Há algo de profundamente simbólico no facto de a beleza coreana ter conquistado o mundo, porque não se trata de excesso, mas de subtileza. O Korean Look, estética que trocou o contorno severo pelo blush difuso e o matte absoluto por um brilho que quase ofusca, tornou-se o novo ideal global de beleza. A pele deixou de ser palco de disfarce e passou a ser sinónimo de luz, textura e, sobretudo, verdade.
Este movimento começou como uma resposta à saturação de maquilhagem pesada. O objetivo era criar uma pele que parecesse cuidada e não coberta (ou seja, uma maquilhagem que emanasse saúde, juventude e autenticidade). O Ocidente rendeu-se depressa e as marcas reinventaram fórmulas, maquilhadores repensaram técnicas e as redes sociais fizeram o resto, transformando o Korean Look num fenómeno.
Assim sendo, não é de espantar que tudo o que venha da Coreia do Sul pareça transformar-se numa tendência: seja a skincare, a maquilhagem ou o ideal de pele que conquistou o Ocidente. É por isto que, mais do que uma simples estética, o Korean Look é uma forma de olhar para a beleza como algo mais natural. E há uma razão lógica para isso.
À MAGG, Mário Dias, National Makeup Artist YSL Beauty e trend expert, afiança que esta vaga "tem um bocadinho que ver com o confinamento na Covid", sendo que "houve uma paragem muito grande das produções e do consumo, e os asiáticos viram-se forçados a melhorar os componentes das marcas próprias". A partir de então, houve um boom.
"Sabemos que estão a abrir lojas coreanas em Lisboa, em todas as capitais do mundo, porque a consumidora procura”, diz-nos o especialista. E é essa procura que explica o impacto global de uma pele que parece “sem maquilhagem, mas que tem um acabamento natural e muito glowy”. Mas, afinal, quais são os segredos para atingir este aspeto?
A fusão entre tratamento e maquilhagem
No coração do Korean Look está a pele, que é a base de tudo. "Quando se pensa num look coreano, pensa-se numa pele natural, glow, tendo como base muito tratamento", resume Mário Dias. O segredo, segundo ele, está nos produtos híbridos: maquilhagem com ingredientes de skincare. E não há como não puxar a brasa à sua sardinha.
“A nossa nova base [All Hours Glow] tem 86% de ativos de tratamento. Tem ácido hialurónico, pétalas de jasmim e ativos que dão aquele brilho molhado, mas sem oleosidade. Ao fim do dia, a pele tem menos imperfeições do que de manhã", diz o maquilhador. Esta fusão de tecnologia e cosmética responde a um desejo contemporâneo de simplificação, já em voga em tantas outras marcas.
Assim, para atingir o Korean Look, o foco está numa maquilhagem que trata e numa skincare que embeleza. Até porque esta estética não passa por esconder, mas por aperfeiçoar. "É quase um prolongamento do tratamento", confidencia o makeup artist, que acrescenta que este género de maquilhagem é a evolução de um conceito já existente.
"É um prolongamento do estilo nude, mas ao estilo asiático", confirma, acrescentando que o mesmo também se aplica ao conhecido conceito "no-makeup makeup". "Uma pele natural, um blush cherry vivaz e um lábio semi-apagado. É tudo muito confortável, quase parece que está molhado", afirma.
A "glass skin" não tem de ser demais
O brilho é essencial, mas o equilíbrio é tudo. “Há muitas pessoas que têm medo de ficar com a pele oleosa, mas o truque está em escolher produtos certos”, diz Mário Dias. É aqui que entram, mais uma vez, os produtos híbridos. “A base com tratamento certo não aumenta a oleosidade – dá conforto e luminosidade natural", reitera.
Além disso, há uma técnica infalível e que nunca deve ser descurada, neste ou noutro género de looks de maquilhagem: fazer uma boa preparação de pele e sempre aplicada às necessidades da mesma. Ou seja, se tiver a pele oleosa, não use cremes ou protetores solares muito untuosos e, por outro lado, se tiver a pele seca, não use os matificantes, que vão comprometer tudo o que vier a seguir.
O segredo, lá está, passa pelo equilíbrio de saber hidratar sem pesar ou controlar sem ressecar, porque uma pele bem preparada é o verdadeiro alicerce de uma boa maquilhagem (especialmente da que pisca o olho à beleza coreana, diga-se). Depois, é tudo uma questão de aplicação e de saber jogar bem com os produtos.
"Aplicar sempre a base do centro para o exterior do rosto" é uma das dicas de ouro que o especialista dá. "Nunca se deve aplicá-la das laterais para o centro, porque podem criar-se linhas visíveis", continua, acrescentando que esta deve ser sempre utilizada em "camadas leves", dando um efeito de segunda pele. Só assim é que "a naturalidade é garantida", confirma.
Quem precisar de mais luminosidade, pode sempre usar um produto de skincare que "ative a luz natural da pele". Para quem tem muitas imperfeições, também há solução. "Usar um corretor apenas nas zonas que precisam", explica, referindo-se aos que têm cor – verde anula vermelhidões, lilás neutraliza tons amarelados, e os mais rosados dão vida a peles apagadas.
Blush e pó? Use-os, mas estrategicamente
No Korean look, a máxima de "menos é mais" aplica-se na perfeição, mas isso não significa que tenha de abdicar de certos produtos que façam parte da sua rotina. É fã de um bom blush? Pode usá-lo. Não consegue sair de casa sem selar tudo muito bem, mas não quer comprometer o brilho com que esta estética vem de mãos dadas? Basta ter atenção à forma como aplica o pó.
Em relação ao blush, em primeiro lugar, o especialista recomenda a um exercício de reflexão, percebendo que texturas "temos jeito para trabalhar" – será pó, líquido ou creme? Depois disso, é aplicar "nas maçãs do rosto" levemente, dando ainda "um toquezinho" na zona do arco da sobrancelha, que "vai criar o que se chama harmonia invisível".
Quanto ao pó, o conselho passa por usá-lo apenas onde faz diferença. “Se tiver uma 'zona T' mais oleosa, dá-se aí um acabamento mais matte, mantendo o glow no resto do rosto. É tudo uma questão de doses muito fininhas e de aplicação estratégica", afirma. O especialista recomenda sempre um pincel suave ou a borla (ou powder puff), explorando as diversas opções para controlar intensidade e conferir o acabamento desejado.
O contorno deve ser (quase) invisível
O Korean Look não é sinónimo de um rosto pouco esculpido, mas de algo subtil e estratégico. Mário Dias explica que os "produtos têm de esbater muito bem", sendo que a ideia não é criar sombras dramáticas, mas realçar e suavizar, respeitando a naturalidade da pele e os respetivos tons.
Assim, o truque passa por "apostar maioritariamente em tons frios", já que estes vão "ajudar a manter a elegância do acabamento natural, evitando contrastes demasiado marcados". E claro, tem de aplicá-los apenas onde são necessários, criando uma sensação de definição sem alterar a essência do rosto.
Para quem quer um efeito ligeiramente mais sofisticado, o expert recomenda trabalhar a luz. “Quando se coloca um tom escuro na árvore do nariz, depois deve-se trabalhar muito bem a luz ao redor para garantir que os contrastes são naturais", afiança. O contorno funciona como uma ferramenta de correção e valorização dos traços, mas sempre com discrição.
Resumindo, o Korean Look resume-se a encontrar equilíbrio, com produtos que trabalham a favor da naturalidade. Como diz Mário Dias, cada escolha é "pensada para realçar sem mascarar". No dia a dia, isso traduz-se em praticidade, com poucas camadas, aplicação consciente e atenção às zonas que realmente precisam de correção.