Numa outra entrevista dada à MAGG, Patrícia Lemos disse, sem hesitações, que "as mulheres sabem zero sobre o seu ciclo menstrual". E como não quer que esta desinformação se perpetue, lançou o "Período", um livro direcionado para as miúdas que se preparam para receber esse amigo de todos os meses que, se por um lado nos vem mostrar que está tudo a funcionar a nível reprodutor, é, muitas vezes, uma grande chatice.

A educadora menstrual escreve sobre menstruação sem pudores nem palavras complicadas, num livro cheio de ilustrações com piada e que, como alguém lhe disse, ao ler a sensação é de estar a ter uma conversa com uma amiga. A diferença é que, desta vez, a amiga sabe tudo. É que Patrícia é instrutora de planeamento familiar natural, terapeuta certificada em apoio a reproduções medicamente assistidas e educadora para a saúde menstrual e fertilidade. Criou também o Círculo Perfeito, uma plataforma educacional sobre o ciclo menstrual e a fertilidade. Aí desdobra-se em consultas — presenciais e online — workshops, e a página de Instagram, criada recentemente, na qual, com graça, vai dizendo umas verdades.

Com este livro quer que as miúdas não façam do período um bicho de sete cabeças, mas que saibam quando têm que agir. As dores menstruais não são normais — quase que lhe apetece gritar — e enquanto a classe médica não acorda para um mundo onde a pílula não é a solução para tudo, pede mais sentido crítico a quem menstrua. É que há bons médicos, pena é que ainda os tenhamos que procurar.

Onde estava quando o período apareceu pela primeira vez?
Estava de férias com os meus avós em Agosto. Tinha 13 anos.

Foi uma situação tranquila?
Eu estava mais do que preparada. Desde os 9 anos que contava os dias para que o período me aparecesse, andava sempre a olhar para as cuecas. A minha mãe menstruou aos nove, as minhas amigas já tinham todas o período e eu nada.

E sendo o período algo fisiológico e natural, sentias que havia necessidade de um livro sobre o tema?
A questão é que não havia um livro sobre o período escrito em português, por isso acho que há aqui uma lacuna, uma falta de informação para as miúdas que vão menstruar. Faltava algo que falasse para estas miúdas, numa linguagem que elas entendam. Nada daqueles manuais chatos, que explicam aos pais o que se passa na puberdade, mas sim uma coisa que diga às miúdas que isto é tranquilo.

Alguém me dizia outro dia que este livro parece que um amigo está a falar contigo. Normalmente tens a mãe ou a irmã mais velha com quem falar, mas depois vais buscar informação entre pares. E essa é informação que vem carregada de desinformação.

Patrícia Lemos, educadora menstrual. "As mulheres sabem zero sobre o seu ciclo menstrual"
Patrícia Lemos, educadora menstrual. "As mulheres sabem zero sobre o seu ciclo menstrual"
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Costuma ser procurada por raparigas mais novas, em idade da primeira menstruação?
Geralmente são as mães que me procuram, para se informarem e perceberem o que podem fazer. Antes da pandemia tive umas sessões que se chamavam "Mães, miúdas e menarca" e aí havia muito esta dinâmica de mãe e filha, mas muitas até já entravam sozinhas nas sessões.

Curiosamente, agora recebo no Instagram mensagens de miúdas com a idade da minha filha, com dúvidas sobre a pílula e os períodos.

Patrícia Lemos
Patrícia Lemos é terapeuta menstrual e autora do "Período"

As dúvidas da sua filha também a ajudaram a escrever o livro?
Ela estava bem acompanhada quando lhe apareceu o período. Mas o dia em que a menstruação aparece acaba por ser sempre confuso. Ficas contente, mas choras sempre um bocadinho. Ficas sempre a pensar "mas o que é que me está a acontecer e o que é que vai acontecer a seguir?".

Essas experiências ajudaram-me a escrever o livro, claro, e a minha filha era quase a minha editora privada. Ela via os textos antes de eu os enviar para a editora e fazia sugestões.

Escreve sobre os mitos ligados à menstruação, como as mulheres menstruadas não poderem lavar o cabelo ou bater claras em castelo. Ainda há quem acredite nisso?
Felizmente, já não existem essas proibições. Acontecem quase só em casos anedóticos e a maioria das pessoas tem capacidade crítica para perceber que não faz sentido.

Já sabemos que podemos lavar o cabelo ou bater claras em castelo, mas há outros mitos que prevalecem.

Quais?
Os que dizem que somos hormonais e que quando o período está para chegar temos vontade de comer chocolate.

Endometriose. A doença dolorosa que é confundida com dores menstruais
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Isso é um mito?
Nos últimos anos, a ciência tem-nos mostrado que sim. Não somos mais hormonais nessas alturas e o chocolate é uma espécie de carta branca que te dás e que te diz que nessa altura é válido comer chocolate. As mulheres odeiam que se diga isto, até porque vêm com aqueles argumentos do "mas eu sinto que preciso" ou "o meu corpo está a pedir".

Ainda que se fale cada vez mais da menstruação de uma forma aberta, ainda é algo vivido com vergonha?
Temos que distinguir aqui duas coisas: uma coisa é a vergonha, outra é a etiqueta social. É que agora vem toda a gente dizer que não há tabus, que já toda a gente fala sobre tudo sem vergonha. Mas temos muita vergonha e essa vergonha vem da dificuldade em dissociar o ciclo menstrual de uma patologia ou doença. Ainda não vemos o ciclo menstrual como uma coisa que nos pode ajudar a saber o que se passa com a nossa vida e a nossa saúde. Vemos isto como uma maçada e um meio para atingir um fim, se algum dia quisermos ficar grávidas. O ciclo menstrual é muito mais do que isso. É um barómetro de saúde, é uma espécie de lanterna que vai à frente a iluminar e a orientar. É uma espécie de GPS interno.

Tendemos a pensar no ciclo como algo que nos acontece, sobre o qual tu não tens controlo nenhum. Mas o ciclo não é algo que simplesmente acontece, é uma resposta do corpo à envolvência e àquilo que tu lhe dás. Temos que assumir que o ciclo está corelacionado com a forma como cuidamos de nós e tem um sistema de biofeedback; ou seja tu dás-lhe uma coisa e ele dá-te a resposta.

A forma como encaramos a menstruação seria diferente se fossem os homens a menstruar?
Há um poema escrito em 1978, o If Men Could Menstruate, da Gloria Steinem, que fala exatamente sobre isso. Lês aquilo e é tão atual que é assustador. É uma sátira em que diz se os homens menstruassem, os mais valentes seriam os que usassem os tampões maiores, ou que quanto mais fluxo melhor.

Tenho a certeza que se isto fosse um assunto de homens, as coisas estariam num outro ponto. Não faz sentido chegar a 2020 com tanta dificuldade em diagnosticar endometriose e coisas do género.

Há aqui um gap de género, que se vê na forma como as queixas das mulheres são ou não valorizadas, por exemplo. Se bem que isto também é um assunto de homens, não podemos esquecer que há homens trans que são também pessoas que menstruam.

Esta falta de conhecimento é culpa de quem?
É culpa de todos, é culpa da evolução dos últimos anos que, com a contraceção hormonal, nos afastou de tudo o que sabíamos até aí. É certo que tínhamos mulheres a ter dez filhos, mas agora é como se tivéssemos negado tudo e tivéssemos construído agora uma estrutura nova na qual controlamos a nossa fertilidade, mas com um controlo feito com a contraceção hormonal. O problema foi termos perdido o conhecimento anterior. Estacionamos na ovulação a dia 14, quando sabemos hoje que não é isso que acontece.

Precisamos todos de nos atualizar: educadores, pais, mulheres, pessoas que menstruam, médicos.

período
O livro é da editora Booksmile e custa 12,99€.

O que tem a dizer aos médicos que receitam a pílula como resposta para tudo?
Aos médicos não tenho nada a dizer. Às mulheres digo para comprarem o "Período" [risos] e que procurem outros médicos. Há bons profissionais dispostos a ouvir as suas queixas, a encontrar novas soluções para velhos problemas.

Quais são as situações em que uma mulher deve procurar ajuda médica em questões relacionadas com o período?
Sempre que há uma patologia, precisamos de um médico. Seja se temos dores, se ficamos incapacitadas emocionalmente ou fisicamente, se temos fluxos muito abundantes (sinal de mioma, por exemplo), se temos falhas ovulatórias. Se estivermos num ciclo de 25 a 35 dias, com fluxos vermelhos, sem dores de maior, está tudo ok. Se sairmos deste padrão, procurar ajuda para ver o que se passa com este barómetro de saúde.

Mas apesar de tudo isto — e tal como escreve na capa do livro — isto não tem que ser um bicho de sete cabeças, pois não?
Nós na escola também aprendemos que, se comermos, o aparelho digestivo faz a digestão e que tudo o que está em excesso tem de se excretado. Se vomito, se não consigo ir à casa de banho, se tenho dores de barriga cada vez que como ou se tenho azia, sei que alguma coisa não está bem. No ciclo menstrual é a mesma coisa: é uma função do corpo, só que desta vez ovulas e deitas fora o endométrio. Se alguma coisa está fora desta cadência, então eventualmente alguma coisa não está bem.

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