A viagem de comboio do Carrascal a Tomar leva 15 minutos. O caminho tende a seguir tranquilamente, mas, para Sara Sequeira, 28 anos, o percurso na sexta-feira, 4 de setembro, foi atribulado. É que, logo no início, o revisor que lhe vendeu um bilhete não se cingiu às suas obrigações profissionais. "Esteve sempre a olhar para o meu decote e no fim proferiu a célebre frase", conta à MAGG a modelo plus size e freelancer na área do digital.

A célebre frase proferida foi "ainda bem que não está frio lá fora ou as mamocas constipavam-se"e foi título em várias notícias nos últimos dias. Assim que o episódio se deu, Sara ligou à mãe. "A minha mãe disse-me que tinha de ir denunciar a situação. Disse-me que este tipo de comentário é inadmissível. E se mo fez a mim, também faria a outras pessoas."

E assim foi. Sara fez queixa nos Comboios de Portugal (CP), escrevendo no livro de reclamações. "Quando fiz a queixa, confrontei-o [ao revisor], disse-lhe que era uma falta de respeito e que ele não podia tratar as pessoas assim."

O revisor não sem mostrou arrependido, tendo questionado, aliás, o mal que lhe havia feito. Mas não só não pediu desculpa, como culpou Sara pela situação. Como se vê no vídeo que a modelo publicou no seu Instagram (e que entretanto já se tornou viral), este homem afirmou que Sara não podia andar assim vestida num transporte público, acusando-a de estar a provocar os homens.

Instalada a controversa, a CP emitiu um comunicado a condenar a atitude deste funcionário, mas Sara quis ir mais longe. A queixa no livro de reclamações não era suficiente, a situação teria de ser reportada às autoridades. Já foi duas vezes à GNR, mas a esquadra estava fechada. "Só hoje é que vou formalizar a queixa contra o homem", explicou na terça-feira, 8 de setembro.

"Só li os comentários no primeiro dia. Decidi pôr uma música de circo para lidar com isto, porque isto é uma palhaçada"

Entretanto, com as tais notícias sobre a situação a correrem as redes sociais, a polémica escalou. A modelo, formada em Línguas e Comunicação, decidiu que só havia uma forma de conseguir aventurar-se pelas caixas de comentários do Facebook  "Eu só li os comentários no primeiro dia. Decidi pôr uma música de circo para lidar com isto, porque isto é uma palhaçada", conta. E conclui: "O pensamento daquele homem não é um pensamento único. Portugal pensa assim. Viu-se pelas pelos comentários e mensagens. "

Mas não é só às caixas de comentários das notícias partilhadas que chegam as mensagens depreciativas. O seu Instagram, plataforma que utiliza para promover os princípios do amor-próprio e da aceitação, onde também lhe têm chegado palavras de apoio, tem sido, em simultâneo, invadido por este tipo de "ódio". E tanto é assinado por homens, como por mulheres.

Passageira assediada por revisor da CP. "E quando as mulheres são machistas?"
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"Quando temos pássaros numa gaiola e abrimos a porta, nem todos saem. É o que acontece com as mulheres: elas foram tão oprimidas a vida toda, que se abre a porta e elas não se conseguem sair", diz a modelo plus size, numa alusão às mensagens que têm recebido e cujo conteúdo diz coisas como "estavas mesmo a pedi-las."

Há uma mensagem que a marcou mais. E Sara não nos esconde isso na voz: "Houve um homem que me enviou uma espécie de poema, que dizia coisas como, as 'mulheres são para ser pisadas  para que amadureçam' ou devemos 'matá-las de tanto amor'", relata. "Isto é um reflexo da nossa sociedade. Este tipo de homem é aquele que bate nas mulheres, são os que violam, os homens que matam."

 "Isto é uma coisa que nos acontece desde pequeninas"

As mamas de Sara começaram a desenvolver-se quando tinha por volta de dez anos. Apesar da idade, começou desde então a ser sexualizada. "Desde pequenina que sofro este tipo de coisas", conta. "Quando estava no básico, os rapazes faziam rodas para me apalparem, levava com bocas de 'mamalhuda', estava a correr e tinha os rapazes a verem o meu peito", lembra. "Isto é uma coisa que nos acontece desde muito novas, desde que o nosso peito se desenvolve. E, infelizmente, são comportamentos normalizados."

Esta sua característica gerava vários "pretendentes". Sara não alimentava, o que gerava dois resultados: "Ou me chamavam 'puta' ou me chamavam 'lésbica'", lembra. "Só dei o meu primeiro beijo aos 18 anos."

Na faculdade, os comentários continuaram: "Sempre tive de lidar com este tipo de situações. Com gola alta ou com decote, eu vou ter sempre peito e isso chama a atenção." E não raras vezes vinham das suas colegas: "Havia uma colega que estava constantemente a puxar-me a camisola para cima. E comentavam as suas fotografias, ora frente ao espelho, ora seminuas. "Diziam-me: 'Se eu fizesse com isso o meu pai morria de vergonha'", lembra. "Nunca tive problemas com o corpo. O corpo é um corpo, só isso, toda a gente tem."

Apesar de ter crescido a ouvir este tipo de comentários, Sara não se deixou ir abaixo. Por ser muito fotogénica, começou a trabalhar como modelo há cerca de dez anos, ainda que nunca fosse admitida como manequim, novamente, por causa do tamanho do seu peito. "Tinha poucos trabalhos. Mas no último ano, o fluxo aumentou: De há um ano para cá houve o boom do plus size em Portugal e comecei a ter mais trabalhos."

Este é um dos temas contra os quais Sara tem lutado na sua conta de Instagram, especialmente a partir da sexta-feira, 4 de setembro.  O volume aumentou desde que viveu este episódio no comboio da CP. Criou o movimento  "não nos vamos calar", uma  batalha pela "liberdade", pelo "fim do machismo" e pelo fim da "normalização do assédio." É um grito de revolta.

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