Da última vez que Dalila Carmo aceitou conceder uma entrevista à MAGG, o mundo era diferente. Ainda não havia pandemia, a atriz tinha contrato de exclusividade com a TVI e a novela "Na Corda Bamba", escrita por Rui Vilhena e protagonizada pela própria, estava no ar. Cerca de dois anos depois, a atriz fala daquela produção como "um produto superior" do género que aparenta não ter aberto portas para se aproveitar a fórmula, e promove a minissérie "Pecado", da TVI, numa altura em que já não está vinculada ao canal e foi público o seu descontentamento pela forma como diz ter sido tratada.

Quando questionada sobre se falar da minissérie — com Pedro Lamares e Daniela Melchior no elenco, sobre um padre que se apaixona e cujo amor proibido o faz questionar a fé — é uma sensação agridoce pela forma como saiu do canal, Dalila Carmo diz que não, num registo que deambula entre o cordial e o institucional, mas sem rancor.

"Está tudo resolvido. As coisas acontecem e as relações mudam de formato", argumenta, acrescentando já ter sido contactada pela Plural Entertainment (produtora de novelas do grupo Media Capital, que detém a TVI) para um projeto, que só recusou porque não pôde participar.

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"As propostas têm de me seduzir e vou aproveitar o facto de estar solteira para as coisas serem negociadas sem pressas, sem obrigatoriedades contratuais e baseadas apenas naquilo que são as minhas prioridades", refere. "Neste momento, há cedências que não volto a fazer", reforça. Sobre a sua participação na minissérie "Pecado", descreve a construção da sua personagem como um rompimento do paradigma, no sentido de evitar dar corpo a uma mulher que disputa, com outras, o amor de outro homem.

"Senti que, aí sim, havia que mudar o paradigma porque os homens não são o centro do mundo e as mulheres têm mais coisas que sirvam para lhes validar a existência para lá dessas fixações amorosas e sexuais. Achei mais interessante pegar na obsessão dela pelo padre partindo do seu desespero pessoal e da sua própria solidão", conta.

Pelo meio, a atriz refere a falta de aposta de novos formatos na ficção nacional e diz que, no futuro, quer fazer mais coisas além de novelas. E está já a preparar um novo projeto, que espera ver transposto para o cinema.

"Pecado" é uma série que surge num canal predominantemente focado em novelas. Com a crescente aposta na ficção nacional, em que há cada vez mais séries novas a serem feitas, estamos a assistir a uma mudança de paradigma?
Gostava de acreditar que sim, mas não tenho assim tanta certeza. Porque isso implica uma reação positiva do público para que exista um compromisso do Instituto do Cinema e Audiovisual com os canais, que facilite essa aposta num tipo de ficção num formato diferente. Ainda estamos a fazer testes e a pôr à prova esse tipo de produtos e não sei o quão consequente e efetiva possa ser essa mudança.

Testa-se o quê? A recetividade do público?
Claro, mas também é importante que haja produtoras desse género de formato na ficção, com vontade e uma confiança inabalável nestes produtos. Essa vontade é uma coisa que tenho e que tenho vindo a assumir publicamente, porque é meu desejo que venha a haver essa diversidade no panorama audiovisual português. Mas acho que ainda é muito pouco efetiva.

Em que sentido?
Se não fosse, já teríamos feito outras duas ou três séries depois desta [referindo-se a "Pecado"], que foi gravada há mais de um ano. A SIC tem tido esse compromisso, porque tem a OPTO [o serviço de streaming do canal] com um leque de produtos muito variado. A RTP sempre teve esse género de apostas e de certo que irá continuar. Têm, até, surgido alguns produtos muito curiosos e de boa qualidade. A TVI apostou o ano passado neste tipo de formatos, mas ainda não vi outro género de proposta.

Para mudar o paradigma, não podemos estar a falar de uma minissérie por ano. Tem de ser uma coisa com mais consistência. Ainda não me sinto particularmente esperançada neste momento. Quero acreditar que as coisas vão mudando aos poucos, mas como já levamos algum tempo nesta profissão e já vimos, tantas vezes, as coisas a apontarem numa determinada direção e depois não se concretizarem...

As coisas só têm um desenvolvimento qualitativo quando se aposta nelas durante muito tempo. Vai-se lá por tentativa e erro.

A falta de aposta em novos formatos na ficção

Essa falta de aposta pode ter que ver com constrangimentos orçamentais? À partida, fazer uma série será sempre mais caro do que uma novela.
Se um produto mais barato tem um retorno mais alto do que um produto mais caro, é normal que as produtoras tenham mais dificuldades em arriscar. Mas tenho muita esperança que as coisas mudem progressivamente.

Não é o facto de haver uma coisa a caminho da Netflix [referindo-se a "Glória", a primeira série portuguesa para a plataforma] que alguma coisa irá mudar, porque ainda estamos muito longe do mercado internacional. Os nossos orçamentos para televisão e cinema ainda estão a milhares de quilómetros de distância do que se faz lá fora e tenho de o dizer porque não há outra realidade. Fechar os olhos a isso é ignorar o problema. Ainda temos um produto muito pobre.

Não acredita que a estreia de "Glória" na Netflix possa pressionar governantes a dar mais atenção à cultura e diretores de programas a olhar para estes formatos?
Bom, primeiro é importante dizer que há protocolos que obrigam a Netflix a olhar para nós [segundo a normativa europeia, a Netflix e outras empresas de streaming estão obrigadas a produzir conteúdo local ou financiar produções independentes europeias e de língua original portuguesa]. Não sei se a Netflix quereria olhar para nós se não houvesse uma normativa europeia.

Mas respondendo diretamente à sua pergunta: se não houver um monopólio de produtoras, diria que sim, que poderia incentivar. Mas enquanto vivermos neste feudalismo audiovisual, em que é só alguns é que reinam e os outros andam a penar... aí será mais complicado. Só partindo da diversidade, e não da exclusividade e do monopólio, é que se consegue chegar a um determinado lugar. Mas se estes protocolos com a Netflix e outras plataformas de streaming se mantiverem, é óbvio que somos obrigados a elevar a fasquia.

Dalila Carmo.
Embora esteja a promover uma série da TVI quando já não tem vínculo contratual, Dalila Carmo fala do canal sem rancor créditos: Samuel Costa/MAGG

Fazer mais séries e filmes e menos novelas é algo que esteja nos seus planos?
Óbvio. Nos meus planos e nos de toda a gente, acho. Os atores querem fazer isso, creio. Sou mais vocal em relação a essa questão porque, de facto, há 20 e tal anos que vejo muita repetição do mesmo padrão. Nesse sentido, creio ter alguma legitimidade para falar de uma certa saturação do mercado e do esgotamento das nossas motivações enquanto profissionais.

Digo isto tendo feito aquele que foi o meu mais recente produto de novela ["Na Corda Bamba"], que acredito convictamente ter sido um produto superior dentro do género, em termos artísticos e de escrita. Foi uma novela de qualidade superior e esse caminho não abriu outros caminhos. E isso assusta-me, porque é fundamental apostarmos numa realidade mais urbana, mais cosmopolita, e não só focada no Portugal rural. Não conseguimos sair dessa realidade e enquanto formos assim, teremos sempre um pensamento em funil relativamente ao audiovisual.

O facto de "Pecado" ser uma série num canal aberto ofereceu constrangimentos à forma de se abordar determinados temas?
Eventualmente, sim, mas não estive por dentro desse processo. Felizmente, tivemos uma produtora independente associada ao projeto, a Maria João Mayer, com quem nos sentimos muito à vontade desde o início. A Maria João é uma pessoa que tem os seus ideais bem marcados, como eu tenho os meus, e foi bom ter essa cumplicidade de uma pessoa que acreditava que podíamos ser fiéis a uma determinada estética.

Tentámos encontrar um compromisso entre o que era a proposta inicial e o que foi o resultado final.

Para conciliar o público generalista com o que procura boas séries?
E o público tem reagido bem, porque o público quer. Temos de acreditar que não é avesso à mudança e que, com uma boa promoção e uma boa estratégia, adere aos produtos.

Quando o guião de "Pecado" lhe chegou às mãos, o que é que atribuiu à sua personagem, Rosa, além daquilo que já estava escrito?
Inicialmente, quando li a Rosa comecei por ficar um bocadinho assustada pela forma como ela disputava o padre com a filha. Achei mais interessante pegar na Rosa não tanto pela disputa com a filha pelo mesmo homem, porque é muito enervante estarmos cada vez mais a falar de feminismo e de empoderamento feminino e mostrar-se mulheres a disputar um homem com um troféu. Como já o tinha feito num trabalho anterior, senti que, aí sim, havia que mudar o paradigma porque os homens não são o centro do mundo e as mulheres têm mais coisas que sirvam para lhes validar a existência para lá dessas fixações amorosas e sexuais.

Achei mais interessante pegar na obsessão dela pelo padre partindo do seu desespero pessoal e da sua própria solidão. Tentei fazer dela mais coquette, mais recalcada e reprimida e explorar um lado feminino mais infantil e menos óbvio. É uma personagem profundamente recalcada, subjugada na relação matrimonial que vive, completamente submissa ao patriarcado, evidentemente, porque percebemos que é uma pessoa que não trabalha e que passa muito tempo na igreja.

Só que em vez de isso lhe dar um lado de ostentação, fazendo dela a mulher que vive às custas do marido é quase como se as roupas que veste sejam o penso daquelas feridas.

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A história de um padre que se apaixona não é nova. A ausência desse fator novidade acaba por ser irrelevante porque a arte está em contar histórias semelhantes, mas de forma diferente?
Talvez, sim. Ainda não tenho distância suficiente de "Pecado" para falar sobre isso. Ainda não vi a série toda, mas quero ver para poder dar três passos para trás e perceber em que perspetiva é que isto difere de um "O Crime do Padre Amaro", por exemplo, que ainda está muito presente.

De qualquer modo, os casos [de abusos sexuais no seio] da Igreja continuam a chegar. A Igreja tem de ser posta em causa, mas tem de ser posta em causa de muitas maneiras. Não só em relação a esses casos, mas também em relação à questão do celibato. Não deixa de ser um tema muito delicado. E é muito delicado pegarmos nisto. Pode haver várias maneiras de contar uma mesma história, sim, se não nos deixarmos cair em maniqueísmos para conseguirmos ter algum olhar crítico.

Mas creio que a forma como a Maria João escreveu esta série não foi, de forma alguma, maniqueísta.

O facto de ser um tema delicado transportado para o ecrã num canal aberto foi mais desafiante e, por isso, mais interessante?
Não sei... talvez não. É difícil termos assuntos fechados. Já vimos de tudo. E todos os dias há de tudo nos jornais. Há assuntos, sim, que têm de ser tratados com pinças porque pegarmos nele numa ótica de sensacionalismo porque é rentável pegar em coisas controversas é errado. O que quer que seja que se trabalhe, deve ser trabalhado a fundo e com o devido respeito por coisas que são graves, delicadas e que magoaram muita gente.

Acho, sim, que já vimos de tudo. O que é que um reality show ainda não mostrou? Já mostrou tudo. Depois daquilo que os reality show já mostraram, não há ficção nenhuma que seja verdadeiramente controversa.

Da participação em "Na Corda Bamba" às convenções das novelas

Desde a nossa última entrevista, ainda não havia pandemia e a novela "Na Corda Bamba" estava no ar. A Dalila referiu-se a ela como a melhor novela que alguma vez fez. Em retrospetiva, consegue explicar o que trouxe de novo ao panorama da ficção?
O que trouxe? Ainda estou para ver, porque tenho a sensação de que, infelizmente, aquela fórmula esgotou-se ali. Foi uma novela muito mais urbana em que sentia a cidade ali. Não era só cidade, mas era uma história mais contemporânea, não falava só da família rica e da família pobre. Saímos um bocadinho de uma certa tendência que ainda temos muito. Foi uma novela que trazia alguma modernidade.

Do ponto de vista de realização, foi um produto esteticamente diferente. Tinha um cuidado diferente. Senti uma qualidade de série.

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Em que sentido?
Havia um recorte e um realismo diferente. Não era uma coisa tão unidimensional. Era extraordinário fazer cenas em que os atores não sabiam onde estavam as câmaras, por exemplo, o que nos obrigava a estar unicamente presentes na cena sem nos preocuparmos com o ter de olhar para a câmara um, dois e três. Quando isso acontece, o produto tem outro realismo. Gosto de trabalhar assim e dei pulos de contentamento quando percebi que era assim que íamos trabalhar a novela.

Foi a primeira novela em que, de facto, estrelei ovos reais em cenas, em que fiz ovos mexidos e em que aqueci comida. Deixa de ser tanto a fingir e passa a ter um bocadinho mais de verdade. Mas deixou também de usar tantos estereótipos.

Mas neste registo, é inevitável.
Haverá sempre. A novela tem sempre estereótipos porque faz parte do seu formato, mas os estereótipos como nós os conhecemos não existiram ali.

E agora querem-me fazer acreditar que é preciso voltar a eles?

Uma vez que as convenções da novela são imutáveis, resistirão ao tempo e à renovação do público que vê ou verá televisão?
Espero que não, até porque o público já está a pedir coisas diferentes há muito tempo. As novas gerações já não veem televisão da mesma maneira. Como sou um bocadinho avessa à convenção, acho que temos de ser disruptivos porque essa é a nossa função. Se querermos sublinhar padrões que já toda a gente viu e viu várias vezes, então essa mudança de paradigma nunca vai acontecer.

Mas também é importante como reabilitamos a nossa memória, porque temos muitas histórias no nosso património literário e histórico que nunca foram contadas. Essa função da reabilitação da nossa memória, mas feita com propriedade e conhecimento, também é uma obrigação nossa. Ando bastante comprometida com uma coisa passada há bastante tempo e que é uma história que quero contar.

Sobre?
Ainda não posso falar sobre isso. Vai demorar muito tempo ainda, mas é uma ideia minha e juntei a minha equipa. Essa foi outra das convenções com que decidi quebrar nos últimos tempos. Porque é que havemos de estar sempre à espera que nos convidem e não fazemos nós o casting aos outros? Estou nessa fase.

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Será um projeto para cinema ou televisão?
Quero muito que seja para o cinema e vou fazer de tudo para que isso aconteça, embora a televisão, em termos de financiamento, dê outro retorno. O objetivo principal é que seja um produto feito para o cinema e estamos todos a apontar para isso. Só não é se nos disserem que é preciso partir isto em não sei quantos episódios.

Nesse caso, partiremos. Mas o formato pensado é o do cinema, porque é essa a minha paixão. Infelizmente não fiz tanto cinema quanto gostaria. Por isso, também quero assumir a minha responsabilidade no sentido de desenvolver projetos que gostaria de assumir e de vestir.

Nesta fase, está a escrever e a construir o esqueleto do projeto?
Sim. Ainda vai demorar.

Depois de "Na Corda Bamba", esteve em cena com a peça "Noite de Estreia", em que está sempre presente este terror de envelhecer e de se ficar relegado para segundo plano numa sociedade que quer sempre o novo e o fresco. É um receio com que já se debate?
Sim e não. Obviamente que o que é fresco é muito apelativo e isso, no caso das mulheres, é particularmente difícil. Em termos de longevidade, a carreira de um homem é muito mais extensa e eles não ficam catalogados tão cedo, como as mulheres. As mulheres são descartáveis mais facilmente porque sempre tivemos o culto da juventude e da beleza.

Mas a verdade é que... ainda não fiz nada à cara [risos]. Tentei fazer há uns e anos e não gostei, porque parecia que tinha ficado com a boca mais pequena e não gostei [risos]. Nunca cultivei em mim essa necessidade de manter algum sex appeal nem nunca senti necessidade de que me achassem muito linda e sexy para continuar a ter trabalho. Naturalmente, sou isto desde sempre. Em termos de essência estrutural, não vejo qualquer diferença face àquilo que era há uns 20 anos.

Envelhecer não a assusta, portanto?
Na verdade, acho que não me assusta assim tanto. Mas a peça serviu de alerta. Lembro-me de que quando a peça esteve em cena [ao longo de oito semanas], uma grande amiga minha disse-me que se eu fosse filha dela, nunca me teria deixado fazer aquela peça.

Porquê?
Porque, de facto, eram muitas as mulheres que saíam perturbadas daquele espetáculo. É difícil e é um assunto sobre o qual se deve falar, até porque tem de ser desmistificado e o próprio filme [que a peça adapta] é sobre isso. Quando vi o filme, tinha 20 e tal anos e não conseguia perceber.

Agora a história é outra.
Sim. Agora consigo, efetivamente, percebê-lo. Mas isso não quer dizer que esteja refém dessa paranoia, porque não estou. Até porque é um facto. A verdade é que é um facto, porque as pessoas andam constantemente à procura da next big thing [a próxima grande novidade, na tradução livre para português]. Lembro-me de que, quando vivia em Nova Iorque, tinha 21 anos e a minha professora de teatro pediu-me para dizer a um agente que tinha 16 porque quanto muito mais fresca fosse, melhor.

Como não gosto de mentir, não o fiz. Nunca fez sentido para mim mentir na idade.

"Não estou de costas viradas para a TVI, mas em contacto comigo própria. Mais do que nunca"

A peça estreou-se em plena pandemia. Foram tempos difíceis?
Foi complicado, mas sou um bocado solitária. Por isso, também me fez bem estar em casa a ver filmes e ler. A pandemia deu-me muito tempo porque tive vários planos que foram cancelados e isso originou numa epifania que se traduziu em criatividade. Foi um período de introspeção, talvez coletivamente, até, que não pode ser descartado.

Foi um ano particularmente difícil. Não sou uma pessoa religiosa, mas quando a pandemia começou, pedi a tudo para que a minha avó resistisse ao ano e não resistiu. E não foi por COVID-19. Para mim, 2020 é um ano de luto.

"Não vale a pena a exaustão com que tenho vivido nos últimos anos, a dar tudo aos trabalhos. Agora estou em primeiro lugar. Quero trabalhar, mas quero ter saúde, tempo para os meus amigos e para os meus projetos pessoais"

Após a sua saída da TVI, foi público o seu descontentamento pela forma como diz ter sido tratada. Falar desta desta série é agridoce?
Não. Está tudo resolvido. As coisas acontecem e as relações mudam de formato. Já fui contactada pela Plural para fazer um projeto, mas que não pude fazer. Neste momento, as propostas têm de me seduzir e vou aproveitar o facto de estar solteira para as coisas serem negociadas sem pressas, sem obrigatoriedades contratuais e baseadas apenas naquilo que são as minhas prioridades. Neste momento, há cedências que não volto a fazer. Tem acontecido não ter aceitado projetos nos últimos tempos por isso. Não tenho pressa. Estou concentrada nas minhas coisas e depois logo se vê. 2020 trouxe a perda prematura de muita gente. Todos os anos morrem pessoas e ficamos sem amigos e colegas, mas em 2020 foi uma coisa absolutamente absurda. Posto isto, não vale a pena a exaustão com que tenho vivido nos últimos anos, a dar tudo aos trabalhos.

Agora estou em primeiro lugar. Quero trabalhar, mas quero ter saúde, tempo para os meus amigos e para os meus projetos pessoais. Por isso, não, não há qualquer sabor agridoce em falar disto [a série "Pecado"] que foi feito no ano passado. Já me distanciei da mágoa. Agora quem está à frente da minha estrada sou eu. Quero ter essa liberdade de dizer sim ou não aos projetos que me chegarem. Sinto-me com moral e ética para o fazer, porque sempre fui eticamente irrepreensível no meu trabalho.

Não é uma questão de preço que está em cima da mesa. Não estamos a falar de dinheiro, mas de projetos. Não estou de costas viradas para a TVI, mas sim em contacto comigo própria. Mais do que nunca.

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Quando diz que há cedências que não volta a fazer, refere-se a quê?
O tempo para mim é fundamental porque, de facto, gravar durante seis dias por semana não é exequível. Se não tivéssemos de estudar o texto, talvez, mas a verdade é que temos de o fazer. E cada pessoa sabe das suas limitações. Tenho uma forma de trabalhar que não se coaduna com o ligar do piloto automático. Para preservar a minha saúde e a minha qualidade no trabalho, tenho de garantir o mínimo de disponibilidade.

Preciso de ter tempo para ler os guiões, para os preparar e, se possível, ter uma folga por semana. Ou poder estar com a minha família e com os meus amigos durante um dia por semana.

Isso não acontecia?
Passava meses e meses sem ver ninguém. Fazia jantares de despedida antes de cada projeto. Depois de estarmos durante 20 anos a viver neste formato, é importante percebermos que, amanhã, podemos não estar cá para contar a história. Por isso, é fundamental marcarmos uma posição relativamente às condições de trabalho, até por respeito ao produto que queremos fazer com o máximo de qualidade possível.

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