mantermos aqui com uma coisa de corpo, que não é tudo plástico. Voltarmos a um lado básico e primário das coisas.

E se mandasse nas novelas da noite?
Se é para fazer, que seja para fazer melhor. Vamos perder um bocadinho mais de tempo, vamos investir um bocadinho mais, usar material melhor, investir no argumento. Em vez de ganharmos 50 milhões, ganhamos 30 milhões e damos um produto melhor às pessoas. É que se virmos bem, a estrutura do que nos dá uma Netflix ou uma HBO é semelhante à de uma novela, mas tecnicamente melhor.

É um erro pensar que damos ao público o que ele quer. Não. É ao contrário. O público come o que tu lhe dás. Em França, tens em prime time debates com filósofos, professores, tens uma cultura de reflexão.

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E se mandasse nas vinhas do Douro?
[risos] Focar-me-ia num modo de produção mais biológica, evitando o uso de químicos. Teria uma consciência ambiental mais atenta, mais de futuro, que isto quando mudar, muda para todos.

Se mandasse no teatro português, o que faria?
O trabalho que é feito hoje é de resistência. Focar-me-ia mais no cruzamento entre a cultura e a educação. Aumentar o orçamento para a cultura era inevitável. Trabalharia para fazer da cultura um pilar completamente necessário para a identidade de um povo.

Gostava de fazer de uma ida ao teatro uma coisa banal. É como ir ao cinema, como ir ao café. É a mesma merda, é a mesma coisa. Devia ser assim.

E se mandasse no País?
Focar-me-ia numa cultura ambiental. Temos um património incrível e uma floresta que praticamente não existe no mundo, que é a madresilva. Era nisso que apostava. Para mim, neste momento da minha vida, aquilo que me vem à cabeça imediatamente é criar um País mais sustentável, com pessoas com consciência ambiental. Isso estimularia novas formas de viver, de estar.

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