Quase 30 anos depois da estreia, em 1994, a série "Friends" foi protagonista de um novo episódio — desta vez dirigido sob o lápis azul do governo chinês. A primeira temporada da sitcom norte-americana só voltou a estar disponível nos serviços de streaming da China a 11 de fevereiro, mas milhões de fãs já se aperceberam de diferenças significativas face à versão original.

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O caso mais notório da nova censura à sitcom dos anos 90 tem que ver com Carol, a ex-mulher de Ross, um dos seis protagonistas da série, cuja linha narrativa é totalmente excluída da nova adaptação. Depois de se divorciar de Ross, Carol assume-se como lésbica e entra numa relação homossexual com Susan, logo no arranque da primeira temporada. No entanto, só conhecemos o casal lésbico na versão original da série, já que na versão adaptada pelo governo chinês Carol e Susan são totalmente excluídas da produção.

"Orgasmos múltiplos" são traduzidos para "mexericos intermináveis"

Todos os diálogos sobre homossexualidade ou comentários de teor sexual foram igualmente apagados ou legendados em chinês de forma totalmente diferente do áudio original, com o intuito de alteração certas interações entre as personagens.

A cena em que Ross conta aos pais que se separou da mulher, por exemplo, não é, segundo o novo guião chinês, seguida da explicação original — e o segmento em que o jovem confessa que a ex-mulher é lésbica e vive com outra mulher desaparece do alinhamento. Em vez disso, como explica o "The New York Times", a cena passa diretamente para o ar surpreso dos pais de Ross, que se mostram surpreendidos apenas pela notícia de que vão ser avós e de que o casamento do filho chegou ao fim.

"Orgasmos múltiplos" são traduzidos para "mexericos intermináveis" e "incapacidade sexual" para "baixa auto-estima". Nestes, como noutros casos, a legendagem mudou, mas o diálogo original manteve-se, o que levou muitos internautas a ridicularizar a tentativa de censura.

Na rede social Weibo, estas e outras adaptações alcançaram rapidamente um lugar de destaque entre os assuntos mais comentados pelos internautas, com milhões de hashtags e comentários a criticar a censura. "Não percebo porque cortaram isto. 30 anos depois [da estreia de 'Friends']", comentou um fã. "Estamos a andar para trás", lê-se.

"Eles não querem, acima de tudo, que as mulheres do país deles possam emancipar-se", afirmou um utilizador do Weibo. "Não querem que elas saibam que as mulheres podem amar mulheres. Caso contrário, quem ajudaria os homens a continuar com as linhagens de família?", rematou. A Weibo, espaço digital chinês, apagou todos os conteúdos relacionados com "Friends" e eliminou a hastag #FriendsCensored e outras sobre o mesmo assunto.

A censura nesta plataforma digital é uma das formas mais comuns das autoridades chinesas suprimirem polémicas de toda a espécie. E, neste caso, desde domingo, 14, a busca pelo tópico "Friends" não apresenta qualquer resultado relacionado à nova censura chinesa face à série dos anos 90. Para todos os efeitos, exclusivamente com base na informação da Weibo, o incidente parece nunca ter acontecido.

Governo chinês não quer "aberrações" presentes em qualquer conteúdo cinematográfico ou televisivo

A série, segundo a CNN, estreou pela primeira vez nas plataformas de streaming chinesas, Sohu e iQiyi, em 2012, sem qualquer tipo de censura, mas o acordo televisivo terminou em 2013.

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Em 2016, foram emitidas novas orientações pelo governo chinês, que previam que as séries televisivas não podiam desenvolver narrativas que envolvessem relações homossexuais, relações extraconjugais, encontros de uma noite e relações amorosas que evolvessem menores de idade. Sendo que, em 2020, obrigou mesmo as televisões a evitar emitir o que considera "aberrações", dando como exemplo "homens efeminados" ou homossexuais.

Recorde-se de que esta não é a primeira vez que conteúdos relacionados com a série "Friends" são censurados na China. Depois do lançamento do episódio especial "Friends: The Reunion", em 2021, foram várias as plataformas de streaming da China que compraram o conteúdo e adulteraram a versão original, posteriormente sujeita a diversos cortes.

A aparição da banda sul-coreana de K-Pop, BTS, por exemplo, foi eliminada, com a justificação de que, como escreve o jornal "El Español", o grupo musical "contribuiu para as relações entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul".

Já Justin Bieber foi retirado do especial de televisão por já ter visitado o santuário da guerra de Sasukuni, em Tóquio, referente às guerras sino-nipónicas. À semelhança do que aconteceu também com Lady Gaga, cujo segmento na produção especial da série também foi excluído. Neste caso, por ser  oficialmente reconhecida como uma "persona non-grata" (expressão que significa que não é "bem-vinda" ou "querida") pelo Estado chinês desde 2016, depois de ter visitado Dalai Lama, líder do Tibete, região que a China declara como pertencente ao seu território.

Em Portugal, os direitos de emissão da série foram comprados pela HBO e a versão original das dez temporadas já está disponível no catálogo da plataforma de streaming.

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