Olá, sou o Fábio, tenho 27 anos e só agora sei exatamente o que são os livres diretos e indiretos no futebol. Depois do silêncio estranho que ficou após a leitura desta frase, permita-me, caro leitor, que me apresente e me defenda. Ao contrário do meu irmão, 21 anos, que se interessou por futebol numa fase em que o Benfica se tornou campeão de forma regular (da época 2013/2014 à de 2016/2017), apanhei o meu clube, quase que herdado de família, sempre a perder.

Desde que nasci, em 1993, me fiz criança e, mais tarde, adulto, vi o Benfica ser campeão pouquíssimas vezes. Numa fase inicial, sofri sempre que saíamos derrotados de campo, mas depois passou. E se é verdade que o verdadeiro adepto é aquele que acompanha a equipa nos piores momentos, os videojogos pareciam-me hobbies mais apelativos. Nunca vibrei com o campeonato português (embora fique em êxtase com a participação de Portugal no Europeu) nem joguei futebol nos meus tempos livres, até porque pessoa desajeitada não se pode dar a tarefas de tal complexidade.

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É por isso que, com 27 anos de idade, não sabia (até agora) como se explicava um fora de jogo. Achava, genuinamente, que um livre direto e indireto definia-se pela existência ou não de uma barreira defensiva entre o atacante e a baliza, e agora percebo que a barreira é meramente opcional.

E um 4-4-2? Meu Deus. Tenho alguma vergonha de admitir que só agora sei que, somando os três números, o resultado é dez. O que equivale a dez jogadores, sendo que o 11.º é o guarda-redes e não conta na disposição da equipa em campo.

A propósito da estreia de Portugal no Euro 2020, esta terça-feira, 15 de junho, frente à Hungria (com transmissão na Sport TV e na SIC), liguei ao ex-árbitro Pedro Henriques, atualmente comentador de futebol em vários meios de comunicação social, com a mesma premissa que está no título deste artigo: "Percebo zero de futebol, importar-se-ia se lhe fizesse algumas perguntas?".

A resposta foi "não" e, portanto, permiti-me voltar à idade dos porquês. O resultado está abaixo. Bónus: pude perguntar coisas que me pareciam meio tontas, como se a lei da vantagem (termo que ouvia nos jogos de futebol para consola) existia mesmo, e saí surpreendido.

É que apesar de existir, não é lei nenhuma. Fascinante, certo?

Afinal, o que é um fora de jogo?
O que diz a lei do fora de jogo é que um jogador não pode estar, sozinho, "acampado" na área do adversário. Ou seja, entre o jogador e a linha de baliza devem estar dois adversários, que normalmente são o guarda-redes e um defesa. Isto impede que o jogo seja feito de baliza a baliza e que o jogador que quer marcar golos tenha de ter em atenção o posicionamento do penúltimo jogador adversário.

O que é um 4-4-2?
A forma como um treinador dispõe as suas peças, os jogadores, portanto, no campo, preenchendo mais determinadas zonas. Um 4-4-2 ou um 4-3-3 é a maneira como, à partida, vou pôr no retângulo os dez jogadores. O guarda-redes não conta porque tem posição fixa. No caso de um 4-4-2, entende-se que a equipa vai jogar com quatro defesas, quatro centrais e dois avançados. Mas mais importante ainda é a dinâmica e a forma como eles se articulam.

Duas equipas em 4-4-2 jogam de forma diferente, é isso?
Exato. Tem muito que ver com a dinâmica da equipa e da qualidade jogadores: se os avançados jogam mais à frente da defesa ou se a equipa joga com um defesa central que ainda recua para trás da defesa... Podemos ter duas equipas a jogar em 4-4-2 e a maneira de jogo ser totalmente diferente porque têm dinâmicas diferentes. Não na forma como inicialmente se dispõem no campo, mas na maneira como abordam o jogo e disputam os lances.

Dos livres diretos e indiretos ao VAR

Qual é a diferença entre um livre direto e indireto?
Quando há uma falta, o árbitro põe a bola no sítio onde essa infração aconteceu. A grande diferença é que, num livro direto, posso chutar a bola diretamente para a baliza adversária e conseguir golo. Num livre indireto, não é possível e a bola tem de tocar, obrigatoriamente, num segundo jogador antes de entrar na baliza. No caso de um livre indireto resultar um golo sem o contacto de um segundo jogador, seja ele qual for, o golo é anulado.

Pedro Henriques
O ex-árbitro Pedro Henriques esclarece todas as dúvidas sobre algumas das regras do futebol. Como, por exemplo, o facto de a lei da vantagem não ser, na verdade, nenhuma lei.

Como é que se decide quando é que um livre é direto ou indireto?
O livre direto, por ser mais relevante, pune as infrações que são consideradas mais graves: saltar sobre o adversário, agarrar, carregar ou rasteirar o adversário, jogar a bola com a mão, entre outras. O livre indireto pune faltas menos graves, como a obstrução, o jogo perigoso ou outras situações como foras de jogo.

Quando os livres são marcados, é obrigatória uma barreira entre a bola e a baliza?
Não, é uma opção da equipa que defende para tentar dificultar a tarefa à equipa que ataca. Normalmente só se fazem barreiras quando os livres são muito próximos da baliza.

E o VAR, afinal é bom ou mau para o futebol?
É uma ferramenta extremamente útil porque reduz o erro, mas também retira alguma emoção como quando se comemora um golo e o video-árbitro (ou Video Assistant Referee) tem de o analisar. Se validado, resulta numa segunda comemoração. O que o VAR vem fazer é ajudar muito mais a equipa de arbitragem e reduzir, de certa forma, os erros cometidos pelos árbitros — promovendo mais verdade num jogo. Para um futebol altamente profissional, faz todo o sentido o VAR existir. O problema é que se criou uma expectativa de que isto significaria o fim de todos os erros. Obviamente, isso nunca iria acontecer.

Porque é que as equipas têm de trocar de lado do campo ao intervalo?
Há uma lógica. O campo do Rio Ave, por exemplo, é um campo muito aberto. Quando está vento, este segue num determinado sentido. Imagine o que seria se, ao longo de 90 minutos, a mesma equipa estivesse a jogar a favor ou contra o vento. A ideia base da troca de campo ao intervalo passa por permitir que todas as equipas possam jogar com o mesmo critério de igualdade.

Quando é marcado um penálti, é permitido enganar o guarda-redes para o fazer ir para o lado oposto ao da direção da bola?
Sim e não. Até chegar à bola, o jogador pode usar várias táticas no sentido de fazer com que o guarda-redes possa ser enganado. No momento em que o jogador põe o pé de apoio no chão para executar o remate, já não se pode enganar com uma paragem, por exemplo.

Se, durante um penálti, a bola for ao poste e voltar para trás, é possível contra-atacar?
O jogador que executou o penálti não pode voltar a tocar na bola se o guarda-redes não lhe tiver tocado, porque, uma vez que a barra e o poste são elementos neutros, isso seria o equivalente a dar dois toques. Estando a bola em jogo, pode ser jogada por qualquer outro jogador, menos pelo executante do penálti.

E se o guarda-redes defender e a bola vier para trás?
Aí já pode porque, nesse caso, a bola tocou num segundo jogador.

Porque é que nos lançamentos é comum vermos o jogador que ia lançar a bola trocar com outro?
Normalmente, há jogadores específicos para executar os lançamentos nas linhas laterais: o defesa esquerdo e o defesa direito, porque isso faz com que o médio e o outros jogadores lá à frente possam receber a bola e partir para o ataque. É comum haver uma troca de jogador que lança como forma de fazer perder tempo se o resultado interessar à equipa que vai executar o lançamento, mas também de dar à equipa tempo para se reorganizar no campo.

Porque é que o cronómetro não para quando a bola não está em jogo?
Ainda não se alterou. Em Portugal é onde há menos tempo útil de jogo, cerca de 25 minutos por cada parte. Em Inglaterra é onde há mais, com cerca de 30 minutos por cada parte. O ideal seria parar o cronómetro sempre que bola saísse para fora do terreno de jogo e, à semelhança do futsal, pudesse haver um recomeço mais rápido. O porquê de isso ainda não ter acontecido tem que ver com a dimensão do terreno de jogo em comparação com a de um pavilhão. Enquanto num pavilhão o campo é mais pequeno e é mais fácil controlar a saída da bola e o recomeço, até visualmente, num campo de futebol é mais difícil. Especialmente se estiver a chover ou houver nevoeiro.

Com VAR seria mais fácil e a FIFA está a estudar uma hipótese de, pelo menos, nos últimos 15 minutos de jogo, o cronómetro parar sempre que a bola não estiver em jogo.

Porquê nos 15 minutos finais?
Porque sabe-se que é nessa altura, em que o resultado já tem uma determinada tendência, que as equipas começam a queimar tempo ou a retardar o recomeço do jogo.

O árbitro conta o tempo exato que uma equipa 'queima' ao longo do jogo?
Não, faz-se uma estimativa. Pontapés de canto, baliza ou lançamentos de linha lateral fazem parte do jogo. O que a lei diz é que o árbitro não tem de acrescentar, no tempo de desconto, tempo perdido nessas ações.

Mas é aí que os jogadores mais 'queimam' tempo.
Essa é a exceção. Nessas situações em que há uma perda de tempo deliberada, mostra-se cartão amarelo e acrescenta-se no final. Por isso, em colaboração com o VAR, temos também o AVAR — o Assistant Video Assistant Referee — que, entre outras funções, pode cronometrar, por exemplo, o tempo que um guarda-redes está deitado no chão a ser assistido.

Chegados ao minuto 89, quando o árbitro diz por auricular que está a pensar dar um determinado tempo de compensação, o AVAR intervém para dizer que o guarda-redes esteve, no total, dois minutos no chão. Nessas situações mais prolongadas, o árbitro tem acesso a essa informação cronometrada para, juntamente com outras perdas de tempo que tenham ocorrido, chegar a um número mais justo. Por isso é que há jogos mais longos com mais recuperação de tempo perdido.

No Euro 2016, em que Portugal se sagrou campeão, discutiu-se muito sobre se tinha jogado bem ou se foi apenas sorte. Afinal, jogou bem ou mal?
O objetivo do futebol é marcar golos na baliza adversária. Primeiro interessa o resultado e depois a qualidade de jogo. O adepto gosta de ver uma equipa jogar bem, a trocar a bola. Mas na realidade, o pragmatismo é o mais importante: ganhar. Independentemente de ser nos penáltis ou não. Fomos campeões, se calhar sem essa nota artística, mas o que interessa é que fomos.

Mesmo em comparação com outras seleções que tivemos, em 2004, por exemplo, em que fomos em crescendo e fizemos bons jogos, acabámos a perder na final contra a Grécia. Em 2016, jogando menos bem ou, melhor dizendo, sem essa nota artística, fomos campeões, porque fomos inteligentes e foi muito difícil marcar golos ou vencer a Portugal. Prefiro assim.

No Europeu, mais do que jogar bem, interessa o resultado.

Como é que os árbitros assinalam os jogadores amarelados?
Pelo número da camisola ou do calção. No futebol profissional, o jogador tem o número nas costas e no lado direito do calção, o que permite facilmente identificá-lo consoante a direção em que ele esteja virado. O que o árbitro faz é apontar o número do jogador no seu cartão, bem como o tempo da ocorrência e uma palavra-chave para descrever a atribuição do cartão amarelo. Isto porque, depois do jogo, tem de ser tudo descrito no relatório. Nos cartões vermelhos é ainda mais importante: tem de se descrever tudo. Não posso escrever só que o jogador deu um estalo num adversário e foi expulso. Tenho de descrever com que mão, se foi um estalo ou um murro, em que minuto de jogo, que tipo de transgressão foi...

Esse relatório é sempre feito no final do jogo?
Sim. Depois do jogo terminar, o árbitro só sai do campo quando tiver o relatório todo preenchido. É relativamente fácil porque é via computador e funciona por preenchimento, mas tem de descrever todas as situações de jogo com o máximo de detalhe possível.

Dos cartões amarelos por tirar a camisola à "lei" da vantagem

Porque é que se dá amarelo a jogadores que tirem a camisola?
Está nas regras. Quando se diz tirar a camisola, é tirá-la pela cabeça ou cobrir a cabeça com ela. Se a levantar até ao queixo, isso não é levantar a camisola. A penalização tem que ver com questões publicitárias: as camisolas dos jogadores estão identificadas por marcas como Nike ou Adidas que patrocinam as equipas. Se o jogador a tira no momento do golo, que corre o mundo através das televisões, então a marca deixa de estar visível.

Serve até para evitar que as marcas estabeleçam parcerias com os jogadores. Quem quer passar publicidade, tem de o fazer não individualmente com o jogador, mas com a estrutura. Depois há a questão das mensagens escritas por baixo das camisolas oficiais e que podem ser ofensivas à escala mundial, mesmo que, à partida, possam parecer inócuas. Também há uma questão de ética porque ao tirar-se a fotografia, é comum expor-se o corpo e isso pode gerar algum choque.

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O que é a lei da vantagem? É o termo correto?
Chama-se mesmo assim, mas não é nenhuma lei nem está escrita nas regras do futebol. É uma expressão que começou a ser adotada e que, na realidade, quer dizer qualquer coisa como: "Tentar não beneficiar o infrator". Se de uma falta feita sobre um jogador, a equipa que sofre a falta continuar na posse da bola e seguir em direção à baliza adversária, o árbitro não interrompe o jogo para não beneficiar quem a cometeu. É uma "lei" que define os melhores árbitros, porque são esses que têm a capacidade de a aplicar corretamente. Por isso é que, por vezes, vemos vídeos no YouTube a mostrar árbitros a comemorar o golo de uma determinada equipa. Mas é mentira.

Então comemoram o quê?
O facto de terem dado a lei da vantagem que, ao ser bem aplicada, fez resultar um golo.

Mas a lei da vantagem deve ser sempre aplicada?
Depende sempre da situação. Se um jogador levou uma grande pancada, mais vale parar o jogo para que seja assistido. O melhor árbitro é exatamente esse: o que melhor consegue aplicar a lei da vantagem sem pôr em causa a segurança do jogo.

Como é que os árbitros falam com os jogadores mais agressivos na forma de abordar o jogo?
Sempre com um discurso tranquilo, nunca violento. Um árbitro também deve ser proativo no sentido de desmobilizar um jogador de ter esse tipo de ações. Às vezes, passa-se pelo jogador e dá-se uma palavrinha. Qualquer coisa como: "Atenção que estou atento. Você já teve ali uma entrada duríssima e não vou permitir isso. Se está aqui para jogar à bola, tudo bem. Se estiver com outros propósitos, vai para a rua."

Não pode ser um discurso violento, porque isso o jogador não vai entender. Essa abordagem decorre daquilo que um árbitro já conhece do jogador (num campeonato nacional, por exemplo, é muito fácil ir conhecendo todos os que jogam), do que acontece no jogo e do contexto em que acontece — se é uma final ou não; ou se serve para subida ou descida de divisão.

Apercebi-me de que há momentos em que, no recuo de bola para o guarda-redes, este evita tocar nela com as mãos mesmo quando pressionado pelo adversário. Porquê?
Para não ser penalizado. Esta medida evita que, sempre que a equipa que defende se esteja a sentir pressionada, atrase a bola para o guarda-redes para este a agarrar. Isto obriga a que os jogadores se tenham de desembaraçar da bola de outra maneira, não fazendo parar o jogo. A ideia é tornar o jogo mais fluído e com menos perdas de tempo. Mas também obrigou a analisar os guarda-redes não só pela forma como defende, mas também como joga com os pés.

Especialmente quando pressionado.

Se um jogador levar um amarelo durante os 90 minutos e depois outro nos penáltis, é expulso?
Antes, era. Agora, já não. Esta nova regra tem menos de um ano. Após um prolongamento, os penáltis são considerados momentos que já não fazem parte do jogo. Isto significa que se houver uma equipa a jogar com dez e outra com 11 jogadores, a equipa que tem 11 tem de retirar um jogador nos pontapés de penáltis para passar a jogar também com dez. Para que, assim que o jogo recomeçar, nos penáltis, ambas as equipas tenham o mesmo número de jogadores.

E se um jogador for expulso durante os penáltis?
A outra equipa também tem de retirar um jogador. Nos penáltis tem de haver sempre o mesmo número de jogadores nas duas equipas para obrigar a que, quando as equipas tiveram de rodar nos penáltis, rodem ao mesmo tempo. Mas voltando à pergunta inicial: se um jogador tiver um cartão amarelo durante o jogo, em que se inclui o prolongamento, nos penáltis é como se esse cartão não existisse.

Se no decorrer do jogo a bola tocar no árbitro e facilitar um contra-ataque que resulte em golo, este é anulado ou validado?
Até há dois anos, o árbitro era considerado um elemento neutro. Se o jogador chutasse, a bola batesse no árbitro e desse toque resultasse um golo, era validado. Agora é diferente.

Se um jogador chutar a bola, bater no árbitro e esta for para dentro da baliza, o golo é anulado; se um jogador chutar a bola, esta bater no árbitro e for para o jogador adversário, ou seja, se houver uma mudança de posse, é feita bola ao solo par reiniciar o jogo; se ao lançar a bola, tocar no árbitro e isso resultar num ataque perigoso, o jogo é resumido para anular esse lance.

Quando o árbitro assistente diz uma coisa e o principal acha que viu outra, quem tem a decisão final?
Com VAR ou árbitro assistente, a decisão final é sempre do árbitro. Até porque em situações de recurso ao VAR, é o árbitro que decide se aceita ou não a indicação dada pelo vídeo-árbitro. Se nos jogos sem VAR, como na nossa segunda liga, o árbitro dá lançamento e o árbitro assistente dá canto, é lógico que os dois comunicam via auricular para tomar uma decisão em conjunto porque pode acontecer o árbitro não ver o lance com toda a clareza. Mas a decisão final é sempre do árbitro.

Eu próprio, e não foi num jogo qualquer, mas sim num Benfica-Sporting no Estádio da Luz, em 2008, recusei um penálti que o meu árbitro assistente me estava a assinalar.

Que lance era?
Uma bola no braço. Porque vi o lance e tive a perceção de que o braço estava junto ao corpo, ou seja, foi a bola que foi ao braço e não o braço à bola. Interpretei que não era penálti e não o assinalei.

Mas e se não tiver a perceção do lance?
Nesses casos, aceito sempre a indicação do árbitro assistente. Naquele caso concreto, no Benfica-Sporting, tive perceção de que não era penálti e decidi nesse sentido.

Mão ou braço na bola?

Afinal, que parte da mão é considerada "mão na bola"?
Passámos de uma fase em que era penalizado o jogar a bola com a mão com intenção, depois percebeu-se que a intenção é algo mental e que não podemos perceber se a intenção do jogador existe e na última épica estivemos no gesto mecânico chamado ação voluntária intencional. Não interessava tanto se o jogador tinha intenção ou não de jogar a bola com a mão, mas sim perceber se jogou ou não. Nesta última época, qualquer situação de mão na bola estava a ser penalizada.

Uma das modificações que houve recentemente, e que está em vigor neste Euro 2020, é esta: verificar se há um movimento físico da mão (leia-se, a partir da axila para baixo) que antecipa a trajetória da bola; e verificar se aquela mão ou braço está ali por ação natural do movimento do jogador ou se ganha uma volumetria não normal.

Fiquei na mesma.
No fundo, agora compete ao árbitro analisar se, quando o jogador executa aquele movimento, aquele braço está ali de forma normal ou não. Se não estiver de forma natural, é penalizado.

Então deixa de haver um critério?
Exatamente. O critério passa a ser do árbitro. Tornou tudo mais ambíguo enquanto, até há pouco tempo, penalizava-se (mais, é certo) consoante a volumetria. Toda a gente sabe que não se pode passar um sinal vermelho e pode acontecer vê-lo, decidir passá-lo, porque tive essa intenção, e ser multado. Também pode acontecer o inverso: estava distraído, não o vi e não tive intenção de o passar. Mas passei. O que conta não é a intenção, mas o que aconteceu. Nas duas situações, sou multado porque cometi uma infração do código da estrada.

Preferia o contrário, portanto?
Sim, porque o critério seria mais fechado e assim penalizava-se aquilo que foi o ato final. Esta nova alteração não vem clarificar, mas sim dar o critério ao árbitro. Sabemos que quando é permitido a um juiz criar o seu critério, sem indicações escritas que o definam, a tendência vai ser acusar sempre os árbitros de dualidade de critérios.

Então essa dualidade de critérios não tem que ver com o clube do árbitro?
Pelo contrário: tem que ver com a subjetividade e ambiguidade das leis que dificultam o trabalho de qualquer árbitro. Do principal ao VAR.

Como é que se decide que equipa joga com o equipamento alternativo e principal?
Já está definido. No futebol amador, a equipa que joga em casa é que troca de equipamento. Por uma questão muito simples: a equipa que joga em casa tem os equipamentos todos guardados no estádio. Quem vem de fora, não. Atualmente isto já não se supõe, mas há 30 ou 40 anos tinha como objetivo facilitar o trabalho à equipa que se deslocava.

E no futebol profissional?
A equipa que joga em casa mantém o seu equipamento principal e a que vem de fora usa o alternativo. Também tem uma razão muito simples: se uma equipa que joga em casa tem um equipamento verde e branco às riscas, o próprio estádio estará da cor da equipa da casa e faz sentido que, nesse contexto, em que joga perante os seus adeptos, use o equipamento principal com as suas cores.

Há cada vez mais um rigor muito grande com as cores das meias, das camisolas de treino, por exemplo, para que nas transmissões televisivas esteja tudo em concordância com a cor principal da equipa.

E todas as equipas conhecem as cores umas das outras?
Sim. É fornecido uma folha num sistema informático que permite a todas as equipas saberem exatamente as cores uma das outras dos equipamentos principais e alternativos.

No caso de haver um golo e a equipa que marca festejar junto à baliza adversária, é possível à equipa que sofreu reiniciar o jogo se todos os adversários estiverem fora de campo?
Não. Para que o árbitro dê autorização à equipa que sofreu o golo para retomar o jogo após a colocação da bola ao meio-campo, a outra equipa tem de ter, dentro do terreno de jogo e dentro do seu meio-campo, pelo menos sete jogadores. E um deles tem de ser o guarda-redes.

E os outros quatro?
Se estiverem no meio-campo da equipa a quem marcaram o golo, o jogo não é retomado. Mas se estiverem a festejar no banco, fora do terreno do jogo, enquanto os sete já estão no seu lado do campo, o árbitro pode retomar o jogo.

Mas isso faz-se?
Tenta-se não fazer porque deve imperar o bom senso. Aquilo que diz a lei do bom senso é que o árbitro não deve criar um conflito.

Ao apitar sem todos os jogadores estarem no seu lado do campo, vou fazer com que aqueles quatro jogadores fiquem irritados. O árbitro inteligente é o que evita problemas. Por isso, a opção correta é, antes de apitar, fazer com que os jogadores acelerem a sua retoma ao terreno de jogo. Se houver um que insiste em estar fora ou que se lesiona, aí recomeça-se.

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