Ana Catarina Monteiro, 20 anos, nunca foi uma pessoa de deitar fora a roupa que já não quer, pensando que há sempre quem goste ou precise dela. Também não é de comprar só porque sim — e nunca lhe fez espécie vestir aquilo que já foi de alguém. Na base destes hábitos poderá estar a influência da mãe: sempre costurou parte das suas roupas, sempre se interessou pelo mercado em segunda mão e por este princípio que é o de promover a economia circular dos nossos bens. A tudo isto soma-se a consciência do impacto ambiental da industria têxtil: de acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente, em Portugal, foram recolhidas 200.756 toneladas de tecido em resíduos urbanos. Se somarmos o valor total dos sete anos anteriores, o número sobre para 1,2 milhões de toneladas de têxteis.

Só que a estudante do curso de Gestão e Contabilidade do Instituto Superior de Contabilidade e Administração, no Porto, deparou-se frequentemente com os mesmos obstáculos nestas suas jornadas de compra e venda em segunda mão. Por um lado, para vender teria de andar a distribui-las por várias lojas ou por diferentes plataformas online, onde se vende de tudo um pouco. Não havia nada pensado, especificamente para isto. Por cima disto, não havia nenhum serviço que facilitasse a vida a quem quer destralhar o armário, indo a casa buscar aquilo que já não faz falta.

Em tempos de pandemia, a estudar em casa, Ana Catarina Monteiro lembrou-se de criar a solução para os dois problemas. Uniu forças com o irmão Fernando Monteiro, 32 anos, a trabalhar na área de gestão e logística, dupla a quem se juntaram mais três elementos de equipa para a concretização do plano que foi desenhado: criar a Mycloma, uma plataforma online de recolha, compra e venda de roupa em segunda mão. 

roupa

"Há muita gente que não está disposta a ter o trabalho de se deslocar para doar ou vender a roupa, ou colocá-la nas várias plataformas online. Por isso, falei com o meu irmão, que viu que este era um problema real. Esquematizámos um modelo para chegarmos a esta solução", conta Ana Catarina Monteiro à MAGG.

E acabaram por resolver os tais dois problemas: quem gosta pechinchas em segunda mão, tem aqui uma montra virtual, onde pode fazer as suas compras — e onde vai encontrar desde peças da Zara a outras da Levi's ou Bimba y Lola; e quem tem roupa que já não lhe faz falta, pode solicitar o serviço de recolha através do site (e que funciona de norte a sul do país), para que depois esses mesmos itens venham a constar da loja digital.

Mas além de acabada de lavar, a roupa que segue para venda deve respeitar critérios: tem de estar em bom estado, sem manchas permanentes, rasgões ou odores; não se aceita roupa íntima, de dormir, de banho (excepto com etiqueta), ou de casa (toalhas, lençóis, cobertores). Não se aceitam também bijuterias, falsificações, vestidos de noiva ou fatos de casamento. 

Sobre os preços, Ana Catarina Mendes explica que depois de feita a pré-selecção dos itens que foram entregues (etapa em que se assegura que seguem os critérios supra referidos), são analisados outros pormenores para que se chegue a um valor "justo": a marca, as marcas de uso ou a atualidade da peça. "Pesquisamos, vemos os preços novos da marca,  e tentamos chegar a um valor justo."

E a pandemia? Nada a temer. "Assim que a encomenda chega, quem solicita a recolha recebe um email a dizer que a entrega já está no escritório e esperamos alguns dias até proceder à valorização — assim a roupa, que já terá sido lavada, tem tempo para repousar e arejar. Quando abrimos as caixas, temos o cuidado de colocar máscaras e luvas. É o que a altura exige."

Todos os itens que não são colocados à venda podem seguir para dois caminhos: ou de volta para casa dos antigos donos ou rumo a associações ou Organizações Sem Fins Lucrativos.

mycloma

O projeto, sediado no Porto, foi lançado dia 18 de maio, com uma equipa constituída por seis pessoas: além dos irmãos Monteiro, inclui-se Raquel, mulher de Fernando, que faz a gestão das redes sociais, apoio ao cliente e trata de questões ligadas à logística e de stock; Rodrigo Passos, responsável pela gestão de encomendas, recolhas, envios e publicação de artigos no site; Inês Juvandes, designer gráfica, responsável pela imagem da marca e pela comunicação nas redes sociais, sem esquecer Margarida Moreno, voluntária do projeto, sediada em Lisboa.

A primeira fase da Mycloma foi um sucesso imediato. "Era um projeto completamente novo e a verdade é que nos surpreendeu muito pela positiva: em pouco mais de um mês, conseguimos 5.000 peças, 250 pedidos de recolha e doamos mais de 2.000 itens a associações e ONG. Temos pedidos todos os dias, o que é incrível."

Com esta sua ideia, Ana Catarina Monteiro e o resto da equipa acabaram por ficar sem fins de semana. Todos têm trabalhos a tempo inteiro noutros sítios e, de repente, ganharam outro. Chama-se Mycloma: a junção dos termos "my", clothes" e "market".

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