Roberta Medina, empresária e produtora de eventos, herdou do pai o nome, o apelido e o Rock in Rio. Roberto Medina idealizou e criou o festival, que teve a primeira edição em 1985, e o brasileiro de 74 anos acabou por passar o testemunho para a filha.

A pouco mais de uma semana do arranque da 9.ª edição do festival, que acontece nos dias 18, 19, 25 e 26 de junho no Parque da Bela Vista, em Lisboa, a MAGG conversou com Roberta Medina acerca de como foi e como tem sido assumir esta responsabilidade num mundo (ainda?) machista. Tentámos perceber, também, de que forma há mulheres envolvidas no Rock in Rio.

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No festival de música, o sexo feminino representa nada mais, nada menos do que 63%. "A gente é muito feminino há muito tempo", assegurou-nos Roberta, que fala de uma "evolução dos últimos tempos" caracterizada por uma "migração" de mulheres para os mais distintos cargos ligados ao festival. "Hoje, o único lugar que só tem eu é nos sócios. Daí para baixo, é uma mulherada louca", explicou.

"Tenho dois irmãos mais velhos e quem estava à frente do Rock in Rio era eu"

O setor com menos representação feminina é o das "partes técnicas". "E aí é uma característica do mercado", salvaguarda a diretora do festival. "A cadeia produtiva da música está fraca nas mulheres, então tem que pensar como as atrair para lá. O trabalho a fazer é muito mais profundo", crê.

Questionada sobre se transporta estas preocupações para a elaboração do cartaz, esclareceu que não se trata de um processo linear e inflexível. A organização "não defende que tem de ser 50/50, de todo" no line-up. "Quando se faz um cartaz, é o que o público quer ver. Depende do sucesso e do potencial dos artistas" e não do género.

"Buscar equidade não. O que a gente busca é ter diversidade. Não buscamos números. O dia tem que ser coerente, tem que fazer sentido e tem que ter um artista que ajude a vender ingressos. Então, não tem aqui simpatia", justifica, referindo que é preciso atenção para "não cair no fácil que é montar um line-up masculino, porque existem mais artistas masculinos".

Roberta Medina
Roberta Medina é uma das muitas mulheres envolvidas no Rock in Rio, um dos maiores festivais do mundo. créditos: Imagem cedida

Embora lutem pela diversidade, Roberta acredita que "não é na mulher que a gente precisa de mais diversidade", dando a raça como um exemplo. "Muitos dos racismos nas várias áreas são estruturais. É consequência de gerações e gerações em que a coisa vive desequilibrada. Então, claro que tem que fazer esforço", admite.

"Neste momento, um trabalho que ainda precisa evoluir é nessa margem de diversidade", conclui, defendendo que têm de se levantar certas bandeiras. No que toca ao público do festival, "é mais feminino do que masculino, desde sempre", com cerca de 60% para 40%.

Mas qual é, afinal, a importância ou a mais-valia de ter o sexo feminino em peso no Rock in Rio? Para Roberta Medina, "o olhar feminino traz um cuidado humano muito maior, um ambiente mais doce, mais acolhedor, mais sensível".

Enquanto "muita da indústria masculina é pesada e bruta", a delicadeza da feminina, para a responsável, "acelera o cuidado para com as pessoas". "É a natureza do feminino, mais do que da mulher", terminou.

"Imagina eu, chegando em Portugal com 25 anos, cara de miúda, falando com um monte de marmanjos, num País conservador"

Enquanto mulher num cargo de liderança e numa indústria em que ainda predomina o género masculino, a empresária de 44 anos já foi alvo de bastante preconceito, embora, garantiu-nos, não se tenha deixado afetar pelo mesmo. "Uma parte disso tem que ver com a nossa própria postura. Quando a gente veste a carapuça do preconceito, da fragilidade, a gente já se coloca mais fracos", argumenta.

Focada nas tarefas e "empoderada", diz nunca ter parado para pensar demasiado nessas situações. "Eu lembro me divertindo, não me ofendendo", referiu. "Isso faz uma grande diferença. Não quer dizer que eu nunca reparei. Mas, se a pessoa se incomodou... ela teve de ir para casa e, quando voltar, vai levar comigo", apontou.

"Passei por algumas boas", contou-nos, usando como exemplo "uma situação desagradável em São Paulo, com um executivo idiota, tentando ser sedutor". "Foi tão ridículo que eu fiz a reunião de uma forma muito seca e saí fora", disse ainda, recordando um almoço de trabalho em Espanha, quando apenas se dirigiam ao seu colega homem e não a si.

Roberta Medina
Roberta Medina contou-nos algumas das situações em que foi vítima de preconceito. créditos: Imagem cedida

"Eu me calei até ele responder olhando para minha cara. Mas eu fiz me divertindo, não fiz me ofendendo com ele. Eu não estava me magoando achando que ele estava me desrespeitando… Estava, mas a minha postura não era de vítima. Se a gente se coloca, não tem tanto espaço assim para não sermos respeitados", considera Medina.

O género não foi o maior entrave do seu percurso. "O facto de o meu pai ter me passado mesmo a responsabilidade e não ter ficado aqui atrás respondendo, muita gente estranhou", confessou, acrescentando: "Imagina eu, chegando em Portugal com 25 anos, cara de miúda, falando com um monte de marmanjos, num País conservador".

"Quando comecei a trabalhar, era muito nova. Sinto que a maior parte dos desafios que vivi foi por ser filha, não por ser mulher", acha. Por ser filha do dono, muitos questionaram a sua credibilidade. "Eu tenho dois irmãos mais velhos e quem estava à frente do Rock in Rio era eu", recordou. E assim continua.

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