Quando Joana Ribeiro recebeu os guiões de "Glória", a primeira série portuguesa da Netflix, a possibilidade de "contar uma parte da história portuguesa da qual não existem muitos registos cinematográficos" despertou-lhe o interesse, conta à MAGG. Afinal, a série escrita por Pedro Lopes e realizada por Tiago Guedes passa-se na RARET, o centro de transmissões americano localizado na vila de Glória do Ribatejo, e através do qual é emitida propaganda ocidental para o Bloco de Leste em plena Guerra Fria.

A sua personagem, explica-nos, trabalha na RARET enquanto tradutora. "Tendo vindo da Polónia, a Ursula [o nome da sua personagem], tem uma atitude muito diferente da mulher portuguesa da altura e isso acaba por fazer com que tenha comportamentos que não eram propriamente aceitáveis. Isso leva a que a sua vida tome um rumo inesperado e mais não posso dizer."

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Falar de "Glória" é, sabemos bem, arriscar revelar spoilers sobre uma narrativa em que, por ser repleta de espiões, quase tudo é segredo.

A surpresa face a um período da História da qual Portugal também fez parte é partilhada por Afonso Pimentel e Carolina Amaral, colegas de elenco. "Sou de 82, filho da revolução, e a importância de Portugal no pós-Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria é algo que ocupa três ou quatro páginas dos manuais da escola. Não saber que existia uma instalação daquela magnitude da CIA em Portugal é criminoso", diz-nos Afonso Pimentel.

Na série de dez episódios, que se estreia esta sexta-feira, 5 de novembro, o ator dá vida a Gonçalo, alguém que o próprio descreve como uma figura que "sempre sentiu uma vontade de pertencer a uma elite, o que, na década de 68, significava ser pró-governo".

A favor da ditadura que vigorou ao longo de 40 anos ininterruptos, portanto. E enquanto Gonçalo tenta "sobreviver por onde se sente mais confortável", mesmo que isso implique estar do lado da ditadura militar, Carolina, interpretada por Carolina Amaral, vive dividida entre uma inquietude perpétua.

"É uma rapariga que sempre viveu na Glória, mas que é atravessada por uma certa inquietude que a faz questionar o contexto em que vive e sonhar com outra realidade", diz-nos a atriz. É por isso, explica, que Carolina "não está a trabalhar no campo, junto da família, mas sim no refeitório da RARET". A atriz descreve-a como alguém que "tem um lado pueril e cândido, mas com um sonho que a transporta" e que a conduz a atitudes "mais impulsivas".

E embora a atriz fale na "descoberta de uma realidade que desconhecia [o papel de Portugal na Guerra Fria]", elogia a evolução das personagens ao longo do conflito.

"Nunca nada é demasiado simples. As coisas ficam turbulentas, o que ajuda ao mistério, e isso deixou-me muito investida na leitura [enquanto estudava os guiões]", conta.

"Temos muita dificuldade em ter orgulho em nós mesmos"

A poucos dias da estreia da série portuguesa na Netflix, disponível em inúmeros mercados, Carolina Amaral fala de uma hipótese de isto "abrir espaço para que o objeto, se for bem recebido, desperte o interesse de outras plataformas para investir no mercado, nas equipas e nos talentos portugueses".

Joana Ribeiro toma a palavra para argumentar que o facto de já haver produtos que são transportados para plataformas internacionais (o exemplo mais recente talvez seja o da série "Chegar a Casa", da RTP, que foi comprada pela Amazon Prime Video) é a "confirmação de que somos bons naquilo que fazemos".

"A questão não é tanto poderem ver-nos lá fora, mas sim as pessoas de Portugal terem orgulho naquilo que nós fazemos e verem que há coisas a serem feitas por portugueses, para Portugal e sobre a história de Portugal. Temos muita dificuldade em ter orgulho em nós mesmos e espero que esta série mude isso e leve o público português a ver mais produtos falados em português. Nós, ao contrário dos americanos, gostamos de legendas, mas temos dificuldade em ver o que é falado na nossa língua", refere a atriz.

À esquerda, Carolina Amaral. À Direita, Miguel Nunes créditos: Netflix

Joana Ribeiro, que já se internacionalizou e soma créditos de representação em produções como o filme "The Dark Tower" ou a série, ainda por estrear, "The Man Who Fell to Earth", é assertiva quando lhe perguntamos se o orçamento cedido a "Glória" (a primeira com este grau de investimento no País) nos aproximou das condições cedidas às produções internacionais.

"Estamos mais próximos, mas ainda há uma grande diferença. Os valores lá fora são bastante diferentes, o que permite às pessoas terem mais tempo. O facto de termos tido vários meses para poder fazer uma série com estes episódios foi espectacular e isso vê-se no resultado final. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Era bom que não tivéssemos de fazer omeletes sem ovos e houvesse mais investimento para que pudéssemos trabalhar com condições melhores."

É que a nossa ficção talvez seja heróica na medida em que faz muito com pouco, mas a atriz acha "importante que não felicitemos isso".

"Nós não temos uma indústria como a que existe lá fora", reforça.

Afonso Pimentel descreve um estado de inquietude que está presente em todos os atores portugueses. Ainda que as condições disponibilizadas para a gravação de "Glória" tenham sido melhores quando comparadas com aquilo que tem vindo a ser feito em Portugal (o ator usa a série "Sul", da RTP, como o exemplo do que terá sido fazer "omeletes sem ovos"), os atores quererão "sempre mais".

"O orçamento de 'Glória' permitiu-nos fazer coisas que dificilmente seriam feitas noutro tipo de séries em Portugal. Permitiu-nos trabalhar com duas equipas, com um número muito grande de técnicos e ficar uma manhã inteira a fazer quatro cenas ou planos de sequência. Há quatro anos seria impensável", explica Pimentel, que soma no currículo participações em produções como "Prisão Domiciliária", "Linhas de Wellington" e "Mistérios de Lisboa".

Mas Carolina Amaral, com participações em projetos como "Terra Nova" e "Sara", identifica outra diferença: o de os atores terem tido a segurança de se poderem concentrar num só trabalho.

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"Muitas das vezes termos de estar envolvidos em vários projetos ao mesmo tempo e vivemos em sufoco por não nos conseguimos concentrar num só. O facto de isso ser possível faz com que estejamos em sintonia, mas também mais confortáveis para arriscar", refere.

E embora os três atores considerem que as coisas estão, de facto, a melhorar, essa inquietação que os move continuará sempre presente. "Porque queremos mais condições e mais espaço", diz Afonso Pimentel.

"Não me parece nada que Portugal esteja a ser visto por plataformas como a Netflix como um sítio fixe para se fazer coisas baratas. Pelo interesse e pelo grau de exigência que foi pedido aqui, acho que há uma vontade de poder furar mercado e produzir mais conteúdo. O produto que está aqui [referindo-se a "Glória"] vai estar taco a taco com as 'Ozark' [uma das séries originais e mais conceituadas da Netflix] da vida. Essa é a grande vantagem: o facto de estar à distância de um clique e numa prateleira em que nunca estivemos", conclui Afonso Pimentel.

Mia, a personagem de Victoria Guerra sobre a qual a própria (quase) não pode falar

Se de um lado temos João Vidal, o protagonista interpretado por Miguel Nunes ("Cartas da Guerra"), do outro temos Mia — a mulher que ele anda a tentar encontrar e que é interpretada por Victoria Guerra("Auga Seca").

Falar de Mia é um desafio, porque Victoria Guerra quase não pode dizer nada sobre ela, mas descreve-a como uma figura que "percorre a história toda".

"De certa forma, é quase o fio condutor de toda a narrativa. Mas não posso desvendar nada porque seria um spoiler gigante para o público. É uma mulher inteligentíssima, com fortes motivações ideológicas e uma necessidade de pertença enorme, não só pelo seu background, mas por toda uma série de questões que se refletem na série", diz-nos, pausadamente, como que analisando cada frase que lhe sai da boca de forma a garantir que não deixa escapar nada que deva manter-se em segredo.

Há um grande segredo sobre a história de
À esquerda, Miguel Nunes. À direita, Joana Ribeiro que dá vida a Úrsula créditos: Paulo Goulart/Netflix

Pautada por "um lado misterioso" e que foge às convenções "unidimensionais", Mia é uma personagem que "não é boa nem má".

"É super difícil falar da personagem, talvez de todas, na verdade, porque esta história é um thriller de espionagem e todos os intervenientes têm várias camadas e não são o que aparentam ser", refere a atriz que está também a fazer outra série para a Netflix, "Santo", uma co-produção da Netflix Brasil e Espanha, e sobre a qual diz não poder revelar absolutamente nada.

"Essa série que estou a fazer agora é atual, não é de época nem é baseado em acontecimentos reais. É um produto completamente diferente [quando comparado com "Glória"]", descreve, não adiantando mais pormenores.

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Quando lhe perguntamos com que referências trabalhou para dar corpo a Mia na primeira série portuguesa da Netflix, e através da qual "trabalhou com uma equipa de excelência", Victoria Guerra ri-se.

"Não posso dizer senão desvendo tudo. Tudo, mesmo. Houve uma pesquisa literária, cinematográfica e televisiva. Vi muitos documentários e ouvi relatos reais, que ajudaram bastante. Mas não posso dizer quais ou de que tipo." Tentámos.

Os dez episódios de "Glória" chegam esta sexta-feira, 5 de novembro, à Netflix. A partir das 8h01, a altura a que a plataforma de streaming atualiza o seu catálogo com produção própria e original.

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