Em 1519 Fernão de Magalhães começou a primeira viagem de circum-navegação pelo mundo. Não a concluiu, acabando por morrer durante a expedição numa batalha em Cebu, nas Filipinas, mas deixou um legado de coragem e memória que leva os portugueses, 500 anos depois, a relembrar os feitos alcançados.

Aliás, não só a relembrar como a refazer. Isto porque este domingo, 5 de janeiro, o Navio-Escola Sagres saiu do porto de Santa Apolónia para dar início a um volta ao mundo a propósito das celebrações do V Centenário da Circum-Navegação de Fernão de Magalhães.

A viagem vai durar 371 dias — com regresso a Lisboa previsto para 10 de janeiro de 2021 — e vai ser a mais longa das três viagens de circum-navegações realizadas neste navio da marinha portuguesa, passando nesta edição por 19 países diferentes.

Mas o que que permitiu que uma viagem que durou três anos no tempo de Fernão de Magalhães, se faça agora em pouco mais de um ano? "A grande diferença é que eles não sabiam ao que iam. Não sabiam a que distância estavam de terra. Não sabiam se na terra mais próxima iam ser bem ou mal recebidos, se havia água e alimentação para abastecer. Agora não. Sabemos a meteorologia que vai estar amanhã, temos as cartas de navegação que dizem onde está o porto mais próximo e mais ou menos quando chegamos", explica à MAGG Pedro Proença Mendes, último comandante do Navio-Escola Sagres a fazer a volta ao mundo, oficial da marinha e diretor da Aporvela, Associação Portuguesa de Treino de Vela.

O ex-comandante do Navio-Escola Sagres refere que há apenas uma característica que se mantém nestes 500 anos que separam as duas circum-navegações: o mar. Continua a ser o mesmo e quando é severo não abre exceções, quer estejam os marinheiros muito bem preparados ou não.

A par de tudo o que vai acontecer nesta nova expedição, Pedro Proença Mendes contou à MAGG todos os projetos científicos que vão acontecer a bordo do Navio-Escola Sagres. Além dos testes para medir parâmetros da água e da atmosfera com o objetivo de atualizar o último estudo feito nos anos 40, a tripulação vai recolher diariamente água das zonas por onde vai passar para analisar a quantidade de microplásticos presentes.

A bordo levam também uma linha de pesca, com o objetivo de, sempre que houver oportunidade, serem recolhidos peixes para uma posterior análise da sua alimentação e verificação da presença dos tais micro plásticos no organismo.

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A motivação

Perto das 8h30 deste domingo, 5 e janeiro, familiares das centenas de marinheiros que já estavam a bordo do Navio-Escola Sagres começavam a reunir-se no Terminal de Santa Apolónia. À medida que chegam, o nervosismo aperta, mas mais apertados ainda foram os abraços no momento da despedida.

As fotografias tiradas antes de deixarem os filhos, maridos ou irmãos partir ficam marcadas por um único pensamento: os 371 dias que faltam até terem a oportunidade de tirarem uma nova fotografia.

Ficar longe da família é talvez uma das principais dificuldades de embarcar numa viagem tão longa, algo que afeta o estado psicológico de cada tripulante. Pedro Proença Mendes revela que a entreajuda é a palavra chave durante esta viagem, ainda que admita ter usado outra ferramenta quando passou pela experiência.

"O Facebook. Numas crónicas contava às nossas famílias e amigos o que é que estávamos a fazer. E o reforço positivo nos comentários, o apoio de quem acompanhou a viagem em terra, foi a coisa mais espetacular que me aconteceu naquela viagem", conta à MAGG.

A motivação não só é importante pelo facto de ser difícil estar um ano longe de casa, mas também pelo facto de em cada porto terem de chegar com um sorriso como se fosse o primeiro e onde têm que estar disponíveis para receber as visitas.

Da caravela para o navio

Marta Martim, voluntária na Aporvela, já teve a oportunidade de navegar no Navio-Escola Sagres durante 15 dias. À MAGG conta que a experiência foi incrível e que medos teve apenas um. "Para mim o pior é sempre subir ao mastro, porque tenho imenso medo de alturas e é sempre uma superação. Mas em equipa é mais fácil e eles ajudam".

Marta Martim, voluntária na Aporvela, já teve a oportunidade de navegar no Navio-Escola Sagres durante 15 dias.
Luís Pereira

A simpatia, ajuda e disponibilidade para ensinar, são três aspetos que Marta destaca sobre a guarnição da Sagres durante a sua viagem, que foi enquadrada num projeto diferente.

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"Mar de Oportunidades", assim se chamava, levou jovens da Casa Pia a bordo do navio. "Muitos deles depois decidiram seguir para a marinha. Conseguimos criar o espírito e a vontade de navegar", conta Marta que admite ter orgulho em poder dizer que já andou no Navio-Escola Sagres.

Agora, e num contexto diferente, é a vez de outros membros da Aporvela entrarem a bordo. Isto porque a associação é uma das parceiras da Marinha Portuguesa nas celebrações deste quinto centenário, dando por isso oportunidade a 50 “civis” (instruendos na Aporvela) de embarcar durante 7 dias no navio que vai dar a volta ao mundo.

Roupa quente — principalmente gorro e luvas — roupa de uso diário e itens de casa de banho são algumas das coisas que vão na mala de João Neves, tripulante da caravela Vera Cruz, da Aporvela. O jovem revela que está motivado e que vai ser uma nova realidade.

João Neves, tripulante da caravela Vera Cruz
Luís Pereira

"A caravela [Vera Cruz] é muito mais pequena e o objetivo é mesmo embarcar jovens. Neste caso é um navio militar num contexto muito diferente. Sinto que é um privilégio enorme estar aqui", diz à MAGG.

João Neves continua a descrever o percurso: os "civis" vão ocupar os lugares dos cadetes no navio até Tenerife, a maior das ilhas Canárias espanholas, e depois regressam a Portugal. São apenas sete dos 371 dias que o navio vai estar a bordo, mas João considera que vai ser uma boa oportunidade para aprender a ter disciplina: desde as tarefas, aos horários de refeições e cerimónias.

Também Filipe Costa, imediato da caravela Vera Cruz, vai embarcar durante uma semana no navio e refere que esta expedição tem um simbolismo especial para os portugueses e marinheiros: "Faz com que voltemos ao tempo das descobertas em barcos portugueses".

Esse recuar no tempo é feito com ainda mais intensidade através desta oportunidade de embarcar "civis" para "que o povo português possa conhecer um bocadinho melhor do que é este navio emblemático", diz Filipe, e Pedro Pinto Correia, tripulante da caravela Vera Cruz acrescenta: "Integrar uma equipa destas é passar pelo deslumbre de navegar num dos navios mais bonitos do mundo".

Pedro Pinto Correia vai estar pela terceira vez a bordo com a marinha portuguesa e admite que na primeira a equipa estava um pouco renitente, mas depois começaram a abrir-se mais.

O objetivo é colaborar "quando eles estão naquelas manobras mais fáceis, como puxar cabos" e não substituir a equipa, até porque isso seria impossível, diz Pedro.

Filipe Costa (esquerda), Pedro Pinto Correia (centro) e João Neves (direita)
Luís Pereira

"Há piratas há"

Quando falámos com Rui Santos, gestor da Aporvela, sobre os perigos do mar, umas das primeiras coisas que disse quando descartámos a relevância da pirataria foi: "Há piratas há".

Rui Santos, gestor da Aporvela
Luís Pereira

Mas, acima de tudo, o mar é o principal perigo e, por isso, é o respeito pela natureza que mais ordena. Contudo, hoje em dia, com os equipamentos, sobretudo de eletrónica, é fácil saber quando o mau tempo ou as condições do mar serão mais severas, de forma a poder planear um desvio com antecedência.

"Quando há uma tempestade no mar, tentamos resguardar-nos mais do que o normal e, além disso, temos a certeza de que o navio do ponto de vista da segurança está bem preparado", diz. Para isso é necessário que antes de seguir viagem as revisões e manutenção sejam feitas e sejam estabelecidos contactos com os portos e entidades de destino.

"Depois também é preciso preparar os tripulantes, tanto do ponto de vista do seu equipamento, como a nível mental para estar tanto tempo fora de casa, longe da família", refere Rui Santos.

A experiência de um ex-comandante

Pedro Proença Mendes recorda o ano no qual esteve à frente do Navio-Escola Sagres como o melhor ano da sua vida, apesar da exigência de liderar 150 pessoas durante tanto tempo, além do desafio de enfrentar os desafios do mar. Mas desse ano em que passou por vários continentes trouxe, além de muitas histórias para contar, uma perceção diferente sobre o seu próprio País.

Pedro Proença Mendes, diretor da Aporvela e comandante da caravela Vera Cruz
Luís Pereira

"Percebi que o nosso País é enorme. É muito maior do que aquilo que nós podemos imaginar. Quando chegámos ao Japão tivemos a honra de receber uma princesa imperial a almoçar a bordo, pela dimensão que eles consideram que Portugal tem. Nós nem imaginamos a perceção de Portugal no Egito, na Tailândia, no Japão ou na Indonésia, onde nos trataram de uma forma excelente", conta.

Na volta ao mundo que começou este domingo, 5 de janeiro, o navio vai também passar por estes países, e desta vez a visita ao Japão vai ser especial já que vai ser a casa de Portugal durante os Jogos Olímpicos, que irão começar em julho, em Tóquio.

Pedro vê a nova tripulação partir e quando perguntámos se tinha alguma mensagem para a equipa da nova expedição, o ex-comandante diz: "Inveja [risos]. Mas no fundo desejo que tenham muita força. Vão haver momentos muito bons, momentos menos bons, mas têm de estar muito focados e controlarem-se uns aos outros. Quando há um que está a fugir do caminho, os outros metem-nos no caminho. Porque um acidente ou atitude menos refletida de um, estraga a viagem de todos".

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