A proposta para regressar a este universo era simples: como estaria Johnny Lawrence (William Zabka) cerca de 30 anos depois de ter perdido o torneio de karaté para Daniel LaRusso (Ralph Macchio) no filme “The Karate Kid” (ou “Momento da Verdade”), lançado em 1984? Quando a série foi anunciada, em meados de 2018, as reações foram unânimes. Tinha tudo para ser um fracasso, dizia-se, uma mancha no legado deixado pelos filmes.

Seguiram-se três temporadas, a compra dos direitos de transmissão e de produção pela Netflix e a confirmação de novos episódios para breve. Falar no pós-jogo é sempre fácil, mas sabe-se agora que a visão para esta série de sucesso nunca teria permitido manchar o legado que começou a ser construído há mais de 30 anos.

É que o regresso a uma história que nunca pretendeu ser mais do que pura diversão e escapismo em forma de artes marciais, só podia ser feito assumindo e brincando, desde logo, com os clichês que fazem parte daquele universo.

E é exatamente isso que a série faz: faz troça dos exageros, analisando o legado deixado pelas personagens com que alguns cresceram habituados a ver no cinema. Só a compra dos direitos pela Netflix, no entanto, é que permitiria que aquela realidade chegasse a mais espectadores, especialmente os mais novos que nunca tiveram contacto com os filmes.

Mas uma série à luz do século XXI tem, obrigatoriamente, de lidar com questões como masculinidade tóxica, bullying e noções de bem e mal. E "Cobra Kai" passa as três temporadas a desconstruir tudo isso, enfatizando a questão do herói e da violência nos mais jovens.

Porque se em "The Karate Kid" o que encontramos é a ideia irrefutável de LaRusso como herói e de Lawrence como o vilão intratável, os episódios iniciais da série fazem um trabalho de desenvolvimento de personagem que os filmes nunca se atreveram (talvez porque não era esse o foco) a fazer. Nem Lawrence é totalmente mau, nem LaRusso é o típico herói a que os filmes nos habituaram porque, tal como os espectadores que acompanharam os filmes originais, também aquelas personagens cresceram, passaram por mudanças e viveram desgostos.

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Johnny Lawrence, por exemplo, tornou-se num alcoólico, desgostoso pela falta de propósito na vida e pela má relação que mantém com o filho. Desde o carro partido à aparência desleixada, tudo nele está errado. Daniel LaRusso, por sua vez, é um homem conceituada na área dos negócios, com um stand de automóveis cuja promoção assenta nos tempos áureos enquanto lutador. Mas, na verdade, todo este sucesso esconde o medo de perder a proximidade com os filhos, e até um certo saudosismo pelos anos em que lutava.

O guião, assinado por John Hurwitz ("American Pie: O Reencontro"), Hayden Schlossberg ("Grande Moca, Meu") e Josh Heald ("Jacuzzi — O Desastre do Tempo"), faz questão de traçar uma linha muito ténue entre as duas personagens, em parte porque cada um tem um bocadinho de herói e vilão dentro de si.

E se, no primeiro filme, era consensual que Daniel teria de ganhar, na série nem sempre queremos que seja ele a vencer na vida. Porque a escrita faz-nos perceber a origem de Lawrence e do que passou até se tornar na pessoa sem escrúpulos por que ficou conhecida.

Com a quarta temporada já confirmada, e a aguardar anúncio de data de estreia, esta é a melhor altura para ver (caso ainda não o tenha feito) “Cobra Kai”. Além de os atores principais estarem de regresso, há a promessa de que, à medida que a história for avançado, outros bem conhecidos dos filmes se juntem ao elenco.

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