Quando João Matos ("Salgueiro Maia") se propõe a escrever para cinema ou televisão, nunca começa sem antes estar apoiado por um grande trabalho de pesquisa. Por um lado, procura que desse processo saiam histórias que possam enriquecer aquela que quer contar, mas, por outro, também deseja validar algumas daquelas que são as suas ideias para o projeto antes de este ser transportado para o ecrã. "Será que estamos a contar a história tal como ela é?", foi a pergunta, recorda à MAGG, que o argumentista mais fez a si próprio na altura de escrever "O Clube", a nova grande série da OPTO SIC sobre uma das mais icónicas casas de alterne de Lisboa.

Um dos materiais de pesquisa, diz, foi o livro de Elsa Bicho sobre as memórias do porteiro do Elefante Branco. Mas só isso não bastava, porque, enquanto obra literária, eram-lhe inerentes algumas limitações — a começar pela época a que diz respeito.

"É um livro que está muito cristalizado no seu tempo, uma vez que as histórias que ali são retratadas passam-se entre a década de 80 e 90. Além disso, aquela casa, tal como ela existia, já não existe", explica.

A homenagem à noite lisboeta e ao Elefante Branco

Com o livro na mão, João Matos viu-se a braços com um dilema: "Como aquilo está feito em registo de entrevista, por vezes consegue ser um bocadinho contraditório e difícil de perceber se aquilo que ele [o porteiro] nos está a contar é verdade ou mentira." Houve, por isso, "alguma dificuldade em perceber o estilo" da noite que este queria representar no argumento da série. A única forma de colmatar isso passava por "ver algumas reportagens que a SIC já tinha feito sobre o tema", ler "alguns relatórios sobre temas da noite que iriam intercalar-se na narrativa", mas também através de muito trabalho de campo.

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"A realização, a autoria e o elenco deslocou-se até ao novo Elefante Branco com o objetivo de falar com as mulheres que lá trabalhavam. Quando estava a escrever lembro-me de pensar: 'Será que aquelas mulheres fazem mesmo isto? Será que têm estas conversas?'. A parte mais engraçada deste processo é que, nessas visitas, conseguimos validar as ideias que tínhamos sobre o que queríamos contar e percebemos que, além de estarmos no tom certo, a realidade é muito mais fértil e inconcebível do que alguma vez a ficção conseguirá ser."

Nesse sentido, confessa que, face àquilo que agora conhece, talvez até tenha sido "relativamente conservador" na história que se propôs contar.

A menção ao Elefante Branco não é por acaso. O espaço é já indissociável da noite lisboeta e, por isso, era difícil "e até injusto" não lhe prestar homenagem. E isso começa na menção ao famoso bife do lombo. "O Clube é a melhor casa noturna da capital. A que tem as melhores mulheres... E o melhor bife do lombo. A casa em que todos querem entrar", lê-se nas primeiras páginas do argumento de João Matos, cedido à MAGG com autorização da SIC.

argumento o clube
créditos: João Matos/SIC

Mas era imperativo que, nessa homenagem, se fugisse aos estereótipos geralmente aplicados a séries que constroem a sua narrativa com base em mulheres bonitas, sexo e relações de poder. Em "O Clube", essa tentativa começa na figura do porteiro Viana, interpretado por José Raposo, que se afasta da construção de um brutamontes responsável por guardar a porta do espaço e que se apresenta, pelo contrário, com camadas.

A decisão foi consciente, até porque, segundo o argumentista, era "impensável que este porteiro correspondesse ao estereótipo" de um porteiro dito normal, "até porque uma das linhas de história dele baseia-se no confronto entre o que acontece no primeiro episódio" e um lado mais escondido de uma personagem que, mais do que qualquer outra, incorpora tudo aquilo que aquele espaço representa.

"Queríamos contar uma história que não caísse nos estereótipos da noite, que tivesse alguma verdade. Mas que, apesar disso, tivesse um gradiente de série, sendo mais imprevisível e sofisticada a cada episódio", diz. O resultado caberá ao espectador julgar, mas o argumento foi transportado para o ecrã com muito néon e sensualidade pela realizadora Patrícia Sequeira ("Snu"), numa produto que envolve erotismo, ação, crime e polícia.

 "À noite, todos os gatos são pardos"

Mas para que a ficção nacional desse o salto (se é que ainda não o deu) de forma a equivaler-se à chancela de qualidade a que os vários serviços de streaming nos foram habituados, pedia-se, nas palavras de João Matos, uma recusa total "do maniqueísmo necessário num certo tipo de ficção". Ou seja, numa oposição vincada entre o que representa o bem e o mal ou o herói e o vilão de uma história.

créditos: João Matos

Isto porque, continua, "nas séries é possível ser-se mais sofisticado", e nesta produção "todas as personagens têm razões para tomar as ações que tomam" — mesmo que aquilo que estejam a fazer seja ética e moralmente errado (ou condenável). As linhas cinzentas são reforçadas na noite, portanto. "Não é por acaso que existe o velho ditado popular que diz que à noite todos os gatos são pardos. A noite é composta de cinzentos e esse lado obscuro está muito presente na série."

Quanto a um possível sucesso da série (que já foi renovada para uma segunda temporada), João Matos diz que, se isso se confirmar, terá obrigatoriamente que ver não só com a qualidade com que foi transportada para o ecrã, mas também pela liberdade que lhe foi dada durante o processo de escrita. Aqui, não houve medo de fugir ao típico telefonema que, numa narrativa normal, resolve toda e qualquer confusão. Confuso? O argumentista explica.

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"Em qualquer história, há sempre um momento em que se toda a ação se resolve com um simples telefonema. Nestas situações, o habitual passa por criar toda uma complexidade para adiar a chamada e prolongar ainda mais os arcos narrativos."

Em "O Clube" isso não se verificou, muito devido ao pedido feito pela direção da SIC, composta por Daniel Oliveira e Daniel Cruzeiro, mas também pelo apoio de Pedro Boucherie Mendes, diretor de planeamento estratégico do grupo Impresa. Juntos, conta, reforçaram a ideia de que Matos "tinha de escrever de modo a não ter medo de, a certa altura, criar a situação do telefonema".

"Disseram-me para não ter medo do telefonema e que, depois, logo víamos quais as consequências disso e o que surgiria a partir daí. Isso ajuda qualquer história e certamente que ajudou esta", conclui.

Ainda não sabemos de que forma é esse "telefonema" se materializará. Mas a história já mexe desde o primeiro episódio e bastou um único tiro.

"O Clube", um exclusivo da OPTO SIC, estreou-se a 18 de dezembro. O elenco é composto por Vera Kolodzig, Sara Matos, Luana Piovani, Filipa Areosa, Carolina Torres, Margarida Vila-Nova, Vera Moura e Sharam Diniz — e conta ainda com a estreia de Ljubomir Stanisic na representação.

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